Um dia eu levei uma rasteira da vida. Dessas que a alma se deita no chão sem forças para se levantar. Aquela dor profunda incessante parecia não ter fim. Ao olhar à minha volta, eu me senti abandonada à própria sorte, sem rumo, sem destino, depois do que vivi intensamente.

O barco parecia ter naufragado, achei que não voltaria mais à superfície, achei que ali sucumbiria para sempre. Anjos pareciam ter cuidado de mim, anjos pareciam ter me ensinado o caminho da volta da vitória da volta por cima. Parei de querer desistir de mim, parei de achar que somente eu sofria dores tão intensas. Mal dormia, mal comia, não sentia vontade de nada. Não via apoio em lugar algum; minhas pernas caminhavam em busca de alívio e superação.

Talvez, tenho sido algo necessário para meu aprendizado, talvez tenha sido uma forma de Deus me mostrar que, apesar das minhas decisões de ter seguido a vida sozinha, eu não deveria confiar tanto assim em sentimentos que vieram fácil e facilmente se desfizeram.

Minha conduta foi viver o luto e transformar aquilo em passagem de vida, conscientizando-me de que seria “bola para frente”, sem tentar culpar ninguém por isso. Confesso, foi difícil! Vivia dentro da sombra do passado na esperança de que ele voltasse e novamente se encaixasse em meu presente. Mas não, ele acabou transformando meu coração em uma ilha, em um deserto em um canto menos invasivo e ao mesmo tempo silencioso.

Talvez, ouvir que “eu tinha que retomar minha vida” tenha sido as palavras mais doidas que ouvi. As pernas tremeram, o coração acelerou, o choro convulsivo veio como se quisesse me libertar de todo sofrimento vivido durante o tempo em que me senti desprotegida de tudo, inclusive de amor. E foi ali, exatamente onde deixei minha alma entregue, que mais me machuquei. Sabotaram meus sentimentos, sabotaram meus desejos, meus planos meu sorriso de cada manhã.

Vi que eram laços que se desfizeram numa manhã fria de um dia em que não esqueci.

Acho que a maior covardia do ser humano é prometer o que não pode cumprir, é prometer cuidar e abandonar o barco, sem deixar notícia. É fugir como quem sai pela porta de emergência, sem dizer o porquê.

Dizem que possuímos uma memória emocional, a memória que guardamos as dores e os prazeres mais profundos. Chama-se: RAM – Registro Automático de Memória.

Por vezes nos infiltramos nesses sentimentos que nos atraem, como forma de ver que assim como tudo aconteceu. O tempo nos ensinou a vencer esses conflitos através de nós mesmos. Entre um intervalo e outro, eu aprendi que “se não é mais para ser, não será”. Esse fio que muitas vezes me conecta a esse elemento chamado saudade me atrai ao passado e a essas lembranças. Mas são lembranças, passagens da minha história.

Ainda bem que consegui modificar tudo a tempo, que consegui entender que viver é isso. É o que preciso passar. Muita coisa está passando, muita coisa está chegando. Não vou parar de gostar de mim. Não vou esquecer que sou importante para mim. Quero deixar o novo chegar. Meu desejo é que cada um encontre essa força que liga ao etéreo, reencontrando-se com a vida de forma mais harmônica. Todos nós temos o direito de nos reconstruir.

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Sil Guidorizzi
Paulista, libriana. Escritora. Autora do Livro Amor Essência e Seus Encontros - Editora Penalux. Com seu jeito simples, enxerga a vida por um ângulo mais íntimo. Debruça-se sobre as palavras, e gosta de ser. Ser alguém que aqui veio para deixar um pouco de si com um muito de sensibilidade e imaginação em meio às coisas que escreve e sente. Deus a colocou onde deveria estar. Em meio às palavras, sensações e seus encantamentos. É colunista do site Fãs da Psicanálise


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