Conversei esses dias com Josie e ela estava triste e preocupada com Alan, um bom amigo dela, que está com câncer. Não conheço esse seu amigo, mas senti a dor de minha amiga como se fosse minha. Quis fazer algo, quis ajudar, mas não sabia como. O que dizer a alguém que não conheço e que passa por um momento tão difícil? O que dizer a alguém que está com câncer? Penso que só posso dizer o mesmo que diria a ele se fôssemos bons amigos.

E assim o digo, ao bom amigo de minha boa amiga, que não conheço pessoalmente, mas que sinto como se conhecesse, na forma desta carta:

Querido Alan,
Imagino que sua vida não é mais a mesma, desde que você recebeu esse diagnóstico. O momento que atravessa com certeza não é fácil. Creio que eu, por estar distante e não lhe conhecer pessoalmente, não posso fazer muito, mas gostaria que soubesse que torço para que supere, o mais rápido possível, essa fase nada agradável de sua vida e gostaria também de partilhar com você essas minhas palavras, na esperança de que elas lhe possam ser úteis de alguma forma.

Peço-lhe que cuide bem de sua alimentação. Seu corpo vai precisar de toda energia disponível e essa energia vem principalmente do que você ingere. Nosso corpo cria novas células constantemente e essas células são praticamente feitas daquilo que comemos e bebemos. Penso que, independentemente do tratamento e do caminho escolhido, uma boa alimentação é a base de tudo. Seu corpo precisa de novas células saudáveis para combater células doentes. Talvez fosse bom você conversar com um(a) nutricionista, que analise seu caso e veja junto com você o que poderia lhe fazer bem e o que deveria evitar.

Outra coisa que eu recomendaria seria buscar um bom profissional na área de fitoterapia. Há muitos remédios naturais, a base de plantas, que podem ajudar, não substituindo, mas auxiliando o tratamento convencional, fortalecendo seu corpo, reequilibrando o organismo. Mas, por favor, nada de curandeiros milagrosos de esquina que prometem cura fácil! Deveria ser alguém que realmente entendesse do assunto e que trabalhasse junto com os médicos e não contra a medicina. Nessa área, a medicina tradicional chinesa é muito boa. Mas há outros profissionais excelentes. Teria que ver se tem algum perto.

Se você achar que esse seria um caminho bom para você, converse com quem está lhe tratando. Seria bom que os médicos soubessem e concordassem com qualquer tratamento paralelo, mas não creio que algum médico teria algo contra uma boa alimentação e fitoterapia por um bom profissional.

Uma coisa que gostaria de lhe pedir ainda é que não se isole, que não tente se mostrar mais forte do que é, que converse sobre seus medos e inseguranças, mas também sobre seus sonhos e esperanças, que se abra com pessoas próximas de você e de confiança. Nunca creia que você tem que enfrentar esta fase de sua vida sozinho.

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Não se deixe desanimar. Busque fazer as coisas que lhe fazem bem, sempre dentro do possível, mas também não menos que isso, aproveitando a fundo cada momento bom. Isso ajuda o lado psíquico, pois não tem coisa pior que ficar triste num canto pensando na doença. Não perca o encanto, movimente-se, permaneça no fluxo da vida, pois é nessa direção que devemos ir. Peço-lhe que saia de casa sempre que der, vá se encontrar com pessoas legais, passeie em lugares que gosta, de preferência na natureza. E estar em movimento tem outra vantagem: fortalece seu corpo, o abastece com boas energias.

Pense em você nesta fase difícil de sua vida, seja “egoísta”, concentre-se em seu tratamento e dê prioridade a você mesmo. É um direito seu. “Probleminhas” de outras pessoas podem esperar.

Busque o contato consigo mesmo, com honestidade e abertura, e aproveite esse momento também para entender como tudo aqui é passageiro, como tudo e todos passam, como também nós passamos. Nossa presença aqui, como corpos, é finita e pode acabar a qualquer momento. Digo-lhe isso na esperança de que, apesar do medo e do sofrimento que sente, você consiga enxergar o quão libertador é perceber essa nossa temporariedade neste mundo, já que essa percepção é o antídoto contra o veneno do ego, que nos prende a tanta coisa sem real importância.

Quando olhar para trás, não se concentre no que foi feio, no que fez mal, mas sim nas coisas boas que viveu e conheceu, nas pessoas que lhe fizeram bem e o bem, nos encontros e nas experiências que lhe fizeram crescer, nos momentos em que você sorriu e se sentiu feliz.

Pensar no que foi bom nos enche de um sentimento que também é libertador e só nos faz bem: a gratidão. Quem, ao invés de fixar o olhar no que fez ou faz mal, prefere pensar no que foi ou é bom termina percebendo quanto motivos temos para ser gratos e quem é grato perde amargura e fica mais suave, o que diminui o estresse, o que termina sendo novamente bom também para o corpo.

Quem é grato sofre menos em momentos difíceis, mesmo nos muito difíceis. Se uma pessoa grata percebe que chegou sua hora de ir, ela sofre menos que alguém que não agradece à vida por ter vivido e prefere reclamar, atacar e fazer cobranças à vida por estar morrendo. Alguém que sente gratidão por sua vida irá partir com o sentimento de que valeu a pena. O ingrato irá se lamentando.

E se uma pessoa grata percebe que ainda não chegou sua hora, ela também aqui sofre menos, pois valorizará muito mais cada dia a viver, cuidará mais e melhor de si mesma, daquilo e daqueles que são realmente importantes. Já o ingrato é capaz de voltar para o mesmo ponto que estava antes, reclamando de tudo, sem ter aprendido nada e, assim, sofrendo mais.

Para terminar, gostaria de lhe dizer ainda que não perca nunca a esperança, pois tudo tem um sentido. Acredito que somos guiados (Por quem? Por algo/alguém que tem muitos nomes!) e que, se há um sentido, nada do que você está passando será em vão.

Bom, amigo de minha amiga, era isso que eu queria lhe dizer. Estamos juntos em pensamento. Fico aqui, torcendo por você!

Um forte abraço
Gustl Rosenkranz

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Gustl Rosenkranz
Blogueiro residente em Berlim. Apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa, sobre a vida e tudo que a toca. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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