Os gatos estão muito relacionados ao mistério, ao oculto. Mais do que isso: estão relacionados a tudo aquilo que não podemos prever nem controlar. Vou mais longe ainda: Gatos nos ameaçam pois são mais independentes afetivamente do que cachorros, exigem menos cuidados, nos amam com mais liberdade.

Toda esta conduta desprendida dos pequenos felinos pode inconscientemente nos remeter a amantes que nos desejam com mais desprendimento. Amantes que apesar de nos quererem em sua vida, precisam do seu espaço, da sua autonomia. A independência do outro põe em dúvida se somos amados, cutuca as nossas feridas da carência.

Ok.Ok.Ok. Gatos são felinos e se assemelham em muito com seus primos pouco amistosos. Ok.Ok.Ok. Muitos filmes de terror utilizam gatos e tais imagens grudam na nossa memória. Por outro lado, existe algo de muito instigante na antipatia excessiva que muitas pessoas sentem pelos gatos. Gostar de cachorro é normal. Gostar de gatos gera preconceito em muitas pessoas que consideram seus admiradores e donos como pessoas mais frias e egoístas.

Leia Mais: Os gatos nos ensinam que o amor de verdade sempre volta para casa

Psicanaliticamente falando, entendemos que as fobias carregam um conteúdo simbólico. Como assim? Muitas pessoas morrem de medo de borboletas mesmo sabendo que elas são inofensivas. Muitos outros temem os palhaços e/ou bonecas. Existem os que se apavoram diante da possibilidade de ficarem presos em pequenos ambientes. Ou ainda que temem qualquer tipo de exposição social. As fobias são muitas. O mais importante é compreender que o problema não reside nas borboletas, nos gatos ou nos palhaços. Tais objetos representam algo para quem sente medo. Algo que a pessoa não consegue identificar.

Os gatos estão muito relacionados ao mistério, ao oculto. Mais do que isso: estão relacionados a tudo aquilo que não podemos prever nem controlar. Vou mais longe: Gatos nos ameaçam pois são mais independentes afetivamente do que cachorros, exigem menos cuidados, nos amam com mais liberdade. Toda esta conduta desprendida dos pequenos felinos pode inconscientemente nos remeter a amantes que nos desejam com mais desprendimento. Amantes que apesar de nos quererem em sua vida, precisam do seu espaço, da sua autonomia. A independência do outro põe em dúvida se somos amados, cutuca as nossas feridas de carência.

Vou mais longe ainda: quantas pessoas que não aceitam a própria independência não podem se incomodar com os bichanos pois veem neles toda a liberdade que negam para si mesmos? Fazemos parte de uma cultura que enaltece a subserviência, a falsa modéstia e confundimos amor com dependência afetiva. Identificar-se com um gato é admitir que o amor é maravilhoso, mas que temos nossas necessidades individuais. É dizer para si mesmo que não é preciso estar junto o tempo todo com a pessoa amada para viver o amor, que precisamos dos nossos momentos de solidão, que às vezes queremos pensar apenas na gente.

Além da independência, gatos estão muito associados à sensualidade/sexualidade. Inconscientemente falando, o gato pode incomodar aqueles que temem a própria sexualidade ou investem pouco na sensualidade.

Cachorros e gatos são fascinantes de formas diferentes. Os primeiros, talvez, por tudo que idealizamos. Os segundos, por tudo que podemos de fato ser.

(Imagem: Fausto García)

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Sílvia Marques
Profa. doutora , idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU, escritora e psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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