É divulgado com frequência o aumento do número de divórcios e de lares conduzidos unicamente ou pela mulher (ex-esposa) ou pelo homem (ex-marido); e também tem aumentado o número de pessoas que vivem sozinhas, sem coabitação.

Separações têm ocorrido em número significativo, quer entre nossos familiares, entre os grupos de amigos, colegas e simples conhecidos, como já apontei.

A estruturação dessas novas composições familiares, a estatística referente revela que o número de famílias constituídas por apenas pais homens que habitam com os filhos sem a presença da mãe ou os lares em que as mães habitam com os filhos sem a presença paterna aumentaram cerca de 16% na última década. Já as famílias de estrutura convencional, constituídas pelo pai, pela mãe e os filhos, apresentaram um decréscimo em torno de 6,5% no mesmo período.

As causas promovedoras de tais constituições familiares podem ser aventadas entre as mais possíveis ou mais comuns. É bem provável que, em um número expressivo de casais acima descritos, a moção pulsional amorosa (movimento inicial da pulsão, nascimento do instinto amoroso) endereçada entre seus pares, talvez não tivesse o vigor suficiente para sustentar o relacionamento.

Quando a ligação é imediatista, intensa, faz-se tênue com o tempo e mostra-se frágil para enfrentar dificuldades do cotidiano do casal.

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São homens e mulheres que teriam se unido, uma vez instalado um clima de paixão entre eles, efetivando casamentos ou uniões correlatas com base prioritária em desejos erótico-sexuais mútuos, sem a base afetiva necessária para um compromisso de médio ou longo prazo.

Creio que a maior liberdade sexual, nesses casos, não esteja sendo maduramente aproveitada. Há, também, a possibilidade de uniões efetivadas por um ou ambos os parceiros, com a intenção principal de ter mais liberdade do que na casa de origem, por desejo de emancipação, ou ainda, por algum tipo de desentrosamento ou desconforto com as figuras dos pais, visando ficarem “livres” deles ou de sua tutela.

Outra possibilidade, esta já milenar, seria a sedução de um ou dos dois por algum tipo de interesse de ordem material, de poder ou busca de melhor status social; base também muito frouxa em termos de sustentação de uma convivência de longo prazo.

Outro equívoco é o de se tomar como amor um sentimento forte de admiração, seja pelo desembaraço social ou pela posição profissional da pessoa desejada. Aqui se trata de um Amor Transferencial. O resultado é que, tendo como bases tais motivações interrelacionais até sustentáveis no seu início, dificilmente uma situação como essa se efetivará amorosa em seus termos fáticos e não encontrará alicerce para que se sustente.

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O casamento oficial até ocorre, mas não se formará um par amoroso suficientemente forte; donde, em muitos casos, o distanciamento de um dos cônjuges e a condução, pelo outro, da criação dos filhos, que pouco verão seus pais funcionando em parceria.

A assunção da casa pelo pai ou pela mãe separados vai depender da disponibilidade e da aliança afetiva entre eles e os filhos, o que equivale levar em conta as respectivas pulsões (ou instintos) paternas e maternas e suas intensidades. Em nosso meio, o mais comum é a mãe ficar com os filhos. Entretanto, há muitos casos em que a guarda dos pertence ao pai ou é com ele compartilhada.

Considero importante o registro do aumento das pessoas que vivem solitariamente, tendo ou não a experiência prévia do casamento. Trata-se de uma opção que tem aumentado nesses dez anos (algo em torno de 10%).

É possível referir-se a pessoas que não tenham grandes demandas pulsionais paternas ou maternas, não necessariamente de conteúdo patológico, mas é possível, também, se tratar, pelo menos em alguns casos, do receio que as responsabilidades de um casamento acarretam e a dificuldade destas pessoas se imaginarem pais, muito por aquilo que tenha sido apreendido pelo esgarçamento familiar abordado logo acima. Aí seria um mecanismo de evitação, até mais compreensível do que se lançar em um casamento, com ou sem procriação.

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As fraturas das relações familiares devem ser refletidas em suas consequências para com os filhos, que quanto mais próximos estejam de seus processos iniciais de formação, são mais candidatos a apresentarem quadros que variam da angústia pelo pai (ou pela mãe) que não está e que não o é de fato, até quadros mais graves.

Tais gradações dependerão da qualidade das relações amorosas e afetivas dos pais antes e depois da separação. Um fato inconteste, não somente em nosso país, mas no mundo ocidental em geral: a maior agressividade verbal e física dos filhos em relação aos mestres, colegas e aos próprios pais, mesmo ainda casados. A separação pode proporcionar vida mais saudável aos membros do casal em litígio, mas não é certo que seja indiferente aos filhos, podendo haver difíceis situações consequenciais.

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Cláudio Persio
Médico Psiquiatra e Psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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