‘Dorme que passa’,

dizia a amiga, dizia a mãe, dizia a revista, a mulher na televisão, o livro de autoajuda de cabeceira.

E os olhos inchados e não passava nada, nada daquela história passava, nada dele passava. Passavam sim os dias, passavam rios de lágrimas, passavam as falas das pessoas que já não aguentavam mais falar que tudo passa, passavam mais noites mal dormidas e mais dias sem sentido e mais vontades repentinas rompidas por lembranças masoquistas.

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Passavam filmes, todos os filmes nossos passavam na minha cabeça, e se repetiam pelos dias em ininterruptas sessões, os dramas, as comédias, os água com açúcarr, os épicos. E vinham doces amargar meus pensamentos.

‘Dorme que passa’

Como passa se no sono é onde ele mais habita? Sonho com tempos bonitos, acordo cega pela cortante luz da realidade. Aqui ele não está mais.

Dormir não faz passar nada, dormir faz tudo permanecer. Então eu não dormia para ver se passava. E nem assim passava, eu conversava comigo mesma, eu tentava diferentes técnicas, aprendi a cantar alto quando seu sorriso surgia na minha cabeça, eu entrei na Yoga, no cross fit, na aula de mandarim, no tinder. Tudo para criar barulhos mentais que pichassem sua imagem, que ensurdecessem a eloquência do seu silêncio, que recolorissem as paredes do meu coração tatuadas com seu nome.

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E não passava, porque eu não deixava, porque quer saber, eu não queria que passasse, a gente não tem que morrer na mesma hora que a outra pessoa. Não era só a presença de seu corpo que fazia nossa história.

O amor não se alimenta apenas de contatos, beijos, falas, mãos dadas, cheiros (quase choro de novo ao lembrar do seu cheiro). O amor se alimenta de sonhos, de lembranças, de pensamentos. O amor é planta que sobrevive muito tempo depois de cortada as raízes, as fontes de alimentação.

‘Dorme que passa’

Não passa, mas hoje eu durmo, porque dormindo eu o reencontro, em cada esquina de cada um dos meus sonhos. E eu já não desvio das esquinas, dos sonhos, da saudade, do amor.

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Digo a mim mesma:

‘Dorme e deixa o amor crescer, deixa o amor respirar, deixa o amor ser até aonde ele conseguir. Deixa ele ser assim mesmo, triste, entre risos e lágrimas, mas deixa ele estar, sereno, até que se dilua nos dias, no meio de outras coisas boas que surgirem. Devagar, no seu compasso, ele fica um pouco, ele passa um pouco.’

(Autora: Clara Baccarin)
(Fonte: clarabaccarin.com)
*Texto publicado com autorização da autora

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é paulista dos interiores, nascida nos anos 80. É escritora, poeta e agitadora cultural. Faz parte do grupo editorial Laranja Original. Publicou, pela editora Chiado, o romance poético Castelos Tropicais (2015) e a coletânea de poemas, pela editora Sempiterno (2016), Instruções para Lavar a Alma. Em 2017 lança, em parceria com músicos e compositores, o álbum Lavar a Alma, que reúne 13 de seus poemas musicados. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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