Não tenho uma pesquisa em mãos que possa me confirmar para todos ou pelo menos para a maioria dos consultórios de psicologia do país, mas, na minha modesta prática terapêutica, posso dizer que uma das principais causas para se buscar terapia é a difícil arte dos relacionamentos. Gente que sofre por ciúmes exagerados, por timidez, por amar um canalha, por se pensar um canalha e ainda assim se descobrir apaixonado… Cada caso, uma história única. Cada caso, um desenrolar inédito.

Costumo dizer que num processo psicológico, apostar em algum método definitivo, em alguma proposta única de ação, é pedir para perder. Pessoas são diferentes e, como dizem por aí, “people are strange”. Sob uma determinada situação, em determinadas circunstâncias, com determinadas possibilidades, cada um fará o que bem entender. Por isso, não tento criar aqui um guia de como superar o término do seu relacionamento. Não devoro livros para [com perdão da expressão] cagar regras. Só tenho o intuito de levantar alguns questionamentos… a resposta da charada fica com cada um.

Com o tempo de trabalho comecei a notar a repetição de alguns padrões e essa repetição me ajudou a perceber alguns temas maiores. Existe um sentimento na minha geração [que anda por volta dos 30 anos] e das gerações mais jovens, que não aceita muito bem os términos. Há, até mesmo, uma tentativa de viver uma vida sem iniciar relacionamentos, para que não seja possível nenhum final definitivo. Uma cultura que prefere não ver alguma coisa nascer, para não ter que lidar com qualquer a aproximação de um fim.

Além do fato que nenhum momento histórico e geracional é monolítico, a questão é, também, que o amor romântico é a instituição falida que mais dá certo no mundo e todo dia um número significativo de pessoas se apaixona e aposta suas fichas de felicidade e realização pessoal em um relacionamento amoroso. Alguns dão sorte, outros não. Aliás, me parece que a maioria não dá sorte e não vive um “felizes para sempre”. É aí que o psicólogo [yo!] entra em cena.

O relacionamento termina, o coração dói, o mundo perde o sentido, tudo fica cinza. O mundo dos solteiros parece assustador. O sábado se prova, como disse Nelson Rodrigues, uma ilusão… os domingos solitários e tediosos são um preço alto a se pagar. Dói, dói e dói mais. A gente se sente “vazio e ainda assim farto”. AAAAAHHHH! Mas, por incrível que pareça, esse não é o problema. O maior problema é quando a pessoa não consegue nem chegar a esse estado.

_ Terminei!
_ E como você se sente com isso?
_ Muito bem! Percebemos que podemos ser grandes amigos.

“Grandes amigos”. Claro que eu acredito em boa convivência pós-relacionamento, mas é muito suspeito que uma história que foi gerada com outros sentimentos e expectativas, mude tão facilmente de sentido. Como disse no início do artigo, acredito em exceções às regras, mas primeiro tenho que questionar se aquilo ali é mesmo uma exceção.

Um trabalho básico do psicólogo é ajudar o sujeito em análise falar aquilo que ele realmente quer dizer, que realmente pensa e não o que ele entende que seria correto de se dizer ao terapeuta. Falar de desapego anda na moda. Tanta gente metida a entender da “psicologia humana” diz que é importante não criar expectativas. Acredito que isso seria bastante prático, mas não é fácil, raramente acontece. Acabamos produzindo uma geração de pessoas que tamponam os próprios sentimentos com todas as forças que têm… mas, como se sabe, estes sentimentos acabam vazando pelos lados.

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Podemos elaborar duas versões ideais para se lidar com o fim [ideais no sentido de que você nunca verá uma delas em forma pura por aí]. Uma que vai para o completo desapego e outra que tenta atravessar a dor. O desapego poder ser necessário em muitos momentos, um sentimento a ser aprendido se queremos nos libertar das garras da ilusão [como dizem os nossos amigos orientais]. O maior problema é a compreensão que se tem tido sobre esse desapego pelas bandas de cá, do novo oeste. Desapego é diferente de fuga…

Lembro-me de algum conhecido me dizer que gostava muito de cães, mas que nunca teria a companhia de algum, pois seria muito ruim quando ele viesse a falecer. Quando alguma pessoa me comenta isso, eu sempre me pergunto que certeza é essa que ela tem que o animal irá morrer antes dela… ninguém sabe o dia do amanhã.

