Vivemos um tempo em que se está muito em voga nos noticiários e em diversas reflexões nas redes sociais a questão do ódio, da agressividade, da intolerância.

Não é incomum nos impressionarmos com a crueldade de um determinado ataque terrorista, ou sentirmos medo de sair na rua pelo risco constante de sermos assaltados ou simplesmente agredidos por nossos posicionamentos. Tudo isso somado a uma mídia que vende – com muita facilidade – a violência em seus noticiários. Onde nasce todo esse ódio?

Talvez, para alguém com a mente aberta, seja fácil admitir que o ódio não está somente presente nas pessoas que cometem as atrocidades noticiadas. Ele pode estar presente muito próximo a nós, inclusive em nós mesmos.

Não é difícil ver discussões no transporte público, por algum desentendimento (ou mal entendido) qualquer. Também tem se tornado mais corriqueiras as práticas de violência coletiva, os chamados linchamentos, em nome de uma suposta justiça sendo feita.

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Vemos ainda pessoas recebendo agressões físicas ou verbais, gratuitas, simplesmente por sua orientação sexual ou seu modo de se vestir.

Se uma pessoa esbarra em mim no corredor do ônibus, logo me sinto agredido, mesmo que não tenha me machucado.

Posso não tomar nenhuma atitude, mas sinto aquele ódio nascer e agrido a pessoa em meus pensamentos. Ou, se aquele familiar me perturba, falando comigo de forma insistente e inconveniente, logo nasce aquela vontade de atacá-lo. E até chego a agredir, física ou verbalmente.

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Assim, olhando “para fora” ou “para dentro”, percebo o ódio e a intolerância para com as escolhas do outro. Entretanto, a raiva é algo que pode fazer muito bem. É muito necessária para que tomemos decisões e coloquemos nossos limites para os outros.

Mas nesse texto falo do ódio e da intolerância, que ultrapassam o limite do meu bem estar, e avançam, sem razão alguma, na busca da destruição do outro.

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Se um funcionário de uma loja me ofende ao receber uma reclamação minha, é muito natural eu sentir raiva. Minha reclamação não era uma ofensa pessoal e ele parte para esse caminho.

A raiva surge para eu colocar um limite. Eu posso dizer que vou denunciá-lo, posso me calar e deixá-lo falando sozinho, ou posso reclamar dele para o seu superior. Porém, se me sinto profundamente ofendido e procuro xingá-lo também ou até agredi-lo fisicamente, estou tomado pelo ódio, pela intolerância.

Digo, com meus atos, duas coisas: 1) Ninguém deveria ultrapassar meus limites, logo, tenho o direito de revidar como quiser; 2) Eu jamais ultrapassaria o limite de ninguém.

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Ora, será que ninguém deveria ultrapassar meus limites? Quantas vezes eu não ultrapassei os limites de alguém, sem nem perceber, ou até mesmo percebendo e não me importando?

Nos reportamos, assim, à outra frase. Dizer que jamais ultrapassaria o limite de alguém é mentira. É algo impossível. Ao longo da vida e do amadurecimento isso já ocorreu e continuará acontecendo, mesmo que sem querer e pedindo desculpas posteriormente.

Admitir isso, que somos falhos, que podemos ferir, maltratar, magoar, mesmo sem querer, é algo duro demais para muita gente. Prefiro então negar. Todavia, quando nego minhas fraquezas, nego também a do outro. Elas me são insuportáveis. Se eu não posso, ninguém pode. Aí nasce o ódio…

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Se eu não posso admitir que é natural, e que eu mesmo poderia sim ter desejos homossexuais, nunca poderei aceitar serenamente que outras pessoas o sejam.

Se eu não posso assumir que sinto inveja do celular de certas pessoas e que, se me sentisse à vontade, praticaria eu mesmo um furto, nunca poderei querer algo para um pequeno delinquente a não ser sua morte. Aí eu digo que “bandido bom é bandido morto”. Logo eu, que nunca admiti e nem olhei para meu “lado bandido”.

Dessa forma, projetando no outro e no mundo o que não suporto em mim, vou agredindo, destruindo, ferindo. E, pior, achando que estou sendo justo, correto.

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O ódio nasce no que não quero ver. E perde força quando vejo e admito. Quando percebo minhas fraquezas. Quando as acolho como se abraçasse alguém muito querido…

Sinta-se convidado(a) a se perceber, sem medo, e ver: afinal, onde é que nasce o seu ódio?





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