Um texto de João Lobo Antunes sobre ser médico e ser doente, sobre o medo e a morte, sobre o sentido da narrativa na medicina. Também um texto de vida, o escolhido para abrir o seu mais recente livro.

Pouco tempo depois de concluir o meu curso, era ainda interno do «Geral», como então se dizia, comecei a fazer consulta de Neurologia na Associação dos Empregados do Comércio no Largo do Caldas. Esta independência no ofício, tão precocemente assumida, seria hoje impensável. Olhando para trás, e já lá vão mais de quarenta anos, não creio que a minha verdura tivesse causado dano aos incautos pacientes que me procuravam, em parte porque a Neurologia era então muito mais pobre nos recursos do diagnóstico e benigna na terapêutica e, por isso, a nossa ignorância mais inofensiva.

A meu favor tinha, acima de tudo, aquilo que um sábio neurocirurgião inglês chamou «the victorian quality of diligence», uma apreciável formação teórica — parafraseando uma expressão favorita de Nemésio, eu lera tudo para o que desse e viesse — e um ouvido colado ao chão, atento como um índio, pronto a detectar o tropel longínquo da cavalaria.

Ouvir com Outros Olhos, João Lobo Antunes (Gradiva)

Percebi que apenas dispunha de duas armas. A primeira era a minha ciência, resultado de um estudo tenaz, monacal, e uma certa habilidade em articular o que aprendera nos livros e a interpretação da natureza, que me falava pelos sintomas que eu registava e pelos sinais que eu explorava, encontrando‐lhes um nexo, pois a arte do diagnóstico é, como certa ciência, um problema de palavras cruzadas. A segunda circunstância era um ouvido apurado, que con ava que a natureza de quem se sentava na minha frente, se lhe fosse dado tempo e espaço, iria revelar o seu segredo.

O treino de um ouvido absoluto começara de facto na infância, e tomara corpo na adolescência, na leitura exaustiva dos clássicos — os tais livros que na palavra de Lionel Trilling nos leem: «real books read us» —, começando pelos mestres portugueses, depois os franceses e, mais tarde, a literatura anglo‐saxônica, que é hoje a minha dieta. Era já bem crescido, e interno em Nova Iorque, quando o meu Professor me disse ser indispensável ler o Middlemarch de George Eliot para se perceber, entre outras coisas, o risco que se corre quando nos tornamos um clínico reputado. A personagem de Eliot, o Dr. Lydgate, começara como jovem médico idealista, que queria fazer investigação e ajudar os pobres. Acabara com uma clínica de ricos e de lords, frequentava «continental bath places», e escrevera um tratado sobre gota, uma doença de ricos. Contudo, «he always regarded himself as a failure; he had not done what he once meant to do».

“A narrativa da doença é também, não raramente, uma admissão de culpa, do abuso ou do desleixo do corpo, a inatenção aos primeiros murmúrios, às primeiras queixas, pois só a saúde é muda. Tantas vezes é a narrativa também um ato de contrição, e o doente espera de nós nada menos que uma absolvição, aliás, tristemente inconsequente”

A arte da clínica desenvolvia‐se então em dois tempos: a colheita da história e o exame minucioso dos sinais do corpo, a chamada semiologia. A semiologia neurológica era uma arte francesa, como a alta‐costura e a gastronomia, muito preciosa no gesto, cultivada no Serviço de Neurologia, desde o princípio do século XX em Santa Marta, para onde fora importada sobretudo por António Flores. Mais tarde fui surpreendido pela escola americana, para a qual examinar o doente era um exercício quase fútil — ouvi uma vez Houston Merritt, o famoso neurologista americano que a CIA enviou um dia para examinar o Dr. Salazar, dizer: «Do you have to examine the patient to make the diagnosis?» Ou seja, para ele o diagnóstico neurológico emergia, qual Vénus boticelliana, da história clínica. A colheita da história era ensinada aos alunos de modo a ser cumprido um roteiro in exível, e rezava a lenda que o modelo perfeito só se praticava nos Hospitais Civis de Lisboa e que a gente de Santa Maria era, nesta matéria, uma turma de amadores.

