O ato de dirigir pode influenciar o cotidiano de uma pessoa de forma considerável. Sua vida profissional, seu lazer e todas as demais atividades diárias podem se tornar mais práticas e confortáveis com o auxilio de um automóvel. Porém, indivíduos com dificuldade em aprender a dirigir sofrem com a privação dos benefícios provenientes dessa habilidade, muitas vezes apresentando, como explicação para esse problema, estados de ansiedade e medo.

Tremores nas pernas, sudorese, palpitações e respiração ofegante são reações típicas de alguns mediante a possibilidade de emitir o comportamento de dirigir (Corassa e Mestre, 2001). Diante desse contexto é válido questionar: quais são as contingências que produzem e mantêm o medo de dirigir? Apesar das idiossincrasias de cada caso, é possível indicar variáveis que se repetem em diferentes relatos.

Embora tenha função aversiva para quem experimenta, o medo como um estado emocional possui relevante valor de sobrevivência. Isso porque é uma reação que prepara o organismo para enfrentar, evitar ou fugir de uma ameaça.

No decorrer da evolução da espécie humana essa resposta foi selecionada naturalmente por aumentar a probabilidade de sobrevivência do organismo (BUENO, 2009).

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Ao considerarmos o ato de dirigir como um comportamento, é plausível supor que os estados desagradáveis que o acompanham, em alguns casos, aumentam a probabilidade do indivíduo se esquivar ou fugir de situações perigosas, como alta velocidade.

Igualmente o medo diminui a chance da pessoa se expor a vias de trânsito de fluxo intenso e rápido. Todavia, é preciso ficar claro que, em uma visão analítico-comportamental, o medo em si não explica as dificuldades de dirigir. Nessa perspectiva, o medo é analisado como um comportamento resultante de consequências passadas na história de vida do sujeito e de sua relação com o ambiente atual dentro de uma cultura específica.

Para a ocorrência do medo, processos comportamentais operantes interagem com processos comportamentais respondentes fazendo com que o mesmo evento apresente diferentes funções.

No caso de condicionamento respondente ele ocorre por meio de emparelhamento de um estímulo incondicionado com um estímulo neutro para determinada resposta. Dessa forma, um estímulo que antes era neutro modifica sua função para estímulo condicionado. Alguém que, por exemplo, ao dirigir na chuva sofre um acidente, pode passar a ter sensações desagradáveis, como taquicardia e sudorese. A visão da chuva durante o ato de dirigir é um estímulo neutro que elicia a resposta de medo. Ou seja, no momento do acidente, o estímulo (visão da chuva) é emparelhado com estímulos incondicionados, (como o barulho, dor e impacto súbito) (MEDEIROS E MOREIRA, 2007).

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Como já mencionado, ao mesmo tempo em que se dá a relação respondente, ocorre também processos operantes. Nesse sentido, a chuva seria um estímulo eliciador de resposta de medo e também um estímulo discriminativo. Assim, a visão da chuva não somente eliciaria respostas emocionais de medo, mas também aumentaria a probabilidade de frear o carro bruscamente, dar seta para o acostamento, etc. Seriam respostas que aumentam a probabilidade de evitar ou fugir de um acidente, por exemplo.

Apesar de produzir um alívio imediato, a médio e longo prazo os comportamentos de fuga e esquiva trazem prejuízos para o repertório comportamental do individuo.

Algumas de suas consequências são: falta de contato com reforçadores positivos, aumento do potencial aversivo da situação evitada e generalização de respostas emocionais para outras situações, objetos ou pessoas (Brandão,1997). Por exemplo, uma filha que frequentemente entrega a direção do veículo para o pai em situações de trânsito com fluxo mais intenso, momento em que ela se sente mais insegura e com medo, seu comportamento produz a supressão dos estímulos aversivos naquele contexto.

Porém, apesar desse suposto benefício, ocorre a perda de oportunidade da motorista entrar em contato com reforçadores naturais do comportamento, por conseguinte, é impedida de desenvolver habilidades com o carro em trânsito de fluxo mais intenso. Com grande frequência, pessoas que sofrem com o medo de dirigir apenas procuram ajuda quando as estratégias de fuga e esquiva proporcionam custos elevados em relação aos ganhos obtidos (Corassa e Mestre, 2001).

Ainda é preciso notar que outra dificuldade acerca do medo de dirigir refere-se ao terceiro nível de seleção do comportamento, ou seja, às questões culturais que o envolvem. Sobre isso se destaca o modo como as pessoas são ensinadas pela comunidade verbal a falar de seus sentimentos como a causa de seus comportamentos. Assim, é comum, numa visão popular, considerar que comportamentos são causados por eventos privados, que antecedem ou ocorrem juntamente a ele. Aspecto esse marcante na cultura ocidental (PINTO, 2011).

Para Skinner (1991) uma cultura que compreende o comportamento de forma internalista e sem levar em conta a relação entre o organismo (pessoa) e ambiente ao longo do tempo negligencia aquilo que de fato determina o que vemos no presente como o comportamento de uma pessoa. Ademais, essa negligencia faz com que a resolução do problema seja vista como uma questão de mudar a mente e os sentimentos e não o ambiente (TOURINHO, 1997).

