Às 7 horas da manhã de um dia que só não deu errado por sorte, eu chegava em casa sozinha e bêbada. Cansada da vida que eu julgava entediante, bebi demais numa festa da faculdade. Eu tenho o costume de beber, mas nunca tinha enchido a cara pra esquecer do que eu tinha deixado pra fora da porta de uma festa.

Eu bebi muito, me sentindo a própria Amy Winehouse. Achei legal a nova vibe autodestrutiva que tinha adotado. Desviava minha atenção dos meus verdadeiros demônios. No dia seguinte, quando acordasse, eu sabia que o teto ia girar e eu ia me sentir estúpida. Mas, caramba, eu preciso que alguém veja que as coisas não estão dando certo dentro de mim. Eu preciso fazer merda e falar demais pra que meu estado de espírito combine com as minhas atitudes: tudo torto.

Eu bebia, mas não ficava bêbada o suficiente pra esquecer. Atravessando a festa sozinha com o meu copo desajeitado na mão, meu vestido novo e meu batom mais vermelho, eu tinha noção de que eu não fazia ideia do que estava fazendo da minha vida. Too young to feel this old. Sem frio na barriga, sem euforias idiotas, sem atitudes inconsequentes. Eu me sentia completamente vazia com os meus amigos, todos bêbados, conversando sobre relacionamentos superestimados. Cansada de gente que nunca queria me ouvir. De gente que só esperava a sua vez de falar. O álcool passou a ser um bom anestésico, um bom companheiro. Eu e a bebida encaixávamos bem na foto, além disso. Eu queria mesmo era deitar no colo de alguém e chorar, mas a autodestruição era tão mais descolada.

Eu bebi mais. Não conseguia mesmo esquecer. Sentei no chão da balada e chorei, não teve jeito. Não passou a dor, nem o vazio. Mais gente que só fingia me ouvir. Eu bebi mais. Cadê minha amiga?

– Gente, cadê ela?

-Tá lá fora na enfermaria, passou mal.

-Quem tá lá com ela?

-Ninguém, ué.

Eu estava bêbada demais pra ir na enfermaria. Água, cadê a merda da água desse lugar?

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-Oi, me dá duas águas, por favor.

-Tá passando mal Nati?

-Não, só me dá a água.

Eu fiquei um tempo ajudando minha amiga, dei água, esperei ela vomitar. Enfiei ela num táxi para casa, pedi para me avisar quando chegasse. Mais água, eu precisava ir embora pra casa. Me despedi dos amigos todos, das conversas vazias, dos olhares vazios. Mas eu ainda estava bêbada.

Mulher, bêbada e sozinha na estação de trem às 6 horas da manhã de um domingo cinza. Minha ficha caiu na solidão. Enquanto enchia a cara e dançava, minha amiga tinha a companhia de umas 15 pessoas. Passando mal, só os enfermeiros desconhecidos e eu. Eu, no trem, não tinha a companhia de ninguém. Se alguém me estuprasse, roubasse, sumisse comigo… era só eu.

A autodestruição é glamourosa nas fotos, nos poemas, na roda de amigos na sexta à noite, no Bukowski. No trem, sozinha, com frio e vontade de chorar, ela só é feia e muito, muito vazia.

*Texto original publicado em: siteladom

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Natalia Belizario
Estudante de jornalismo, atualmente mora em Amsterdã. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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