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Isto era perversamente demonstrado sempre que um médico oriundo da academia, um estigma desprezível, se candidatava àquela temível e seleta corporação. A expressão então usada, «colher a história», sugeria algo semelhante a uma ceifa ou vindima da informação madura. O diagnóstico saía, carimbado, de um catálogo taxonómico, impaciente com o que nele não se encaixava — o «síndrome febril indeterminado», por exemplo, era uma espécie de capricho da natureza, um segredo passageiro.

Curiosamente, a formulação diagnóstica não poderia estar incluída na narrativa da doença transcrita no que se chamava a «doença atual». A esta seguiam‐se os antecedentes pessoais e familiares e uma exaustiva avaliação dos sistemas que compõem a máquina corporal, como se cada um deles trabalhasse teimosamente só. E assim o doente surgia como um écorché, esfolado pela nossa curiosidade, despido do invólucro que lhe conferia a sua humanidade, que fazia dele um ser singular, irrepetível, e, o que era provavelmente mais relevante pela transcendência moral que isso implicava, por tratar‐se de um nosso semelhante que sofria. De facto, éramos educados para sermos arquivistas, diaristas, cartógrafos, para usar as expressões de A. Kleinmann, focados nos «artifacts of disease», esquecendo que na clínica toda a narrativa deveria ter a oportunidade de ser contada e ouvida. Não raramente o diagnóstico era encerrado precocemente, com o risco de erro que esta atitude necessariamente comporta. Ignorávamos o risco de amar à primeira vista um diagnóstico! Mas essa certeza ou presunção era cuidadosamente ocultada na nossa narrativa.

Estávamos longe do piedoso modelo biopsicossocial, um ideal mítico de provável irrelevância, em parte porque havia uma natural reticência em relação à intrusão que representava o inquirir para além do con m estreito das queixas espontaneamente confessadas. A expressão, que não feneceu, «cada caso é um caso», referia‐se muito mais à singularidade biológica do que à individualidade da pessoa doente. O caso raro era isso mesmo, e o caso interessante era aquele que fazia luzir o acúmen diagnóstico do Mestre, ostentado com displicência, embora não raramente este diagnóstico não tivesse prova, e a sua veracidade apenas fosse garantida pela autoridade de quem o proferia.

Devo dizer, porque isto me parece relevante para o que se segue, que despertei para a literatura imaginativa, se me é permitida a expressão, a literatura «como modo de vida», para usar a fórmula feliz de Harold Bloom, muito antes de ser médico.

Se em algumas obras encontrei referências à Medicina ou à doença, e o interesse sobre o tratamento ccional, biográ co ou autobiográ co da doença só me veio mais tarde, a verdade é que cheguei a médico com o gosto pelas histórias e quando, muitos anos depois, escrevi no prefácio do meu primeiro livro, a que chamei Um Modo de Ser, que era outra a Medicina praticada por médicos cultos, tinha em mente não a erudição literária, mas a cultura que me apurava o ouvido para apreender o sentido mais profundo da narrativa ou os segredos escondidos no interstício do discurso. Era isto que me tornava apto a falar com qualquer pessoa, e elevar o diálogo àquela altitude que permite o olhar horizontal, olhos nos olhos, pois esse é o plano mais fecundo para o encontro de médico e doente.

Volto agora, depois desta longa deambulação, à minha clínica no Largo do Caldas, porque foi aí que descobri pela primeira vez, com maravilhosa surpresa, que todos os doentes tinham uma outra, por vezes secreta, história para contar e, para muitos deles, aquela vertigem, ou insônia, ou dor de cabeça, era um mero pretexto para o fazer. «Sometimes a person needs a story more than food to stay alive», escreveu Barry Lopez. É verdade que com frequência não olhamos para lá da máscara dos sintomas. Esta não é a doença, e esconde uma desoladora solidão, uma perda sem remédio, uma angústia sem consolo, um vale de lágrimas contido a custo por uma frágil película de orgulho. Afinal, tudo isto eu aprendera já com a literatura que devorara durante os verdes anos da minha adolescência.

“Por isso, quando o corpo me traiu, o meu refúgio foi adoptar a impassibilidade do coronel inglês de calças de caqui e pingalim, cuja imagem se gravara, indelével, quando ainda adolescente vi pela primeira vez David Niven na Ponte do Rio Kwai”

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A Associação dos Empregados do Comércio prestava assistência a uma casta de uma nobreza singular: a pequena burguesia da Lisboa de então (já passaram tantos anos!), sobretudo uma clientela de lojistas e empregados do comércio da Baixa pombalina. Gente séria e seguidora de uma etiqueta formal que incluía uma deferência genuína em relação ao médico imberbe que a escutava e lhe oferecia apenas «the empty cup of attention» de que falava Henry James. E foi aí que me narraram histórias que me marcaram para a vida, umas tristes, outras pícaras, todas com o cunho de uma autenticidade pura, sem enfeites, sem disfarces.

