Vergonha é um dos sentimentos mais difíceis de definir e muito mais presente na vida cotidiana do que gostaríamos. O que sentimos quando algo dentro de nós quer ser notado ao mesmo tempo em que teme ser notado demais? Algo, de repente, nos invade e vem um desejo de isolamento, como se estivéssemos transparentes em nossas fragilidades diante de uma plateia julgadora.

Olhar do outro causa incômodo por medo dos julgamentos e valores morais que podem anular a espontaneidade. Há uma intensa vontade em sair correndo, uma intenção em evitar o vexame, contudo vivemos tempos que quem não é visto não é lembrado, redes sociais diversas, reflexões sobre um fracasso da intimidade e alto custo ao psiquismo.

Na literatura quando se fala em vergonha logo se remete Adão e Eva e suas genitálias tampadas por folhas. Este casal percebeu o pecado, cobriu, diferente dos bebês e crianças pequenas os quais aprendem a ter vergonha.

A sociedade impõe a vergonha como guardiã da dignidade e barreira contra a exibição da intimidade, como as folhas de Adão e Eva. Porém, cada sociedade tem seus moldes de vergonhas ou não, sendo a sociedade contemporânea ocidental cada vez mais exposta na internet e como fica o sentimento de vergonha de cada um?

Muitas redes sociais parecem mostrar discursos de “vergonha alheia” como forma de apontar no outro um sentimento próprio. Um sentimento que varia de intensidade desde um leve rubor facial até um sentimento de intenso fracasso. Muitas vezes as pessoas parecem frias e arrogantes, quando na verdade são tímidas.

De qualquer modo sentir vergonha pode ser muito doloroso e aparece em momentos em que se percebe vulnerável e exposto ao olhar crítico do outro. Há então um intenso desejo de evitar chamar atenção sobre si, um intenso desejo em se cobrir.

Animais não sentem vergonha pois esta é uma emoção mais sofisticada, assim para que sinta esse sentimento é necessário se perceber e avaliar sua posição diante do outro. Aquele ser que convive com a vergonha tem então que se adaptar a uma vida suportável, ou seja, tende a evitar atividades de convívio e exposição. É um desejo de se preservar, manter sua intimidade e privacidade, assim manter um autocontrole.

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O ser humano então constrói dentro dele noções de referência, assim sabe suas qualidades e defeitos e pode pensar sobre o que sente ou não vergonha. É comum sentir vergonha de ter vergonha, cena comum vista quando alguém ri do rubor alheio.

Este pode ser um sentimento enraizado no ser humano principalmente ligado à sexualidade ou surgir de repente, quando alguma situação de fratura entre a imagem que tem de si e a imagem ideal, como o caso de pessoas que diante de um acontecimento tendem a inibir repentinamente aquela atividade. Há então uma vivência de confronto do modelo ideal de eu e do sentimento de insuficiência em relação ao modelo.

O modo comum de se defender de seu próprio sentimento de vergonha é projetar o que considera ruim em si mesmo sobre o outro, assim mais fácil falar sobre o alvo e atacá-lo, dor que reconhecer em si aquela característica.

Vivemos em tempos de relacionamentos virtuais os quais cada vez mais o encontro é evitado, assim há uma diminuição no constrangimento de ter que fitar aquele outro ser. Tão mais fácil dizer por mensagens do que pessoalmente, você vive então uma maior liberdade de expressão e imaginação.

Se por um lado sentir vergonha é um limitante há que se pensar que também é uma proteção. Este sentimento funciona como um Norte para reflexão de nossas fraquezas e desconfortos.

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Mariana Pavani
Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.


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