Qualidades positivas e negativas todos nós temos. Se formos exageradamente críticos em relação aos defeitos alheios, corremos o risco de vivermos sozinhos, isolados em nossa necessidade de perfeição. Porém, aturar constantemente certas atitudes destrutivas vindas da mesma pessoa pode ser muito prejudicial ao nosso crescimento pessoal e à nossa saúde mental.

Algumas pessoas bloqueiam o nosso ar; apagam a nossa luz e se tornam inimigos mais perigosos do que os oficiais. Um inimigo declarado, muitas vezes, nos estimula a crescer. Um inimigo declarado pode ser um contraponto para nos superarmos. Um inimigo na pele de amigo pode minar as nossas energias e destruir a nossa autoestima e vontade empreendedora.

Algumas pessoas podem ser muito educadas e até mesmo simpáticas, mas nem por isso são amigas. Muitos amigos te recebem bem; te parabenizam no seu aniversário; te convidam para festas; dão carona e te presenteiam em datas importantes. Mas nem por isso são verdadeiros amigos. Como assim? Em minha opinião, um amigo verdadeiro, no sentido mais profundo da palavra, é aquele que te ajuda a crescer como pessoa; alimenta sua autoestima e te faz se sentir feliz.

Muitas vezes saímos para comer uma pizza e tomar um vinho com um amigo. O restaurante é super aconchegante. A comida deliciosa. O atendimento cortês. O vinho excelente. O seu amigo sorri e fala manso. Mas, ao voltar para casa, por uma razão desconhecida, você não está feliz nem se sentindo mais leve ou preenchido afetivamente. Muito pelo contrário. Você está com dor de cabeça ou a musculatura tensa. Ou simplesmente está com o coração pesado; a alma estranhamente agitada, sem energia, mal humorado.

Das primeiras vezes que tais sintomas aparecem, costumamos não ligar a sensação de desconforto com o amigo. Com o passar do tempo, começamos a nos tocar de que existe algo de errado e passamos a observar as atitudes, as palavras e principalmente o tom de voz e a linguagem corporal do nosso amigo que não nos faz feliz.

Começamos a perceber que por detrás de uma máscara de polidez, existe toda uma estratégia consciente ou inconsciente para nos derrubar. Prefiro acreditar que muita gente nos machuca sem se dar conta; sem perceber.

Vamos a exemplos para ilustrar a teoria? Você pensa em mudar de emprego porque está super infeliz no atual. Você diz ao seu amigo que já começou a enviar o seu CV para muitas empresas; que quando arranjar algo melhor, pede demissão. E o seu amigo tenta te convencer, de forma sutil, de que você não tem capacidade para trabalhar em um lugar melhor; tenta te fazer se conformar com uma vida horrível. Por outro lado, esta mesma pessoa mudou de emprego ao se sentir insatisfeita.

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Exemplo 2: Você fala sobre uma pessoa que te paquerou. E o amigo em questão tenta fazer você acreditar de que na verdade não foi uma paquera, mas sim uma brincadeira que fizeram com você. Por outro lado, esta mesma pessoa vive te contando histórias em que ela é a protagonista de assédios sexuais e paixões arrebatadoras. Enfim, ela se desenha como alguém altamente desejável, mas tenta te provar que você não é.

Exemplo 3: Vocês vão sair juntos. Você se prepara com cuidado. Capricha mesmo na produção e nunca recebe nenhum tipo de elogio pela roupa, pelo make up, por nada.

Exemplo 4: o amigo só fala dele mesmo; das realizações; de quanto ele é inteligente, competente e bem sucedido. Mas as conquistas dos outros são sempre pequenas e sem importância. Nada de bom que você faz merece um “Que legal!” animado ou um “Nossa! Como você é corajoso ou determinado etc etc”

Exemplo 5: O amigo é ansioso; tem pressa de realizar as metas; quer tudo para ontem: amor, bom emprego, casa própria, experiências memoráveis. Mas quando você se mostra ansioso para obter algo, ele simplesmente não entende o seu sentimento de urgência. Enfim, na cabeça dele, as coisas precisam acontecer rapidamente apenas para ele. Você pode esperar.

Exemplo 6: Você conta algo bom que te aconteceu e de alguma forma o amigo tenta tirar o brilho da sua alegria.

Exemplo 7: Ele entende nada do seu trabalho, mas como acredita saber tudo; ele tentará competir contigo ao conversar sobre os assuntos profissionais da sua área. De alguma forma, ele quer te provar que ele é tão superior a você, que ele te supera até mesmo na sua profissão.

Enfim, um amigo sabotador, conscientemente ou inconscientemente, te faz se sentir pequeno, medíocre e sem brilho o tempo todo. Ele rouba toda a luz para si e a você resta apenas agradecer por ter o privilégio de ser amigo dele. Um amigo de verdade nos admira e nos motiva. Um amigo de verdade considera o nosso saber. Um amigo de verdade aplaude as nossas conquistas e nos critica quando fazemos algo realmente errado.

Criticar uma atitude desonesta ou egoísta é dever de um amigo de verdade. Criticar as nossas qualidades positivas é atitude de um sabotador. Um amigo de verdade desperta o nosso melhor; nos faz sentir capazes, grandes, especiais, plenos. Agora, responda a você mesmo: quantos amigos estão te fazendo realmente feliz ultimamente?

(Imagem: Felix Russell-Saw)

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Sílvia Marques
Profa. doutora , idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU, escritora e psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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