Assim eu ouvi em consultas intermináveis (porque o tempo era então in nito) o desconsolo amoroso de uma mulher, cuja idade me parecia inapropriada para o romance que tanto a fazia sofrer, pela indiferença de um homem que ela em vão tentava seduzir. Explicava‐me que o andar em que vivia tinha duas portas e uma delas permitia uma entrada discreta. Mas ele ignorava a chave que ela colocava debaixo do guardanapo, enquanto tomavam chá na leitaria do bairro em que viviam. Para mim, era evidente que não valia a pena procurar a doença no corpo, mas sim tentar uma estratégia mais e eficaz de sedução. De facto, cada vez que aquela mulher entrava no meu Consultório de Neurologia este transformava‐se num Consultório Sentimental, e neste campo a minha experiência era ainda mais curta.

Foi lá que eu descobri como era preciso olhar para lá das aparências, função primordial da Filosofia, e o risco que se corre quando a confidência da narrativa é perturbada pelo jugo tirânico de um cônjuge autoritário. Foi o que sucedeu um dia, quando me procurou um certo casal. À minha frente sentou‐se a mulher, enquanto o marido ocupava com ar resignado um segundo plano. Afinal, era ele o doente, mas, segundo a mulher, era ela que sabia melhor o que se passara. Tudo começara quando um dia o marido «me chegou» a casa muito tarde — e o «me chegou» foi o primeiro indício do despotismo conjugal —, explicando que sofrera um período de desorientação e amnésia quando saíra do emprego. Só à noite recuperara a bússola e dera finalmente com o caminho.

Ela chamou então a casa um neurologista de boa reputação. O médico, aliás, «fazia o favor de ser meu amigo», uma expressão bem castiça de uma circunstância que a Medicina de hoje não favorece. Ao doente foi recomendado repouso, porque sofrera um acidente vascular cerebral. Assim, o homem foi aferrolhado em casa durante um mês. Estava agora recuperado e, como tinha direito a ser atendido na Associação, a mulher levava‐o, desconfiada, à minha consulta. Durante este relato o homem abanava a cabeça numa negação resignada e muda. Semanas depois, voltou sozinho e confessou‐me então, esperando naturalmente a minha cumplicidade — enfim, como o nosso Egas Moniz gostava de dizer, «Tout comprendre c’est tout pardonner». De facto, sucedera naquela tarde fatídica ele ter encontrado, à saída do emprego, uma amiga antiga que o convidou a ir tomar uma bebida a sua casa, e, acrescentava com um sorriso quase malicioso, «O Senhor Doutor sabe como são estas coisas. O tempo foi passando e eu não encontrei outra desculpa senão dizer que tinha sofrido de amnésia». E concluiu, resignado: «Veja só o meu castigo.»

Foi lá, também, que eu percebi como a doença gosta de se explicar por metáforas, embora Susan Sontag quisesse, em vão, defender um discurso diferente quando escreveu que a doença não era uma metáfora, e que a maneira mais saudável de ser (ou estar) doente é a que é mais resistente ao pensamento metafórico: «human beings can and should think of illness from a pure biochemical or physiologial perspective».

Poucos meses depois, parti para Nova Iorque para aprender o ofício, e aí a clínica tinha outra face. Quiseram fazer de mim um cirurgião competente, eficaz, respeitador de uma forma de relação em que havia muito daquele «detached concern» que alguns promovem e outros repudiam. Entretanto, a Neurologia e o seu braço armado que eu cultivava, a Neurocirurgia, sofriam uma transformação radical com a introdução da imagem, da TAC e da Ressonância Magnética, que trouxeram um agrante imediatismo ao diagnóstico e, com isso, abafaram a narrativa da doença. Esta nunca mais recuperou. De facto, as tais mil palavras valiam muito menos do que a imagem ostensiva do inimigo.

