Você conhece alguém que simplesmente te irrita, alguém que, só de imaginar já te da nos nervos? É verdade que, pessoas diferentes nos fazem sentir emoções diferentes. Por exemplo, tem aquele que já começa o dia arrumando problemas “o problema é que…” Tem o que adora falar que a situação esta difícil e que tudo é “um saco”.

Você já conheceu alguém que gosta de fazer humor negro ridicularizando os outros? Aposto que sim e com certeza já ouviu falar sobre os mecanismos de defesa do ego, de Freud, projeção e coisa e tal. Não? Então, vem comigo, pois, neste pequeno artigo, vamos discutir o que é e como funciona a projeção.

COMO FUNCIONA A PROJEÇÃO?

“Os homens só pensam naquilo.”

“Fulana é falsa.”

“Inexplicavelmente, ela não gosta de mim.”

Nessas sentenças, encontramos muito mais julgamentos, avaliações do que observações, enquadrando-se no que a psicanálise chama de projeção.

Segundo Freud, um dos mecanismos mais comuns de defesa do ego contra nossas próprias sombras, é a projeção. Parece inconcebível, mas a pessoa com projeção lida com sentimentos reais, sem admitir ou estar consciente que a opinião ou o comportamento temido é dela mesma.

Note, quando uma pessoa diz “fulano inexplicavelmente não gosta de mim”, exemplifica claramente a projeção, pois, é ela quem não gosta de fulano “gratuitamente”.

“Imaginamo-nos tão perseguidos pelo ódio, que o ódio acaba nascendo, nos outros em resposta aos nossos cáusticos mecanismo de defesa. O outro vê a nossa defensiva como hostilidade gratuita; isso desperta os seus mecanismos de defesa e ele projeta a sua sombra sobre nós.”

Sob a mesma insígnia, opera o julgamento, que só existe, quando uma pessoa enxerga o mundo com certo maniqueísmo, como o bem e o mal ou o certo e o errado. O julgamento funciona como uma sala de espelhos que confunde o próprio julgador.

“A medida que eu tenho que ser correto e bom, ele ou eles se tornam portadores de todo o mal que não consigo reconhecer em mim mesmo.”

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Muitos cristãos, por exemplo, ao tentarem viver a altura de Deus, não conseguem lidar com suas sombras e as reprimem de onde saem projetadas no “demônio” ou nos “outros”. Assim, é muito comum, o julgador “projetar” no outro o engano sobre quem ele pensa que é e com um comportamento inconsciente delatar a verdade.

Mas, não se engane, nem tudo é projeção, não se apenas informa, mas se julga ou avalia com forte afetação emocional então estará presente a projeção. Será necessário que se afine a escuta, que perceba a coloração emocional, a emoção negativa ou a irritabilidade.

Estaremos envolvidos na projeção quando a afetação emocional for de tal sorte que nosso poder de escolha paralisa, quando não conseguimos abandonar, aceitar uma pessoa ou mesmo modificar uma situação. Basta você querer se tornar consciente que verá com mais facilidade.

Assim, K. Signell, adverte:

“A sombra precisa ser reconhecida e ganhar o seu lugar. Você precisa convidá-la para sua mesa de jantar, civilizá-la do melhor modo que puder e examinar tudo aquilo que ela tem a lhe oferecer. Você não pode deixá-la armando escândalos do lado de fora da porta; não pode deixá-la andando furtiva, causando problemas na sua vida.”

Você perceberá que, a dualidade é uma realidade que não pode ser negada, só se é generoso, se for também mesquinho. Só se é corajoso, se for também covarde. Só será altruísta se for também egoísta.

O que nos torna “maus” é tentarmos esconder de nós mesmos quem somos, pois a partir daí, só enxergamos nossa sombra projetada nos outros. Não existe caminho fácil, “só depois de termos ficado realmente chocados ao ver como somos de verdade, em vez de nos ver como queremos ser ou pretendemos ser, é que podemos dar o primeiro passo rumo a realidade individual.”

Portanto, o que a psicanálise consagra como “retificação subjetiva”, desponta como a possibilidade de pararmos de culpar os outros pelo nosso estado ou infelicidade e passarmos a trabalhar para que tais aspectos se modifiquem em nós. Quando aceitarmos que, também possuímos características negativas, “os outros” nos incomodaram casa vez menos e o ciclo da auto-sabotagem será diluído, pois, “só quem conhece a si mesmo sabe o peso da cruz que carrega.”

TRÊS EXEMPLOS DE PROJEÇÕES

Quem são aqueles a quem querermos constantemente a companhia, aqueles que escolhemos como amigos ou com quem sempre saímos para almoçar no trabalho? Geralmente são pessoas que achamos que têm as mesmas características ou qualidades que nós.

Essas qualidades positivas que conseguimos ver facilmente no outro, é a que eu chamamo de projeção homóloga, por exemplo, quando alguém exclama “ainda bem que ela é brincalhona como eu”.

Paralelamente a isso, existem, características que vemos no outro e que ainda não conseguimos ver em nós mesmos é a que chamarei de projeção invertida. Por exemplo, pessoas que se dizem “para raios de tranqueiras”, reclamam que só atraem namorados errados, quando na verdade não atraíram nada, apenas, não estão dispostos a reconhecer esses aspectos negativos em si.

E, por último e não menos importante, surge a projeção caricata, que é aquela que por ironia aponta para um defeito que possuímos, mas que só conseguimos ver no outro, quase como uma caricatura. Portanto, fica claro que, certos relacionamentos despontam como projeções e que podem funcionar como ótimos instrumentos de expansão da consciência, tornando-nos mais hábeis para nos conectar com os próximos.

Agora, eu te pergunto: ” O que te irrita no outro?”.

Bibliografia:

– Freud, S. Obras Completas. Vol. XX, Rio de Janeiro: Imago, 1969.
-Abrams, Jeremiah e Zweig, Connie. Ao encontro da sombra. Editora Cultrix: São Paulo, 1991.
-Hillman, James. Código do ser. Editora Objetiva: Rio de Janeiro, 2001.
– Freud, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa. Editora Civilização Brasileira, 1986.

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Fernanda do Valle
Fernanda do Valle é Psicanalista do FV Instituto, formada pelo Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo, atua como Psicanalista desde 2009, seguindo uma orientação Freudiana e Lacaniana, atende jovens e adultos em sessões presenciais e online. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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