Você tem uma família, uma carreira e amigos. Você às vezes até tem um parceiro afetivo com quem se relaciona sexualmente e faz planos para o futuro. Você imagina desejar loucamente casar, ter filhos e até pensa nos nomes das crianças.

De domingo de manhã, ainda de camisola , olha atentamente o jornal em busca de empreendimentos imobiliários que caibam no orçamento do seu parceiro e no seu também.

Você imagina conhecer o seu tipo ideal de homem. Você imagina conhecer o seu tipo ideal de vida. Você tem crenças e valores bem estabelecidos desde a infância. Você respeita os valores alheios, mas você não cogita revistar os seus porque desde sempre aprendeu que eles estão certos.

Você imagina ser A ou B. Você imagina gostar de um determinado tipo de rotina. Você está acostumada a almoçar em determinado restaurante e sempre pede os mesmos pratos.

Você imagina que existe uma idade para fazer cada conquista na sua vida. Você imagina que viajar com um parceiro é muito melhor do que viajar com uma amiga. Você imagina que pegar um cinema sozinha é o fim da picada.

Você imagina que sabe tudo sobre suas posições sexuais favoritas e diz a si mesma que se o seu parceiro for ultra responsável com a educação das crianças, sexo bom não é tão importante assim. Você imagina que se o seu parceiro for uma pessoa estável, você pode viver sem um papo inteligente e profundo.

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Você imagina que os homens com cara de certinhos nunca te machucarão. E em nome desta suposta segurança, sacrifica seu espírito de aventura, seu lado romântico, a mulher fatal que quer se manifestar.

Você esquece dos livros que leu para não ofuscar o parceiro. Você sorri placidamente para apaziguar crises. Você finge que está tudo bem porque acredita que está bem mesmo e o seu incômodo é fruto de uma mente mimada.

Você imagina que dando todo o carinho do mundo a quem ama, receberá pelo menos um pouco de consideração em troca.

Não, nem sempre recebe. Mais do que isso. O buraco fica mais embaixo. Mesmo que recebesse , descobriria no futuro que um pouco de gratidão por todo o carinho do mundo é uma troca injusta.

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Descobriria também que gosta sim de sexo e por mais que considere bem importante constituir uma família , a sua vida não pode girar em torno de procriar e dizer à sociedade que você está feliz porque você realizou todos aqueles sonhos que foram introjetados pela tradição.

Você descobre que precisa ser saciada intelectualmente também. Que tem fome de alguém que estimule a sua mente e te faça reinventar seus próprios pensamentos.

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Você precisa de alguém que te ache mais do que a namorada doce e boazinha. Você quer alguém que te ache forte. Você quer alguém que te ache demais. Não porque você seja o modelo de namorada ideal que colocaram na cabeça dele. Muito menos por te achar inofensiva e incapaz de feri-lo.

Você quer alguém que curta os seus excessos, os seus paradoxos e que mesmo com medo os enfrente. Você quer alguém que seja seu melhor amigo.

Não desmereço o casamento nem a maternidade. Muito pelo contrário. Considero uma pessoa de sorte quem encontra alguém para formar uma família. Porém, tudo tem limites. Para formar uma família não podemos abrir mão da nossa personalidade, da nossa individualidade. Não podemos negar pra nós mesmas os nossos desejos e anseios.

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Quando a gente descobre que o nosso eu verdadeiro está amordaçado num porão e um impostor tomou o nosso lugar, assumiu o nosso nome e passou a viver uma vida que não nos diz respeito, precisamos correr atrás de nós. Soltar a mordaça, deixar-se falar.

O mais cruel é que muitas vezes consideramos o eu fake como o eu real. Confundimos personagem com realidade e sufocamos a voz do verdadeiro por se tratar de uma voz inconveniente e destoante do mantra social. É preciso resgatar-se, trazer-se para junto de si mesmo.

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Sílvia Marques
Professora universitária, escritora e estudante de Psicanálise. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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