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Eu diria que nesse tempo coexistiam em mim o especialista competente e o homem de cultura, duas personagens que se cumprimentavam, mas que falavam pouco — uma estava entretida numa especialidade de um prestígio sofisticado; a outra seguia o seu caminho na busca de novas vozes e outras vistas.

“Prefiro a compaixão ontológica, de bicho para bicho, um sentimento cuja essencial nobreza tem uma raiz biológica que só agora se vai desvendando à comiseração piedosa, um sentimento mais barato”
Foi também lá que descobri a importância da importância, e como esta banhava com impudência a narrativa da doença. De facto, o meu hospital era um lugar para pessoas importantes, e o reconhecimento do estatuto de privilégio de cada um era um passo prévio e indispensável na relação que se estabelecia. Para o doente, isto era essencialmente um mecanismo de defesa, um grito de apelo adicional, a reclamação da atenção exclusiva, o que não surpreende, pois todos os doentes, sem excepção, se encontram no estado que alguém descreveu eloquentemente como de «wounded humanity». Mas, no fundo, a doença é um implacável igualizador e ri‐se do berço e da fortuna.

Ainda hoje a expressão da importância social por quem me procura na clínica privada assume por vezes o disfarce de uma arrogância risível. Entre nós, são sobretudo aqueles que pretendem afirmar a sua superioridade em relação ao clínico que os atende — para eles, um serviçal de uma qualquer Companhia de Seguros — quem mais sucumbe a essa pobre fragilidade.

Quando aqui comecei a ensinar Neurocirurgia, tinha por hábito levar para a consulta os meus alunos, prática que depois abandonei por razões que não vêm agora ao caso. A narrativa do doente era para eles fascinante. Recordo‐me de um dia ter sido visitado por um casal de aristocratas riquíssimos, circunstância já na altura excepcional… Eu avisara os dois estudantes que estavam comigo de que iriam assistir a uma consulta extraordinária. De facto, o Conde não nos desiludiu. Explicou‐nos que as suas dores na coluna tinham começado após a viagem que zera ao Mónaco para participar no baile dos Grimaldi — vulgo Rainier e Grace —, para o qual eram convidados todos os anos. E explicou — «A questão, sabe, é que a suspensão do Bentley é duríssima….» Os alunos ouviam tudo isto pasmados. Depois, porque a hora era já tardia, disse‐lhes que, se quisessem, podiam ir embora. Responderam‐me: «Deixe‐nos car. Isto é melhor do que ir ao cinema.»

A percepção de que a narrativa da doença ultrapassava largamente a sua utilidade heurística foi uma revelação progressiva, e o reconhecimento do poder curativo da palavra tornou‐se, para mim, cada vez mais evidente. Acentuou‐se, contudo, o risco de desencontro no diálogo, pelo uso de dois idiomas diferentes. A linguagem com que o doente conta a sua história é diferente da linguagem do técnico que explica indicações, métodos, riscos e complicações, que parece cinzelada com os instrumentos que usa, no fundo, um pouco da sua segunda natureza. É esta, aliás, a linguagem que usamos para obter o chamado «consentimento informado», um passo cumprido disciplinadamente, sabendo bem que o realmente importante é deixado de fora do que é, na essência, o simples cumprimento de um ritual de con ança, pois ignora valores tão importantes como delidade, diligência, empatia ou disponibilidade. Este consentimento obriga às vezes a usar um paternalismo puro e duro que escandaliza os fariseus da ética, e assumir o risco de declarar com veemência que tal e tal são complicações que nunca aconteceram, embora sabendo que esta é uma verdade precária que amanhã pode ser desmentida.

A narrativa da doença é também, não raramente, uma admissão de culpa, do abuso ou do desleixo do corpo, a inatenção aos primeiros murmúrios, às primeiras queixas, pois só a saúde é muda. Tantas vezes é a narrativa também um acto de contrição, e o doente espera de nós nada menos que uma absolvição, aliás, tristemente inconsequente.

Uma outra dimensão na narrativa só se tornou nítida para mim quando fui obrigado como doente a contar a minha própria história. Então, descobri que uma forma inócua de esconjurar o medo era desdobrar‐me numa outra personagem, essa, sim, realmente doente, tentando preservar, por um narcisismo incongruente, um eu bramânico, distante, inviolável. É que dar voz à doença é necessariamente uma con ssão de vulnerabilidade.

