Está aí uma questão um tanto quanto desagradável para muitos. Falar sobre perdão, tocar nesse assunto e até mesmo ler sobre ele é desafiador. Primeiramente por que, de certa forma, estamos comprometidos com ele, ou já estivemos comprometidos em algum momento na vida. Pior, sempre nos comprometeremos.

Podemos dizer que somos altruístas, sensíveis, empáticos e por isso perdoamos com mais facilidade. Ledo engano. O verdadeiro perdão, quando é dado, é sacrificial. Exige grande esforço e, consequentemente, pode gerar grandes lutas internas. Na verdade, passar pelo processo do perdão nunca será fácil, seja você uma pessoa mais humana ou não.

Ao longo da vida, já estivemos em duas posições quando em se tratando desse assunto: o de perdoador e o de precisar ser perdoado. E não, não existe uma pessoa perfeita que nunca falhou com alguém ao ponto de não precisar pedir perdão ou ser perdoado.

Acreditar nunca ter falhado com alguém representa um sério problema de autoimagem, e com toda certeza torna-se necessário rever as próprias atitudes, pois perfeição não existe, mas narcisismo sim. Então cuidado. Tanto uma quanto a outra posição não são fáceis, pois cada uma vai exigir do ser humano posturas, atitudes e decisões diferentes. Além disso, carregam uma série de sentimentos que afligem em demasia e turvam os pensamentos, gerando dúvidas e conflitos internos.

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Pedir perdão significa assumir o erro, reconhece-lo, e não atribuí-lo a mais ninguém se não a você mesmo, uma vez que você percebe que ninguém mais teria causado o dano a não ser você. Isso por si só é um processo difícil e doloroso. Mas pedir perdão é também sinônimo de humildade e exige coragem, afinal estamos abrindo a porta para receber respostas tanto positivas como negativas daquele para quem o pedido foi feito.

Podemos receber o perdão ou não. No entanto, a dificuldade nesse sentido, não reside na pessoa que reconhece o erro, mas sim naquele que não consegue perdoar. Talvez, pedir perdão seja mais fácil do que precisar perdoar. Veja, quando pedimos perdão geralmente estamos envoltos de culpa e essa culpa gera muita aflição. Em busca de aliviar a angústia (normal, sadia e necessária para que isso aconteça) procuramos pelo perdão.

O processo de perdoar é diferente, pois estamos bem, não causamos danos a ninguém e de repente alguém “fere” a nossa confiança, a moral, a dignidade, o respeito e assim vai. Não são todos que conseguem perdoar, porque perdoar é um aprendizado. Ou seja, para perdoar você precisa já ter necessitado de perdão, de entender que as pessoas falham, cometem erros e por isso não são perfeitas, assim como você também não é. Então perdoar também exige humildade.

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Engana-se aquele que acredita que está acima do outro em determinada situação. Ou que só consegue perdoar se a pessoa se “arrastar” aos seus pés, a fim de convence-la. Isso não é perdoar. É maltratar ainda mais alguém que pode estar sofrendo, e essa situação tem ainda um segundo nome bastante conhecido: vingança. É a diferença entre a maturidade emocional e a infantilidade. Perdoar é sacrificial, porque é sinônimo de doação, e doação é gratuita e voluntaria. As pessoas emocionalmente maduras compreendem melhor esse processo, e buscam resolver tudo aquilo que o envolve, de maneira que não se cause mais sofrimento além do que já foi causado.

Mas então, precisamos perdoar?

Se você gosta de remoer sentimentos, amarguras, de ser ranzinza, de envelhecer precocemente, de se vingar das pessoas e feri-las ainda mais, então perdoar não deve ser uma atitude muito comum na sua vida, muito menos uma necessidade. E acredito que o perdão passa longe de seus conceitos. Vale ressaltar que isso não significa que não passaremos por sentimentos negativos, como a raiva por exemplo, o que é natural. Mas estender o que deveria ser passageiro é questionável e pode chegar a ser até mesmo doentio, além de causar obsessão em muitos casos.

Mas se você prefere liberdade, alívio, paz, se você prefere dar uma chance à harmonia (mesmo que seja somente intrínseca) então perdoar talvez seja o melhor caminho para você.

Precisamos entender que perdoar não é exigir, é doar. E esse processo de liberdade que ele pode proporcionar nem sempre vem acompanhado de alguém que reconhece o erro e pede perdão, nem de libertar alguém da culpa necessariamente. Mas sim, de libertar-se da dor, de valorizar-se e com isso procurar manter a própria sanidade e a integridade psíquica.

Enfim, perdoar é uma escolha, e assim como toda escolha, gera consequências. Portanto, decidir perdoar demanda tempo, respeito e muita reflexão.

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Naara Alho

Psicóloga e atua em clínica utilizando a linha psicanalítica. Colunista do site Fãs da Psicanálise.



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