Quando nossos filhos são bebês, morremos de peninha quando eles têm uma febre, sentem dor de ouvido ou choram por colo e companhia.

Quando crescem mais um pouquinho morremos de peninha de mandá-los pra escola em manhãs geladas, de obrigá-los a comer verdura, de mantermos o castigo prometido.

Aí crescem mais um pouco e sofremos horrores ao vê-los levantar tão cedo pra estudar, ficamos magoadíssimos com seus amigos quando os rejeitam, queremos matar suas namoradas que os fazem sofrer. Mais tarde morremos de pena de vê-los se esfalfando pra dar conta dos milhares de compromissos que assumiram.

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Normal. Deve ser coisa da Mãe Natureza (aquela sem vergonha) que em nome da manutenção da espécie mantém em nós os instintos de superproteção e nos tira o critério prático – além do imenso amor que sentimos por eles, claro.

Na minha humilde opinião, não há nada de errado em querer que nossos filhos tenham todas as chances e confortos possíveis. Mas há sim muito de errado em querer poupá-los da própria vida, e a própria vida tem milhares de dificuldades cotidianas, um monte de perrengues, mil defeitos e problemas a solucionar.

Amar uma criança é entender que ela precisa ser preparada pra vida, e que precisamos saber dosar a proteção e a exposição deles à ela. Sentir pena, querer compensar ou poupar uma criança de algo que faz parte da vida infantil é tirar dela a chance de se desenvolver, de aprender maneiras de resolver seus pequenos perrengues, de estar em contato com a vida como ela é.

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Existe uma linha de maternagem em franco fortalecimento que prega que a infância é um momento muito difícil e que não devemos desamparar as crianças nem por um décimo de segundo.

O próprio conceito de amparo dessa corrente é bem amplo: essas pessoas acreditam que é preciso estar 100% disponível para os filhos, parar tudo a qualquer manifestação de tédio, medo, fome ou insegurança, que se deve acudir imediatamente a criança a qualquer momento por qualquer motivo, que refuta o uso do “não” a qualquer custo, por crer que o “não” frustra, e acredita que pra deixar as crianças seguras é preciso fazer praticamente todas as suas vontades no tempo que elas determinarem.

Não é uma linha desprezível, porque levanta pontos que sempre ignoramos ao educar as crianças – e ser criança realmente não é tão fácil como acreditávamos até outro dia. Mas, no meu entender, essa maneira de pensar acaba alimentando, com suas soluções – que delegam às crianças um poder que elas não tem condições de administrar – uma insegurança absurda.

Ao sentirmos pena por tudo e por nada, ao acolhermos qualquer queixa, mesmo aquelas que sabemos ser infundadas, a criança sente que o mundo é hostil e que ela não é capaz de viver nele sem depender intimamente de alguém o tempo todo.

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Eu prefiro acreditar que com amor e paciência (e uma boa dose de autoridade), conseguimos perfeitamente ajudar nossos filhos maiores a cumprirem suas obrigações sem autopiedade ou drama, conseguimos, firme e amorosamente explicar a uma criança que ela não pode abrir o presente que comprou pro amigo e muito menos ficar com ele. Que ela não pode ir pra escola com a roupa do balé.

Não há necessidade de grandes cenas, gritos, ameaças (que quando não cumpridas apenas aumentam a insegurança da criança quanto à sua confiabilidade). Há sim a necessidade de que a dinâmica estabelecida seja cumprida, que pais ou tutores sejam responsáveis, determinem coisas e façam com que essas coisas sejam cumpridas. O leme do navio deve estar na mão dos adultos, sempre.

Se teu filho teve que passar por uma cirurgia e tem que fazer um jejum, o que é triste e pesaroso em último grau, ele deve sim ser acolhido e amparado, mas a vida tá aí fora o esperando para desempenhar seus papéis, em pós cirúrgico ou não.

Então, cuidado com as compensações. Todos nós conhecemos casos de rebote emocional pós trauma, que muitas vezes não foi alimentado pelo trauma em si, mas pelo excesso de zelo no pós trauma, que gerou insegurança e necessidade de amparo constante.

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Compensar os filhos por cumprir suas obrigações ou ajuda-los a sabotá-las (pais de crianças em regime fazem isso DEMAIS, por exemplo) traz a eles alguns sentimentos que serão muito prejudiciais vida afora, e o primeiro e o pior deles é a autopiedade, que gera insegurança, que favorece crises de ciúme e compulsão por controle. E, elogiá-los em excesso, ao contrário do que se acredita, não desfaz esses medos todos. Amor é outra coisa, nós sabemos bem.

E, claro, todas as conversas, todos os nãos, todos os cumprimentos de combinado devem ser ditos com calma, firmeza e amor. O controle é nosso, e, quando o perdemos, a família toda perde.

Amor e gratidão.

(Autora: Fabiana Vajman)
(Fonte: paisqueeducam.com.br)
*Texto publicado com autorização da administração do site

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