Por isso, quando o corpo me traiu, o meu refúgio foi adoptar a impassibilidade do coronel inglês de calças de caqui e pingalim, cuja imagem se gravara, indelével, quando ainda adolescente vi pela primeira vez David Niven na Ponte do Rio Kwai. Aliás, já no terceiro ano do Liceu Camões o Eduardo Prado Coelho, quando dissertara — teria doze ou treze anos — sobre os diversos tipos psicológicos, tinha declarado: «O Lobo Antunes é eumático.» Fiquei feliz, porque ao diagnóstico associava um fauteuil de couro, um cachimbo e um casaco de tweed.

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Ao mesmo tempo, refugio‐me num certo rigor formal, na gramática precisa das minhas queixas, embora não pretenda cumprir a pretensão de Anatole Broyard, crítico e novelista, que escreveu a propósito da sua doença: «I would also like a doctor who enjoyed me. I want to be a good story for him, to give him some of my art in exchange for his.» Mas recuso a mentira. «Ele olhava silenciosamente aquele homem que lhe mentia», li num dos volumes de Os Thilbault, La mort du père, mas também não me interessa particularmente saber a verdade. Prefiro a compaixão ontológica, de bicho para bicho, um sentimento cuja essencial nobreza tem uma raiz biológica que só agora se vai desvendando à comiseração piedosa, um sentimento mais barato.

“Afinal, ao contrário do que pretendia Sir William Osler, a imperturbabilidade não é um dote a cultivar, mas um verniz com que nos pintamos nos primeiros anos do ofício, que o tempo, pacientemente, vai substituindo pela virtude da compaixão

Esta é a minha maneira de ser doente. Como médico, sou diferente. Aí eu procuro na narrativa todos os indícios do medo, e é curioso como este medo tanto perturba o cirurgião, que parece pensar que tal sentimento é quase uma ofensa à sua perícia ou à sua fama. Na minha especialidade, o medo é, na maior parte das vezes, expresso metaforicamente no receio da cadeira de rodas, muito mais do que deixar de falar, ou ver, ou, o que para mim é mais assustador, de tornar‐se numa pessoa diferente.

Também a maturidade dos anos me ensinou a apreciar mais a porção silenciosa da narrativa, aquela que é também expressa na imagem que o nosso interlocutor nos pretende transmitir: o penteado, os adornos, a maquilhagem, a pose. Embora tal não tenha hoje o valor simbólico de outrora, a minha mãe levava‐nos ao médico com o trajo da Missa de Domingo. A consulta era acto sagrado.

Entretanto, algo mudou nos últimos anos que, quanto a mim, alterou substancialmente o contexto do acto clínico e a sua narrativa e que, surpreendentemente, não tem merecido a atenção que exige. De facto, a narrativa perdeu algo da sua cristalina inocência: o relato pormenorizado dos sintomas, das circunstâncias em que emergiram, por vezes colorido por interpretações fantásticas dos seus mecanismos ou até sugerindo, timidamente, diagnósticos plausíveis. Era brutal e irredutível a assimetria de conhecimento entre médico e doente. Agora pelo recurso à Web — ao Dr. Webb, alguém o chamou — o encontro singular da clínica é como um jogo de sombras em que nós, médicos, ignoramos a medida do conhecimento do outro, que no passado presumíamos ser nulo. Hoje o diálogo tem também subjacente o juízo implícito do conhecimento ou da competência do clínico, e temos de aprender a jogar com novas regras.

Ainda recentemente, apresentou‐se na minha consulta um doente relativamente jovem com um tumor cerebral. Relatou‐me as vicissitudes do diagnóstico e do tratamento, que eu fui comentando com solicitude, até que me perguntou a certa altura: «Quanto tempo tenho de vida?» Não sei por que razão, detectei que a pergunta não era totalmente inocente e arrisquei: «Porque me pergunta isto? Já sabe a resposta, já foi à Net.» Ele con rmou com um aceno de cabeça e eu recordei‐lhe que também certamente lera que havia casos que excediam largamente os 12 a 18 meses de sobrevida, e que essa era uma razão por que não devemos desistir. Esta é a conciliação aceitável com uma esperança que está tão próxima de ser falsa…

Chego ao tempo de hoje, quase cinquenta anos depois de ter começado a aprender esta arte. Uma nova aragem embala agora uma prática que se acha tão sólida no saber e na perícia. Refiro‐me à Medicina Narrativa, que acolhi com regozijo porque me pareceu consagrar um conjunto de ideias e princípios que defendia há muito no que fazia e ensinava. Aliás, muitos dos meus escritos dum género que designei como ensaio (no mais puro sentido montaigniano) estão semeados de histórias (ou «estórias», embora embirre com o gra smo), onde se destilam exemplos do que é singularmente humano neste ofício de tratar. Estes são os tijolos com que fui construindo o meu «currículo escondido», e ampliam o tesouro ccional que vou acumulando desde a infância.