Como indicado, a Análise do Comportamento considera que o sentimento em si não é a causa primária do comportamento, ele apenas funciona como pista para uma maior compreensão das contingências que o envolve (TOURINHO, 1997). Sendo assim, considera-se que o medo em si não explica os motivos pelos quais uma pessoa evita ou foge de dirigir. As dificuldades de dirigir são determinadas pelas relações comportamentais existente na história do indivíduo e suas mais diversas consequências.

Possíveis intervenções no comportamento de dirigir

Não há dúvidas que cada comportamento deve ser analisado de acordo com seu contexto, nos casos de medo de dirigir, assim como em outras fobias, o analista do comportamento deve considerar análises funcionais de contingencias atuais e passadas (Lima, 2011).

Uma análise funcional bem elaborada serve como norte para o trabalho terapêutico, pois ao identificar as variáveis das quais é função o comportamento de evitar ou fugir da situação de dirigir pode-se buscar intervenções efetivas e coerentes com a história do motorista.

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Em conjunto com isso, algumas abordagens psicoterápicas derivadas da análise do comportamento apresentam outros recursos no tratamento do comportamento de dirigir. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), por exemplo, tem se mostrado de extrema relevância em casos de pessoas que sofrem com o medo na direção (LIMA, 2011).

Por meio da ACT o terapeuta utiliza intervenções que possibilitam ao cliente a compreensão de que, por exemplo, apesar de estar deprimido ele pode sair de casa, e apesar de estar furioso com uma pessoa ele pode conversar com ela (Borbas e Tourinho, 2009). Desta forma, o cliente identifica as reais variáveis que determinam o seu comportamento e a partir daí estabelece mudanças de forma mais efetiva. No caso do medo de dirigir, intervenções baseadas no modelo terapêutico da ACT auxiliariam no processo de aceitação dos pensamentos e emoções indesejados que o motorista experimenta. O que estabelece condições para que esse consiga emitir o comportamento de dirigir mesmo quando o medo existir.

De volta ao exemplo da filha que frequentemente passa a direção do veículo para o pai, por meio de intervenções baseadas na ACT ela poderia compreender melhor como a fuga e a esquiva da direção trazem prejuízos para o seu repertório comportamental e tentar se expor ao comportamento de dirigir apesar dos sentimentos aversivos que o acompanham. Sendo assim, ao tolerar seus sentimentos e se expor ao dirigir, torna-se possível desenvolver suas habilidades com o carro, ao mesmo tempo em que ela entra em contato com os reforçadores naturais da atividade.

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Certamente existem possibilidades de intervenções que vão além das relatadas nesse texto, bem como há outras questões relacionadas ao medo de dirigir que também não foram abordadas aqui. O presente artigo não teve o objetivo de esgotar toda complexidade que envolve o medo de dirigir, mas quem sabe, pode servir como um começo, uma introdução ao debate sobre esse tema tão pouco abordado.

Referências:

  • BORBA, Aécio; TOURINHO, Emmanuel Z. Instrumentalidade e coerência do conceito de evento privado. Universidade Federal do Pará: 2009.
  • BRANDRÃO. Maria Zilda da S. Terapia comportamental e análise funcional da relação terapêutica: estratégias clínicas para lidar com comportamento de esquiva. Universidade Estadual de Londrina: 1997
  • BUENO, Gina Notêlo (Et al). Tenho medos diversos que interditam minha vida: como posso controla-los? Universidade Católica de Goiás: 2009
  • CORASSA, Neuza; MESTRE, Marilza (2001). Síndrome do carro na garagem Fobia ou perfeccionismo? (Análise Funcional e Plano Terapêutico). Em: GUILHARDI, H. J.; MADI, M.
  • B.B.P.; QUEIROZ, P.P. e SCOZ, M.C. Sobre Comportamento e Cognição. Santo André,SP: ESETec, 2001, V. 8. pp. 1-13.
  • LIMA, Gisele Cecílio G. A importância da Análise Molar para uma Intervenção Analítico – Comportamental eficaz em uma queixa de medo de dirigir. Brasília: Instituto Brasileiro de Análise do Comportamento, 2011
  • MEDEIROS, Carlos Augustos e MOREIRA, Márcio Borges. Princípios básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre: ARTMED, 2007
  • PINTO, Ana Rachel. Medo: algumas considerações numa ótica Behaviorista Radical. Belém: 2011
  • SKINNER, B. F. Questões recentes na Análise Comportamental. Campinas: Papirus, 1991
  • TOURINHO, E. Z. (1997) Eventos privados em uma ciência do comportamento. In: Banaco R. A. (org) Sobre o Comportamento e Cognição – Aspectos teóricos, metodológicos e de formação em analise do comportamento e terapia cognitivista. v. 1. Arbytes. São Paulo

(Fonte: comportese.com)

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