Algo bastante curioso é poder observar a vida das pessoas que, de alguma forma, desenrola-se à nossa volta. São existências que invariavelmente tornam-se compostas pelas alternâncias de altos e baixos emocionais, fazendo com que, ao trafegarem pela estrada da vida, busquem chegar a algum destino em particular.

Alguns desses viajantes, mais céticos e castigados pela sua história pessoal, passam fases expressivas de sua existência atribuindo responsabilidades, ao culpar o mundo por seus infortúnios, enquanto que outros, mais otimistas e aparentemente perseverantes, tentam de alguma forma menos derrotista exercer algum tipo de controle sobre sua trajetória de vida.

Assim se dá o caminhar vivencial de muitos, isto é, alguns descrevendo sua existência com mais leveza e tranquilidade, enquanto outros, referindo-se ao passado com mais pesar e sofrimento.

Entretanto, uma coisa é certa: a grande maioria das pessoas carrega, em sua bagagem, uma espécie de mapa que indica a direção e o caminho a ser seguido.

Assim operam as coordenadas psicológicas da travessia de nossa vida, ao apontar, dentre outras questões, as métricas de sucesso pessoal. Esses indicadores de triunfo incluem, por exemplo, poder ganhar mais, viajar com mais frequência, comprar melhores roupas, frequentar locais mais falados e, finalmente, juntar quantias expressivas na conta bancária. Esses marcadores de ascensão estão quase sempre associados ao moldar os contornos da felicidade humana.

Para se pensar

O que ninguém nos contou é que, caso tenhamos a competência de sermos bem-sucedidos, muito provavelmente não conseguiremos nos sentir preenchidos da maneira com a qual um dia, lá atrás, enquanto jovens, imaginávamos poder acontecer.

Pesquisas científicas mostram, por exemplo, que o conceito de satisfação pessoal aumenta, proporcionalmente, em função da rentabilidade econômica que obtemos. Assim, se ganharmos um salário mínimo, atingiremos um determinado padrão de felicidade e essa ascensão de satisfação aumentará, proporcionalmente, nossa autoimagem até que em um determinado ponto se estabiliza.

Cientistas indicam a curiosa marca de vinte salários mínimos para o teto-expansão de nossa autoestima e, depois disso, quer consigamos trinta, três mil ou trinta mil salários mínimos mensais, desfrutaremos, sempre, de um nível muito semelhante de satisfação pessoal.

A conclusão final é a de que, mesmo os mais exitosos carregarão também, no final das contas, um senso limitado de realização, semelhante aos outros, menos exitosos, que ainda brigam presos às circunstancias da vida.

Assim, uma coisa é certa: em um determinado momento da vida, quer estejamos com nossos bolsos cheios ou vazios, seremos visitados por aquele tão conhecido vazio existencial. Tal fato é inexorável e ocorrerá a todos, mais cedo ou mais tarde, pois aprendemos erroneamente que robustez emocional se dá como resultado do acúmulo de bens.

Qual alternativa temos?

Simples. Falamos tanto em diversidade, respeito às opiniões política e religiosa alheias, tolerância às orientações sexuais distintas das nossas, ecologia, mas sequer conseguimos desenvolver lá muita consciência daquilo que sentimos e o que, verdadeiramente, somos.

Parte expressiva das pessoas vive ainda de maneira completamente inconsciente, carregando sua letargia emocional como parceira fiel ao longo de toda uma existência, ou seja, como se vivessem sequestrados de si mesmos.

Estou exagerando? Vejamos então.

Quais são suas maiores vulnerabilidades psicológicas? O que você faz para se aprimorar e superar suas dificuldades emocionais? Por que você se vê sempre às voltas com o mesmo tipo de problemas? Por que, muitas vezes, acaba agindo de maneira irresponsável como forma de enfrentamento de suas adversidades?

Por que você não é honesto consigo mesmo como necessitaria? O que tem feito, efetivamente, para diminuir sua insegurança e poder sentir-se bem no trabalho e em suas relações pessoais mais próximas?

Alguma resposta pronta?

Conclusão

Ou realmente tocamos o chão em algum momento de nossa vida, ou passaremos o resto de nossa existência tentando nos distrair daquilo que, verdadeiramente, nos incomoda.

Muitos, infelizmente, pouca consciência terão, outros a despertam apenas tardiamente, enquanto que outros, finalmente, apenas se tornarão um pouco mais lúcidos em alguns dos momentos marcados pelas tragédias pessoais, mas, logo em seguida voltarão ao velho sono letárgico.

Seja qual for sua condição, pare e pense naquilo que você precisa se tornar hoje, assegurando assim que sua existência não seja, mais uma vez, desperdiçada. Afinal, o que sua vida está tentando lhe mostrar?

Fonte: cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br

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Cristiano Nabuco
psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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