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A «Medicina Narrativa» entendida como disciplina intelectualmente híbrida ganhou a sua alforria com o livro com mesmo título de Rita Charon, e surgiu num tempo certeiro em que as Humanidades vão renascendo. De facto, após um período de declínio, agravado particularmente pela desconfiança quanto aos seus préstimos, as Humanidades têm conhecido novo ímpeto, por se reconhecer que provavelmente só o seu culto permite ganhar a agilidade de espírito necessária para enfrentar uma modernidade tão incerta e tão complexa. No caso da Medicina sentia‐se a necessidade urgente de um contrapeso ao reducionismo da técnica, da superespecialização, da submissão a novas materialidades, novos poderes, en m tudo o mais que cavava um fosso cada vez mais profundo entre as duas culturas do esquema de Lord Snow. Timidamente vão‐se invocando de novo os mandamentos de Sir William Osler — «Listen to the patient» —, e reconhecendo a importância de iluminar de novo obras canónicas que revelam com esplendorosa nitidez os modos mais comuns ou mais inesperados do sofrer.

Para mim, o mérito de Rita Charon foi o ter abordado o tema, não por meio da filosofia a ou da análise histórica, mas simplesmente pela literatura, pelo recurso às obras dos mestres, delicadamente, fugindo ao que poderia ser mais difícil de digerir pelos destinatários, essencialmente os médicos em que persiste uma réstea de desejo de ouvir outras melodias e de se maravilharem com a palavra justa.

Na convicção arrogante e néscia de que o objectivo do ensino se traduz no empilhar desempenhos, os educadores médicos entregaram aos especialistas em técnicas de comunicação a missão de ensinar regras formais para enquadrar o diálogo da clínica, transformando‐o numa espécie de teatro de marionetes, esquecendo, no entanto, que aqui o enredo é improvisado em cada momento. Richard Zaner, a quem este diálogo importa acima de tudo pela oportunidade ética que encerra, nota que mesmo quando bem‐sucedido ca de fora «an inaccessible zone of the Other, the private life which transcends my possible experience». Para Rita Charon, parece evidente que as relações que se «desenvolvem» em Medicina «têm uma estranha semelhança entre os contadores (de estórias) e os ouvintes. […] O que os estudos literários dizem à Medicina é que as relações médicas íntimas acontecem na palavra. É a textualidade, não a sicalidade, que de ne a relação.»

“A idade não me concedeu máscara que oculte a preocupação, a fadiga, a desilusão do insucesso, a dúvida quanto a verdade. A face, com os seus 250 músculos que funcionam como os tubos de um órgão, em incansável polifonia, continua nua, propícia à leitura imediata, mas a expressão é talvez mais doce, o sorriso mais quente. Paradoxalmente, o menor tempo futuro, parece, em certas circunstâncias, conceder mais tempo ao presente”
O objectivo da Medicina Narrativa é «a aquisição da competência em reconhecer, absorver, interpretar e ser emocionalmente tocado pelas histórias da doença». Embora seja evidente que invocar a nossa própria experiência é um argumento espúrio, a verdade é que o «ser emocionalmente tocado» é uma faculdade que, se a deixarmos solta, vai crescendo como uma hera quase imperceptivelmente ao longo da nossa vida como médicos, com o refinamento da nossa dimensão afectiva, e isto não depende apenas do arquivo cumulativo de histórias, mas do apurar o sentido que confere um vibrato emocional cada vez mais agudo àquilo que nos marca como testemunhas ou que experimentamos como sujeitos. E assim, para surpresa minha, os anos foram‐me tornando mais sensível, mais vulnerável, mais humano. Afinal, ao contrário do que pretendia Sir William Osler, a imperturbabilidade não é um dote a cultivar, mas um verniz com que nos pintamos nos primeiros anos do ofício, que o tempo, pacientemente, vai substituindo pela virtude da compaixão.

