Se quisermos dar um golpe mortal na violência doméstica ou entre parceiros íntimos, precisaremos analisar em profundidade as situações que permitem que a violência ocorra. Embora conscientes de que muitas variáveis estejam envolvidas nestes processos, faremos um “zoom” num aspecto que merece atenção especial: o ciúme doentio do parceiro.

Para esclarecer o termo ciúme, neste momento, definiremos como o sentimento doloroso de ameaça de perda de algo que se possui. Na opinião de muitos, o ciúme é natural, normal e inclusive inevitável, mas o que mais importa aqui não é a natureza da emoção em si e sim como o ciumento e o outro parceiro lidam com ela.

Os comportamentos dos casais que vivem a violência psicológica, moral, sexual, patrimonial ou física mostram que, no início da relação, aos primeiros sinais do ciúme, acreditavam que era “sinal de amor”; às vezes, até mais do que isto, ele era visto como uma prova de amor, como se fosse parte integrante e inseparável da vivência do amor. E qual é o problema de pensar assim? Isto abre uma brecha – faz com que as cobranças ou hostilidades geradas pelo ciúme se tornem toleráveis.

Esta análise cabe perfeitamente para qualquer gênero, já que o ciúme não é característico de um só. O parceiro ciumento (vamos chamá-lo aqui de A) que usa o seu ciúme para hostilizar o outro (aqui chamado de B), a quem diz amar, está sendo, no mínimo, absolutamente incoerente. Pode-se afirmar que lhe falta competência emocional para não permitir que seu ciúme prejudique o relacionamento, mas olhando por outro ângulo, também podemos inferir que A esteja se aproveitando da crença geral de que o ciúme é normal, aprovável e até desejável, para buscar ter poder e influência sobre o comportamento do B.

Prova disto acontece quando A passa a exigir mudanças de B e até o culpa pelo seu sofrimento. E, numa competição de poder perigosa com B, A se sente ameaçado pela perda, passa agora a hostilizar, utilizando-se de várias artimanhas para confundir e dominar B. Aqui entramos no terreno da violência entre parceiros íntimos e da tortura psicológica. Esta é uma armadilha que pode aprisionar e levar o casal cada vez mais para o desgaste da relação.

A realidade mostra que o jogo do ciúme só acontece com os pares, não individualmente. Enquanto A “joga pesado” o que acontece com B? Muitas vezes, nota-se que B entra na autodefesa ferrenha, mostrando sua dificuldade em enxergar o jogo de A, não percebendo que, agindo assim, facilita que entre e continue no papel da vítima. Assim, o parceiro A, no lugar de vilão, se sente “por cima” e o conflito da relação aumenta.

Noutros casos, B age de modo a se aproveitar do ponto vulnerável de A, provocando realmente o ciúme de A, como que numa gangorra cruel de “quem domina quem aqui”. O pior que B pode fazer, no sentido de caminhar inexoravelmente para a violência e talvez isto seja o mais comum, é ceder ao domínio de A, tentando mudar o próprio comportamento de acordo com a vontade de A, numa tentativa vã de conseguir fazê-lo se sentir seguro, para agradá-lo, ou aplacar a sua ira. Em todas estas respostas ao ciúme, o jogo tende a ser perpetuado, porque faz com que A se sinta mais poderoso na relação, num jogo que se torna cada vez mais violento e perigoso.

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Óbvio que não há uma forma única de lidar com estas situações, mas um destes modos é que B se observe e analise que seu comportamento mantém o círculo vicioso e decida interrompê-lo, não mais compactuando com o conflito. Isto significa buscar ser assertivo, ou seja, agir pensando: “o problema é de A e eu não tenho que me envolver com isto. Que brigue sozinho”. Para isto, B precisa se esforçar para não ceder ao comando de A, não se defender tentando explicar com os mínimos detalhes. Além disto, deve cuidar-se para não provocar, alimentando o ciúme de A.

Agindo assim, B sairá do papel de vítima e convidará A a atuar de forma mais adulta e eficaz para o casal. Se houver realmente amor da parte de A, a tendência é de esvaziar o conflito e a força do jogo. Mas, se A insistir no mesmo comportamento, talvez valha a pena B considerar a possibilidade de pedir ajuda profissional para lidar com os conflitos e sofrimentos.

O ideal e mais preventivo para B é não entrar no jogo de A e usar o máximo possível de competência emocional, comunicação franca e serena. Além disto, é importante abrir mão da crença, absolutamente frágil, de que o ciúme é sinal de amor. Esta é uma forma bastante inteligente e eficaz, porque mesmo que o ciúme surja naturalmente, por causa da insegurança de alguém que ama, destruir o parceiro nunca será normal.

Por isto, a hostilidade e tortura psicológica é um ótimo sinal do início deste jogo cruel. Em vez de insistir em tentar mudar A de qualquer modo, cabe a B estar atento e preparar-se para conseguir ser firme o suficiente para impedir o avanço do jogo e da dominação. Isto já será uma grande vitória e, quem sabe, conseguirá salvar a relação!

(Autora: Dra. Elizabeth Zamerul Ally, médica psiquiatra, psicoterapeuta, especialista em Dependência Química e Codependência)

(Fonte: dependenciaecodependencia)

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