De certo ponto de vista literal, ou em uma definição da semântica, encontramos um equivalente ao conceito de chamamento. Certo ato de chamar, ou aquilo que chama outrem. Algo que norteia, propondo uma forma de predestinação. Talvez poderíamos propor até um modelo de inclinação que possa sugerir uma tendência.

Algo que, em alguns casos, pode ser descrito como talento, ou em um vocabulário coloquial, uma queda.

A vocação é aquilo que nos invoca. Convida-nos a trilhar um caminho e daí então passa a nos cobrar para que tentemos, a todo custo angariar recursos no intuito de justificá-lo. Essa ideia nos move para certa direção, muitas vezes até sem que percebamos. Algo que está de alguma forma, impresso no espírito.

O que invoca não se cala. Não sossega, mesmo quando se está sossegado. A vocação tem uma relação direta com o sonhar, por conta disso mesmo quando dormimos nossa vocação está em plena atividade. Tem uma face da qual nunca se conhece por completo, mas que ao mesmo tempo, nos chama o tempo todo. Isso é o que a faz objeto de ambiguidade como se amor e ódio disputassem espaço num mesmo pensamento. Apresenta-se num modelo artístico como um dom, do ponto de vista racional poderia chamar de mérito, ou através do vértice místico, quem sabe um chamado do destino.

Essa que pode até ser chamada de habilidade especial, é maior e claramente diferente do desejo daquele cuja alma ela habita. É uma forma de desejo, no entanto, que vem antes do eu desejante. Vocação é um exemplo claro de certo pensamento que estava no mundo antes do pensador, assim como propõe Wilfred Ruprecht Bion (1897 – 1979).

Uma aptidão não depende da vontade do sujeito para existir. Muitas vezes o que se deseja é exatamente não ter certa vocação. Assim como, podemos desejar ter certa vocação da qual pode parecer-nos completamente ausente em nós.

Seja qual for o modelo de relacionamento com a vocação, é um ambiente suscetível a geração da inveja. Alguém que de alguma forma não pode conhecer e assim desenvolver sua vocação, pode invejar aquele do qual, pelo menos aparentemente, desempenha bem a sua. Podemos pensar também em uma situação onde nossa vocação tenha nos levado por caminhos tão tortuosos, que invejemos aquele que (pelo menos a nossa vista) não da a mínima para essa história de vocação.

De qualquer forma, quando pensamos em um deus, sendo nós mortais e vulneravelmente destrutíveis, invejamos seu dote natural que o presenteia com a dadiva da onipotência. O mortal inveja o Deus em sua capacidade de transformação do real naquilo que deseja. O mortal é fascinado com a faculdade do Deus de assistir aquilo que imaginava se concretizar para seu deleite. Mas, pensando unicamente por esse vértice, deixamos de conhecer a experiência de um desafortunado que habita cada Deus. O Deus, de forma inversa ao mortal, inveja exatamente a possibilidade de viver cada dia como se fosse o último. Uma experiência negada a ele, um dom ausente em sua eterna existência.

A necessidade de conhecer a vocações é análoga ou, de alguma forma, coincide com a tarefa do conhecimento do eu. Descobri-la e criar um vínculo com a própria vocação é a criação de um instrumento para nos tornarmos reais no mundo. Em ultima analise, um veiculo para a realização. Uma permissão da alma para que um sonho seja percebido, contido, ou acolhido afetivamente no eu e que daí por diante se desenvolva, cunhando recursos através da criatividade, em prol da realização. Penso que alguém que pode se chamar de “bem sucedido na vida”, é aquele que conseguiu permitir que, assim como no modelo de geração do ato da copula, na própria concepção sexual da vida, algo pudesse ser recebido dentro de si e assim gerasse o novo.

Capítulo do livro Para Além da Clínica. Renato Dias Martino – 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.

(Autor: Prof. Renato Dias Martino)

(Fonte: pensar-seasi-mesmo)

*Texto publicado com autorização do autor.

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