O ponto aqui é claro, posso até não sofrer com a morte do cachorrinho, mas também não irei sorrir milhares de vezes com as peripécias desses companheiros de quatro patas. Logo, meu texto é para quem tem coragem de viver e experienciar tudo que a vida proporciona, mas, por alguma desventura, tem que lidar com o amargo sabor da derrota e a sensação de morte em vida.

Os rituais de luto não são apenas formalidades institucionais das religiões. São necessidades psicológicas. Choramos nossos mortos para que possam ir em paz e para que fiquemos em paz. Quando falamos do fim de relacionamentos, não dizemos de uma morte concreta, mas simbólica. Falamos da morte de um conjunto de expectativas. Falamos, também, da morte de uma forma de observar o outro, de tê-lo como objeto romântico e sexual. A questão é que sem os devidos cortes, podemos criar uma legião de fantasmas a nos perseguir.

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Assim como as grandes narrativas, os rituais tradicionais parecem andar um pouco fora de contexto. O melhor é cada um, através de suas tentativas e erros, descobrir seus próprios meios de abandonar aquilo que se foi. Mas para que não fique parecendo que eu sou um daqueles psicólogos que só dizem “fale mais sobre isso”, quero propor três coisas que ajudam a curtir uma fossa no término de relacionamento.

– Música – Eu nem preciso falar muito sobre como a música é capaz de influenciar os nossos estados de humor. Usada desde muito tempo como forma de contato com o mundo espiritual, a música pode ajudar a chorar, assim como pode dar algum ânimo para suportar aquele[a] professor[a]/orientador[a]/chefe[a]/treinador[a] tão insensível com a sua dor. Use-a sem moderação. Exorcize seus demônios através de uma música bem brega que você goste, mas tem vergonha de contar por aí.

– Escreva – Todo artigo que escrevo é uma luta comigo mesmo, com as palavras, com as ideias. Escrever é o ato de dar forma ao mundo fluído do nosso psiquismo. Em um sonho, nossas possibilidades são infinitas e o contraditório pode conviver sem maiores problemas. Na escrita, precisamos de algum tipo de organização, mesmo que isso seja, apenas, a ordem das letras para se formar uma palavra. Como o ditado: “verba volant scripta manent” [as palavras voam, os escritos permanecem]. Dê concretude ao que se sente, mesmo que seja para destruir em uma “pira funerária” logo depois.

– Movimente seu corpo – Você não é apenas o seu cérebro. Todo seu corpo participa da constituição do que você é. Circular pelas ruas da cidade pode ser uma via interessante para elaborar emoções e memórias. Elas surgirão e você precisará de novos insights para que não se transformem em agentes paralisadores. Com a participação do corpo todo, fica um tanto mais completo… acredite, em um momento de crise, viver sob a ditadura do pensamento racional, não ajuda muito.

Eu poderia ter feito a lista com quatro propostas e colocado uma dica “sertaneja universitária”, indicando a possibilidade de encher a cara de vez em quando como forma de extravasar a dor. Como profissional de saúde não indicarei como forma de tratamento, mesmo sabendo que muitos utilizam esse método milenar.

Enfim, o que quis com esse curto ensaio foi abrir a possibilidade de se ter um pouco menos de medo do sofrimento… somos seres trágicos e não devemos fugir disso, aliás, não temos como fugir… Como disse o grande Jorge Luis Borges: “A felicidade não precisa ser transmutada em beleza, mas a desventura sim”.

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Marcelo Marchiori
Marcelo Marchiori é psicólogo clínico, especialista em interpretação de sonhos e imaginação ativa. Escreve [quase] diariamente sobre psicologia, comportamento e sociedade. Pode ser seguido por seu perfil no Facebook. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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