Esta começa a despontar no dia em que, pela primeira vez, ouvimos o outro sem impaciência nem preconceito, mas com a infinita ternura do homem pelo homem, de que falava Camus, ou seja, como se tivéssemos a ouvir a voz com que falamos a nós próprios.

Chegado ao fim do meu magistério formal na Universidade, pensava que a viagem que iria agora começar seria navegada num mar tranquilo, no gozo de uma liberdade nova que, embora prometida pelos anos vividos e autorizada pelas leis, irrompia agora de surpresa. Finalmente iria fazer aquilo que antes, na minha hierarquia dos deveres, ocupava um lugar inferior, as coisas que eu poderia classicar como os luxos da inteligência, dedicada esta agora à leitura, à escrita, à música, à descoberta melhor daquilo que conhecia apenas de vista. Nunca me preocupou o juízo métrico do que vale o meu espírito, ou, se quiserem, procurem outro termo para designar o labor do cérebro. Mas o espírito tem‐me acompanhado generosamente toda a vida, guiando‐me a conduta e, o que pode parecer bizarro, tem‐me ensinado a pensar, uma triplicidade cúmplice, não muito distinta da trindade da canção romântica que começa «me, myself and I».

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Quando, na noite dos meus 70 anos, dei por mim a pensar que não era mais necessário marcar a hora de acordar, senti‐me como um bicho em cativeiro a quem se abrira a gaiola, mas que partira para o mundo que agora se abria, ainda indeciso e de certo modo ignorante daquilo que o esperava. Assim, fui obrigado a construir uma nova rotina, e as rotinas, dizia Auden, são marca de inteligência, porque nos deixam soltos para as coisas realmente importantes. Surgiu ainda a inevitável tentação de olhar para trás e procurar por baixo da cronologia da minha vida, as correntes subterrâneas, os impulsos imperceptíveis, as in uências de um certo mundo microscópico que nos habita e que nos conduz. A verdade é que, como escreveu a admirável Lydia Davies num extraordinário texto que deveria fazer parte dos cânones da Medicina Narrativa e que trata da morte de uma irmã, «You get older and see things more clearly and there’s less to be happy about. Also, you start losing your family». Na medicina, como na vida, «the past is never dead. It’s not even past», como observou Faulkner.

Continuando com os irmãos escritores, com modesta vénia a São Francisco de Assis, permito‐me citar um trecho de uma carta que José Cardoso Pires me escreveu um dia, a propósito de um texto que lhe enviara, onde o escritor se interrogava — «Quantas leituras tem um livro olhado pelo mesmo olhar a diferentes horas de nós mesmos?» A questão é, pois, a seguinte: ouço eu hoje com os mesmos olhos a narrativa dos que me procuram?

Poderão pensar que na especialidade que pratico, que posso chamar de positivista, as palavras terão pouco préstimo, já que a imagem parece tê‐las dispensado. De facto, a grande maioria dos que me procuram, depois do cumprimento ritual, logo passam à apresentação da sua doença, ou seja, apresentam a doença, antes se apresentarem eles próprios. Assim, desdobram CD ou um monte de películas puxadas de sacos tantas vezes com uma publicidade insólita para a seriedade do momento. Eles trazem consigo o seu tumor, algo que de alguma forma lhes é estranho, um hóspede incômodo, que não haviam convidado.

Daí a pergunta invariável: como é que isto apareceu? A dificuldade é que raramente lhe conhecemos a causa, e esta ignorância diminui‐nos um pouco a autoridade. Mas cabe‐nos sempre a nós a elaboração da narrativa sobre o que significa ter um tumor no cérebro, e misturar nisto o que não é miscível, a incerteza, o risco e a esperança. Percebi há muito que aquilo que, em rigor, poderia oferecer era, simplesmente, tempo, idealmente tempo livre de sofrimento. O que eu não suspeitara é que quando chegasse a esta idade o tempo ia ganhar uma outra velocidade, uma aceleração cósmica, e como isto iria condicionar muito do que penso ou faço.

