Culpas conscientes e inconscientes, ganhar ou perder, sorte ou azar… a vida humana é sempre cheia de conflitos e impasses. Sentimentos como culpa, vergonha, medo, inveja, desejos de vingança entre outros modos de sentir muito naturais ao ser humano e que muitas vezes são inconfessáveis.

Há muitos ganhos em se manter na condição de vítima, contudo a posição de ganhador ou perdedor varia segundo o ponto de vista, além de ser muito mais fácil se manter na posição de coitadinho. Por que isso?

Talvez essa posição seja resultante de falhas na maternagem, problemática gerais em relação com os pais, um lar caótico, vivências de violência, traumas, entre outras possibilidades. O paciente que chega ao consultório parece então viver uma cegueira afetivo-cognitiva, temendo qualquer mudança e aproximação do seu verdadeiro eu, busca então a psicoterapia para apoio e alívio.

Conto de natural que o ser humano tenha muitas raiva e agressividades contidas, como paciência que vivenciaram uma série de tragédias em suas vidas e se mantém buscando culpados, incapazes de perdoar. Ocupam posições de vitimas-heróis e por onde passam transferem as pessoas o quanto elas são incapazes de ajudá-lo e deveriam fazê-lo. Uma eterna relação sadomasoquista que mantém esses pacientes sempre na defensiva e na passividade, ao mesmo tempo em que instigam agressão alheia. Se amo a partir do modelo em que fui amado por meus pais, certamente esse paciente viveu essas dinâmicas em tempos primitivos.

Por meio da culpa as pessoas evitam cometer crimes, mas muitas vezes os criminosos sem nenhuma culpa intensa. Como dizia Bion no processo de análise com ladrão não há que se transformar este paciente em alguém redimido, mas fazer com que ele arque com as consequências de seus atos e continue um ladrão.

Na neurose as pessoas vivem intensos sentimentos de culpa, muitas vezes pedindo desculpas por erros que não cometeram. Uma intensa necessidade inconsciente de castigo, acompanhada de um intenso medo de que o outro o acabe punindo, torturando ou fazendo algo que talvez possa ser evitado quando se assumir um erro que não é seu por medo.

A intensa dependência dos pais de um bebê, dependendo do modo com que a família lida com ele, a criança pode intensamente continuar na vida adulta a buscar o reconhecimento desses pais, com muita culpa pelo desconforto gerado no lar.

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Muitas vezes é difícil lidar com agrados e elogios, concordar que realmente merece, pois parece tão inundado no pessimismo culposo difuso. Ser eternamente o culpado é o modo como aquele ser encontrou para continuar vivo e manter sua economia psíquica. Mais fácil depositar a culpa nos pais ou psicanalista.

Tudo tem um preço assim a culpa excessiva gera como identidade fraca e difusa, contaminada por uma mãe que não deu conta, porém melhor crer que a mãe é maravilhosa. Sempre melhor se manter na superficialidade, defensiva contra as vivências de impotência diante das desgraças da vida. As pessoas usam dos signos, mágicas, folclore, entre outras superstições para que realidade se torne mais suportável, ao mesmo tempo em que eternamente se culpa alguém.

Nos mitos gregos a morte raramente é natural, assim a pessoa fez algo e foi punida, a vida foi retirada dela, por isso a morte é resultante do mal feito em vida. Muito mais do que morrer, antes se sofre bastante, “paga pecados”, isso habita inconsciente coletivo das pessoas parecendo que a medo de morrer ao mesmo tempo uma culpa em ser sobrevivente.

Quem ganha tem culpa por suas fortunas, não se sente merecedor, ao mesmo tempo em que os que ocupam posições de desvantagens, se sentem roubados ao mesmo tempo grupados por tamanha inveja.

Difícil viver em tempos de tamanha desigualdade social em que ambos extremos lidam com a culpa e olhares invejosos, pior do que isso, negam seus sentimentos. Onde há muita caridade certamente há sentimentos muito agressivos mascarados, assim como facilmente as pessoas apontam os erros alheios, pois sabem, no fundo, que sentem inveja daquele ser. Culpa e inveja caminham juntos, assim como uma série de sentimentos inconfessáveis do ser humano. Não somos belos nem bons o tempo todo e talvez seja difícil acreditar nisso.

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Mariana Pavani
Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.

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