A encontrei quando ela voltava do trabalho, na verdade, de seu primeiro dia de trabalho. Quis conversar com ela sobre seu dia para saber como tinha sido, mas ela sinalizou claramente que não tinha tempo, pois havia trazido muito trabalho para casa.

Achei estranho alguém já ter tantos afazeres depois de somente um dia de trabalho e quis saber melhor, ficando bastante surpreso com a resposta: “Conversei com meu chefe e vi que a empresa está com muito trabalho. Tenho que me apressar, pois já vi que eles não vão dar conta sem mim.”

Ali ficou claro que eu estava lidando com uma perfeccionista, já que é uma característica do perfeccionismo sentir-se indispensável e insubstituível, já que ninguém trabalha tão bem, já que ninguém investe tanto, já que ninguém leva a tarefa a ser executada tão a sério…

Mais tarde, em várias ocasiões, essa constatação se confirmou, pois ela continuava a dar sinais de perfeccionismo. A situação mais marcante foi quando eu um certo dia a critiquei, apontando um determinado comportamento que me incomodava.

Decerto, ninguém gosta de ser criticado e é compreensível que alguém reaja a uma crítica com repulsa, mas sua reação a uma crítica relativamente inofensiva foi dramática e exagerada, como se eu, ao criticá-la, tivesse cometido algum “pecado capital”, algo extremamente grave e irreversível e que jamais poderá ser perdoado.

Sim, perfeccionistas não gostam de críticas, pois críticas mostram aquilo que eles evitam ver a todo custo: a imperfeição humana, ou seja, sua própria imperfeição. Nos olhos de um perfeccionista, aceitar uma crítica significaria aceitar um fracasso, o que para ele não é uma opção.

Cresci aprendendo que fracassos fazem parte da vida e que eles são necessários para nosso desenvolvimento. Até a ciência defende a tese de que é errando que se aprende.

Mas aquele pequeno fracasso que para mim (e para qualquer outra pessoa sem expectativas exageradas em relação a si mesma) seria normal e essencial para que eu possa crescer, é para um perfeccionista motivo de vergonha e desespero, já que a própria imperfeição é algo inaceitável.

Sei que o ser humano é complexo e sei que as causas de transtornos comportamentais podem variar bastante, dependendo de muitos fatores, e, portanto, não me ouso especular sobre o que, em geral, leva alguém a se tornar perfeccionista, mas tenho observado em alguns casos que conheço de perto um forte desejo de agradar alguém (normalmente pai ou mãe), já que a pessoa se sentiu pouco amada na infância e começou a acreditar que tem que fazer tudo certo para receber o amor que lhe foi negado.

Observo que, por trás do perfeccionismo, há muitas vezes esse sentimento de rejeição, que se transforma com o tempo em autorrejeição.

Isso coloca a pessoa numa prisão, na “cadeia emocional” de sua infância, tirando-lhe a liberdade de também poder fracassar de vez em quando.

Ainda mais problemático é quando essa pessoa a quem se quer agradar já faleceu ou sumiu pelo mundo, mas, ainda assim, o perfeccionista continua tentando agradá-la (inconscientemente, claro). Conheço pessoas presas nessa dinâmica por querer agradar um pai (ou mãe) que já não vive mais ou que nunca esteve presente em sua vida.

Para mim, tal comportamento não seria nenhum problema se a pessoa perfeccionista não sofresse com isso. Mas ela sofre. E sofre muito.

O querer “funcionar bem” sempre causa uma situação de constante estresse e de luta contra os próprios limites, o que deixa a pessoa perfeccionista literalmente “sob tensão”.

Como esse estresse duradouro sobrecarrega a pessoa, ela precisa de “válvulas de alívio”, que podem se manifestar de forma altamente nociva: autoflagelo, uso de drogas, distúrbios alimentares (como, por exemplo, ataques de fome), esporte em excesso, etc.

Se você for uma pessoa que sofre disso, que acha que precisa ser perfeita para ser amada, se você acha que tudo tem que estar bem para se sentir bem, se esse perfeccionismo toma conta de sua vida e lhe faz sofrer, talvez fosse bom se aprofundar no assunto e tentar descobrir o que está por trás dele, eventualmente com ajuda profissional/terapêutica.

Em princípio, não é ruim tentar atingir 100% no que se faz, mas a coisa fica problemática quando, no final, se sente fracassado por se ter atingido “somente” 80 ou 90%. Ora, ao invés de sofrer pelos 10 ou 20% que faltaram, não faria mais sentido apreciar o que deu certo? Pense nisso.

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Gustl Rosenkranz
Blogueiro residente em Berlim. Apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa, sobre a vida e tudo que a toca. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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