Sabe aquelas pessoas que dizem amar tudo? Amam chocolate e salada, amam esporte e meditação, amam ler e viajar, amam praia e montanha… Amar, amar e amar… que delícia viver assim!

Acontece que amar pessoas é completamente diferente de amar comidas, lugares, atividades, coisas e momentos. Não entro no mérito se é a palavra certa para tudo isso ou não, cada um fala do seu jeito.

Mas o fato, é que o sentimento de amar alguém, é completamente diferente de amar todo o resto, por motivos óbvios.

Tendo isso em mente, acredito que quem utiliza esse termo no cotidiano para expressar gostos, emoções e favoritismos, deve tomar um cuidado redobrado ao falar um “eu te amo” para alguém. Muito mais do que as pessoas que não são “íntimas” dessa palavra, pelo simples motivo de que a chance delas estarem confundindo as coisas são bem maiores.

Explico: quando você ama uma comida, você ama a sensação de água na boca, a sensação de bem estar que ela pode te causar e, por aí vai. A mesma coisa quando você ama uma cidade: na verdade você está amando todas as maravilhas que aquele lugar te proporciona: as oportunidades de lazer, de trabalho, as lembranças afetivas, o clima, o jeito das pessoas que moram la, etc.

Outro exemplo, se você ama pilates é porque você ama se sentir flexível, forte e com boa postura… Este “tipo” de amor é chamado utilitário, ou seja, eu amo porque tenho benefícios, incentivos, vantagens, lucros, proveitos… Amo ou porque me faz bem ou porque evita algum mal.

Mas amar alguém é mais do que um jogo de interesses de satisfação própria. É muito mais do que “colocar na balança aspectos positivos e negativos e se tiver mais coisas boas é amor”.

Amar um ser humano não tem a ver com o que a outra pessoa vai oferecer, no sentido de sanar expectativas e idealizações. Não tem a ver se ela vai ser útil ou representar um papel importante na sua vida.

Tem menos a ver ainda com sentimentos de posse. E, por incrível que pareça, não tem a ver com reciprocidade. Sim, é possível (e até bem comum) amar alguém que não te ama, seja dentro da família, com amigos ou em relações amorosas.

Sabe por quê? Porque o amor está na apreciação, na admiração, no querer bem independente de qualquer coisa, na felicidade de ver o outro feliz.

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Amar é torcer constantemente para aquela pessoa alcançar todos os sonhos; é aceitar que o caminho dela pode ser diferente do seu; é dar um sorriso ao lembrar dela, mesmo que vocês passem anos distantes.

É incluí-la nas suas orações ou nos seus pensamentos positivos. É estar disponível para um abraço aconchegante. É se tornar uma pessoa melhor quando vocês estão juntos.

Percebe a diferença entre amar uma pessoa e uma coisa? Amar genuinamente alguém é uma construção! Tem que ser! Por isto desconfio de quem solta um “eu te amo” na primeira semana de namoro.

No meu ponto de vista um “eu te adoro” ou um “eu gosto de você” seria tão mais sincero, tão mais bonito e tão mais romântico no princípio de qualquer relação.

Conversei outro dia com uma amiga sobre isso que chamo de “banalização do amor”. Ela não vê problemas, é a favor da livre expressão dos sentimentos. Eu também sou, mas será que sabemos separar o gostar do amar?

Acredito que são sentimentos bem diferentes. Às vezes você passa anos ao lado de alguém e nem sabe se ama mesmo, como ter certeza em pouco tempo de convivência? E pior, é justo com a pessoa que escutou isso?

Criar toda uma expectativa, uma segurança de amor que, muitas vezes, é ilusória? E depois? É fácil dizer que não ama mais? “Desculpa, te amei por 2 meses, juro que foi real, mas acabou, fica bem tá? Tchau!”

Dizem que tudo que vem muito rápido vai muito rápido também…

O mundo está precisando de mais amor, é verdade, mas não é sair por aí gritando aos quatro cantos que você ama tudo e todos que essa questão vai ser resolvida. Até porque falar sem sentir e sem agir traz sérias consequências. Esse texto foi direcionado para as pessoas, digamos, intensas.

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Queria dizer que dá pra ir com calma sim, dá pra ser intenso sem ser falso, dá pra ser cuidadoso sem deixar de ser extrovertido, dá pra falar um “te adoro” com lágrimas escorrendo no rosto, dá pra falar “gosto de você” com as mãos trêmulas e o coração batendo forte.

Também dá para falar com o olhar. Dá para falar com um arrepio. Dá para falar até em pensamento. Portanto, muita calma nessa hora! O amor precisa do tempo de maturação.

Como diz a letra de uma das músicas brasileiras mais lindas de todos os tempos:

“Não se afobe, não

Que nada é pra já

O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário

Na posta-restante

Milênios, milênios

No ar (…)”

Chico Buarque

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Rosa Abaliac
Psicóloga e mestre em Psicologia Social. É colunista do site Fãs da Psicanálise.




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