Passei noites de insônia sonhando acordada com você. Consciente e ansiosa a espera do dia em que apareceria novamente. Perturbada pelas lembranças de nossa noite única, vasculhava as entranhas de minha memória em busca de vestígios que me indicassem o seu retorno. Nossa história, curta e intensa, resumida em um simples conto.

Conto este, lido, revisado tantas vezes, transformou-se em objeto de esperança. Teria eu imaginado todas as linhas, sentido todos os momentos em um sonho bom, inebriada por essa expectativa louca de te ter pra mim? Não mais sabia. E se verdade fosse, teria tido o mesmo significado para nós dois? Creio que não.

Teu silêncio torturante me reduzia a uma mera tola apaixonada, apenas mais uma, perdida entre tantos outros corações iludidos. Eu te buscava em noites frias de solidão. Onde quer que eu estivesse te imaginava caminhando em minha direção, segurando em minha mão ao dizer “estou aqui”. Mas você não estava. Os rostos na escuridão em nada pareciam com o teu, os cheiros trazidos pelo vento não me contavam memórias, nem histórias de uma noite de amor.

Mas em um dia de chuva, como desses qualquer, que corremos para atravessar a rua fugindo dos pingos d´água, que se fazem cada vez mais inconvenientes, foi que te encontrei, do outro lado da rua a me esperar. Você me convidou, com teu sorriso secreto a dançar na chuva, sem música, com a promessa de que tudo ficaria bem. Foi nos seus braços que ali, mesmo não sendo feito de açúcar, eu derreti. Você me amou de tamanha forma, me entregando a alegria de ter meu sonho realizado. Um sonho lindo, um sonho de amor.

A chuva cessou, as noites de insônia transformaram-se em aconchego divino. Estar em seus braços tinha gosto de pão com manteiga, molhado no café. Quase perfeito, não fossem os farelos caídos ao fundo da xícara. Nossas almas estavam sintonizadas em uma mesma frequência, promessas, soltas em todo momento, enchiam meu peito de uma loucura sã. Cada gesto, cada olhar, cada toque, transformavam meus dias em prazer constante, inenarrável. Você me acompanhava em minha jornada e em troca eu lhe dava a mim mesma, em um ato de me sentir completamente entregue. Você tinha a mim em teu coração e eu te mantinha em meu corpo inteiro, com direito a alma fiel.

Os dias correram intensamente, porém poucos existiram. E um dia ao abrir os olhos aconteceu o inevitável, mais temido pelos amores realizados. Acordei em pesadelo amargo. Você foi para longe de mim novamente. Seu corpo permanecia ali, ao meu lado, mas teu olhar estava distante, não mais me enxergava. Sua insistência em me fazer voar sem você, me mostrou a realidade corrompida. O amor de outrora se dissipava de uma forma sem contenção.

Ficava eu agora a imaginar qual o erro cometido poderia ter sido evitado, ficava eu, perdida a encontrar respostas para perguntas que não deviam ser respondidas. Seu sorriso ao me olhar estava ausente, a dor presente em sua recusa, rasgava meu peito. Estar em sua presença não era mais saboroso e te sentia cada vez mais infeliz.

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Empurrava-me para longe de você, me fazendo te enxergar como um pássaro a polinizar outras flores, mais coloridas, mais distantes. Suas promessas voaram com o vento, junto com as pétalas de gérberas que um dia me presenteou. Sua insistência em dizer que não havia nada diferente transformou meu amor em decepção. Pois não esperava menos de você do que honestidade. Não tinha o direito de me pôr louca a tentar entender algo sem explicação. Você, meu amor, já sabia desde o começo o fim dessa história, possuía em teu corpo tatuado o destino de todo amor irreal; Liberdade.

Era o que importava para você. Ao perceber a resposta em sua própria pele, sucumbi. Os dias tornaram-se frios, não apenas as noites. A insônia amiga de outrora também me abandonou, difícil era abrir os olhos e não te encontrar ao meu lado. Sem dar adeus foi que te vi partir, permanentemente da minha vida. Esperei que olhasse para trás numa súplica qualquer, mas já não sentia sua vontade a me desejar e então foste, sem remorso, sem culpa, caminhando em direção ao mar. Seu corpo estava leve, seus cabelos negros brilhavam na noite serena. Sereno estava. E, feliz.

Enquanto eu permanecia estática sem acreditar. Levei alguns minutos para dar meia volta e retornar ao meu humilde mundo. Novamente só, fugindo da chuva. Fico aqui a sentindo cair em minha pele, embrulhada em minha dor dilacerante, reduzindo-me a um ser molhado e sem rumo. Na busca de me encontrar onde me perdi, doando a melhor parte de mim, sinto-me incompleta e arrependida. Queria ter forças para te enfrentar e exigir de volta o que me roubou. Mas essa parte de mim que você levou contigo não pode ser reconstruída, de nada adiantaria tê-la de volta.

Encontro-me perplexa em ter vivido um amor tão passageiro, que assim como o sentido único da palavra, tende a ser rude e tantas vezes cruel. Não podem retornar ao ponto de partida e nem descer no ponto final, é um típico “passageiro”, perdem-se no meio do caminho de sua amarga vida. Enfim elas desceram, lágrimas de um mundo destruído.

Volto-me à memória da nossa noite única e apago os dias em que sequestrou a minha vida. Você não mais existe. Dissipou-se no tempo, na velocidade das paixões sem sentido, deixando a lembrança de um momento bom, mas que jamais deveria ter existido. Agora sigo adiante, sem dúvidas, sem esperanças de rostos na estrada. Pego o conto escrito uma última vez e reduzo-o ao seu único significado, um mero conto. Como outro qualquer.

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Mia Coutinho
Publicitária por formação, aeromoça por opção e escritora por paixão. Virginiana, perfeccionista, mãe do Henri. Entre fraldas e mamadeiras, entre pousos e decolagens, entre artes e artimanhas, ela escreve. Escreve porque para ela, escrever é como respirar: indispensável à vida! É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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