O início do desenvolvimento psíquico se dá desde antes da concepção daquele filho. Afinal, seria menino ou menina? Desejado ou não? Como a mãe lidou com a notícia da gravidez? Lentamente, aquele bebê vai sendo construído a partir do discurso da mãe.

Para ser mãe é preciso que se remeta a tempos em que um dia se foi filha, assim a noticia da gravidez de uma filha mulher faz com que a mãe crie quais expectativas para aquele bebê?

Qualquer bebê precisa de uma mãe capaz de mantê-lo na ilusão de ser ambos uma só pessoa, para pouco a pouco se diferenciarem, porém, muitas vezes isso não ocorre de forma satisfatória. Há mães que não conseguem interpretar os sinais que o bebê lhe direciona, como um choro que remete a situações desagradáveis. Muitas podem interpretar como fome, outros tipos de desprazer.

É certo que a alimentação pode ser o primeiro organizador da vida psíquica, assim esse momento gera ao bebê sensações de alivio do desprazer, acolhimento, conforto e proteção. No excesso ou falta do investimento materno, o corpo fica sem acesso à chave do prazer, originando uma necessidade não atendida e comprometendo a percepção da imagem corporal. (DOLTO, 2004).

Conflitos vivenciados nesta primeira relação baseada na oralidade podem ter associação com a figura materna, assim podem ser expressos através de comportamento alimentar. Conforme o bebê cresce, passa a identificar a mãe como provedora de alimento e ao continuar preso a tal identificação, passará a expressar no ato alimentar suas dificuldades de relação com a figura materna. O ato de comer compulsivamente, vomitar o que come, ou negar a alimentação pode ser remetido ao modo como se lida com aquela relação mãe-filha.

A mãe e seu amor são então necessários para a constituição do feminino. Freud (1933) fala sobre as mulheres que mostram grande ressentimento. O amor parece tão intenso como também marcado por maquiado ódio, sendo uma relação ambivalente. O autor também aponta que muitas mulheres mantêm suas escolhas amorosas muito ligadas a essa relação com a mãe e sua rivalidade.

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Meninas que se sentiram de algum modo criticadas ou pressionadas por suas mães sobre seus hábitos alimentares e de aspectos corporais se mostram propensas a transtornos alimentares e insatisfação corporal, além de problemáticas relacionadas a sua imagem.

A busca de uma magreza impossível pode ser pensada como um modo de independência do corpo diante daquela mãe, rompendo um vínculo e tendo total controle da situação, negando o desejo alimentar, assim como sendo um corpo muito olhado e muitas vezes falado nos meios sociais, o que é preocupante já que aquele psiquismo sofre e o corpo mostra isso de algum modo.

A menina que vive um transtorno alimentar mostra dificuldades em lidar com sua identidade feminina, puberdade e características do sexo, relacionamentos e desejos autônomos. Suas mães talvez lhes anteciparam as experiências, assim não puderam aprender por si próprias, nem sentir a necessidade para se produzir um desejo em satisfazê-la.

Concluímos que a imagem do corpo e transtornos alimentares podem remeter a necessidade de controle e busca de alteridade e identidade em relação a figura materna.

Referências:
DOLTO, F. (2004) Esquema Corporal e Imagem do Corpo. In: Dolto, F. A Imagem Inconsciente do Corpo (2ª ed.). (Noemi Moritz & Marise Levy, Trans.). (pp. 9 -24). São Paulo: Editora Perspectiva. (Obra original publicada, 1984)
Freud, S. (1933/1969). Conferência XXXIII – Feminilidade, Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. Obras completas, ESB, v. XXII. Rio de Janeiro: Imago.

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Mariana Pavani

Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.



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