Para começar a falar sobre anorexia, veja esse texto que elucida bem a sua relação com o sofrimento psíquico:

melancolia é descrita por Freud como um prolongado trabalho de luto em reação a perda de uma pessoa ou imagem construída desta pessoa amada. Diante dessa dor fica difícil investir o psiquismo em outras coisas que não o objeto amado e perdido. Viver o luto é necessário e normal, mas até quando? Talvez a resposta seja baseada na intensidade do sofrimento e na capacidade de investir em outras atividades. O melancólico não consegue fazer novos investimentos em realizar suas atividades rotineiras, falta interesse no mundo externo, sente dificuldade em amar e desejar, vivendo uma intensa inibição de suas capacidades.

Por um lado há uma intensa fixação no objeto amado por outro um intenso investimento neste objeto amado e perdido, a melancolia é uma intensa ambivalência ao mesmo tempo em que a uma intensa falta de libido. Como então podemos pensar a relação da anorexia com a melancolia?

Na anorexia nervosa, a maioria das pacientes no caso mulheres, podem desenvolver o quadro depois de vivenciar intensa perda, como do amor de alguém, uma mudança, desemprego, morte de um ente querido, falência, entre outras situações que parece haver uma intensa identificação com a miséria.

Talvez um certo pensamento maníaco tome conta deixe psiquismo abalado e faça a paciente crer que alguma coisa deve ser mudada no seu corpo para que as coisas mudem, ao mesmo tempo em que fica difícil aceitar o externo, seja alimento ou ajuda.

Sempre que se pensa em alimentação há que se pensar a relação materna, já que o primeiro fornecedor de alimento ao bebê é a mãe, seja na vida pré-gestacional até a atualidade. Nada é mais falado do que o corpo que emagrece até se aproximar da morte, todos comentam, seja o porteiro do prédio, no shopping ou encontros de família. O corpo da anoréxica é sempre apontado e claramente doente, porém talvez o nosso padrão de beleza atual confunda um pouco o que deve ser elogiado ou sinal de doença.

Alguém que sofre com anorexia quer ter o intenso controle sobre seu corpo e a firmar sua independência, assim não precisa de nada nem ninguém para dar conta de si. Quando ocorre algum desmaio ou situação em que precise de ajuda, esse sentimento de independência é questionado, afinal precisa muito mais do que de alimentação, mas de nutrição em seus múltiplos sentidos.

Um corpo extremamente magro perde a forma feminina, assim essas meninas deixam de se ver como objetos desejado sexualmente, assim espero que o seu eu real seja olhado.

A maioria das pacientes que desenvolvem o transtorno são adolescentes, as quais passam por grandes dificuldades em lidar com seu corpo ora adulto e ora infantil. A magreza é tanta que fica difícil pensar sobre a sexualidade, passam por uma fase em que tentam se separar e diferenciar de suas famílias. A melancolia então parece invadir a forma corporal, fazendo do corpo uma grande evidência de sua dor psíquica.

São muitas ambivalências entre o desejo de comer e o medo do descontrole, amor e ódio, Independência e dependência. Toda dor se transforma em dor física, como se o objeto perdido fosse encarnado, um morto vivo. Deixam de ser luz e passam a ser sombra da dor. Recusar o alimento é recusar o outro, temendo ser invadido e buscando se proteger.

São meninas que tem dificuldade em reconhecer o quanto estão pedindo o seu próprio corpo, afinal elas sempre se vêem com certa gordura, como sujeira e impureza. Lutam bastante mas contra si mesmas, apesar do desejo não ser o da morte mas de encontrar o perdido/morto.

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Mariana Pavani
Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.

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