O tempo foi esculpindo em mim um outro médico, vincando alguns traços, alisando outros. Aprendi que as patologias do cérebro de que me ocupo têm o seu tempo próprio e que a cura é um processo por vezes muito longo, e isso exigiu a aprendizagem de um atributo mais próprio da contemplação do que da acção — a paciência. Mas o que a idade nos ensina também é que a natureza tem as suas razões e o seu pudor, e aprecia muito que a respeitem.

A idade também me ensinou uma maior tolerância em relação ao que ouço e a quem o pronuncia, ou seja, modela como nos comportamos do outro lado da narrativa. Mas, ao mesmo tempo, a consulta é, de certo modo, uma representação, por vezes comédia, mais vezes tragédia, e a idade parece convidar a sentarmo‐nos na plateia.

“Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão”

Devo confessar que me enerva um pouco um certo traço evangélico da «Medicina Narrativa», sobretudo no propalar do mandamento que obriga a oferecer sempre a outra face. É verdade que a simpatia sustentada dá muito trabalho, mas do meu lado do diálogo não há lugar para a antipatia — pelo tom, pelo vestuário, pela arrogância, ou pesporrência, e camos contidos em relação à historia recheada de minúcias inconsequentes, das longas citações em discurso directo, da queixa terrível do «dói‐me tudo», da clara simulação ou da tentativa de outros ganhos, da con ança desa ante em terapias alternativas (que, como gosto de explicar, «só fazem mal à carteira, mas o dinheiro é seu», o que habitualmente os espanta e por vezes irrita), da dúvida em relação àqueles que estão claramente no limiar da verdade, mas do outro lado, ou ainda, nalmente, das palavras dos que a nós querem chegar pela lisonja — «para quê ir aos anjos, se posso ir directamente a Deus?»

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De facto, tenho a percepção incómoda de que a modernidade e tudo o que implica na sua complexidade, nomeadamente uma outra geometria social, veio alterar não só a liturgia do acto médico, mas o seu sentido mais profundo. Não raramente, sinto hoje que quem me procura acha que a sua escolha lhe dá um direito de consumidor, e que pouco me distingue de um empregado de sapataria, ou de caixa do supermercado. Este é o tempo do utente no esplendor total dos seus direitos, como se a consulta fosse uma espécie de transacção, em que se compra a cura, e, caso isto não seja possível ou até desejável — porque, surpresa das surpresas, há quem pre ra não ser curado —, se garante, pelo menos, um atestado.

Por outro lado, a idade não me concedeu máscara que oculte a preocupação, a fadiga, a desilusão do insucesso, a dúvida quanto a verdade. A face, com os seus 250 músculos que funcionam como os tubos de um órgão, em incansável polifonia, continua nua, propícia à leitura imediata, mas a expressão é talvez mais doce, o sorriso mais quente. Paradoxalmente, o menor tempo futuro, parece, em certas circunstâncias, conceder mais tempo ao presente.

Será que isto que fui dizendo é apenas o meu enxoval, feito experiências impartilháveis, insusceptíveis de serem ensinadas, e, se ensinadas, não apreendidas?

Eu desejaria que a «Medicina Narrativa» não se tornasse nem numa disciplina, nem num método, e os seus apologistas, entre os quais me conto, uma seita. Foi isto que me levou, desde o início, a desconfiar da «medicina baseada na evidência».

É possível que a relevância do que escrevi passe desapercebida aos engenheiros de currículos ou aos burocratas da educação — ignorantes do mal que fazem, mas nem por isso mais inocentes —, os que nunca avistaram a alma do que fazemos, ou, enfim, aqueles para quem a cultura dos outros é uma afronta, um luxo, ou um vício. A «Nova Medicina», como lhe chamei, vai deslizando para um mundo novo — o tal, como me disse um aluno, onde os médicos curam com computadores —, o tal mundo 3‐D, onde a casca conta mais que o miolo. Escrevi um dia: «Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão.»

Também aqui, no princípio é o Verbo. Que outros, na literatura, na arte, na filosofia, em qualquer saber que tenha como objecto o ser e o seu tempo, nos ajudem a melhor escutar e a melhor dizer.

*O capítulo agora publicado foi cedido com a cortesia da Gradiva, editora do livro Ouvir com Outros Olhos.

(Autor: João Lobo Antunes)
(Do original: observador.pt/especiais/ouvir-com-outros-olhos/)
*Texto reproduzido com autorização do site parceiro “No final do corredor”.
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