Meu Deus, como passou depressa! Dias atrás eu usava meião colorido com saia de pregas e dançava “baba-baby” da Kelly Key com minhas amiguinhas no recreio. Parece que ainda sinto o gosto de polenta com salsicha que era distribuída na hora do intervalo.

Quando conheci um garoto da turma – o Lucas – ao qual gostei, enviei uma cartinha cheia de corações, na intenção de fazê-lo olhar para mim. Mas o Lucas e os amigos dele gostavam mesmo era de jogar futebol e correr atrás das meninas com bichos na mão para assustá-las.

Senti-me uma mocinha quando ganhei minha primeira maquiagem. Lembro de ter usado cabelo solto, batom e bolsa. Contei às minhas amigas que minha mãe havia deixado que eu passasse perfume e isso fez com que eu me sentisse uns 20 cm mais alta (por fora e por dentro).

E agora estou aqui, frente ao computador, com uma calça jeans confortável e uma camiseta branca, cabelo despenteado, sem um pingo de maquiagem, com café e almofadas ao meu lado. O cansaço da correria entre faculdade, trabalho e vida (só “vida” mesmo, porque social não acontece por falta de tempo) fez com que o ar natural de quem não se maquia esteja sempre presente.

O cabelo bagunçado combina perfeitamente com os pensamentos; sempre em excesso, parecendo um emaranhado de fios de eletricidade soltos.

Não há como não pensar; eu mal cheguei à vida adulta e já querem que eu fale 05 idiomas, tenha experiência na área para conseguir um estágio (não-remunerado), ostente meu próprio carro e preferencialmente tenha família, ou ao menos um namoro de mais de 01 ano.

É muita coisa! Além de tudo isso, eu necessito estar sempre linda, impecável, sorridente e de bom humor. Cara, eu sou uma moça, e não uma programação de computador! Eu tenho metas, ideais, sonhos. Eu tenho sentimentos, medos, vontades e muita garra, mas nem sempre as coisas acontecem na velocidade que eu espero.

Não quero ter uma família, ser mãe e ter minha própria casa (ao menos não agora). Eu quero emitir meu passaporte, realizar meu intercâmbio, conhecer gente legal e voltar para a casa dos meus pais com a mochila cheia de lembrancinhas e lembranças.

Não tenho experiência na área porque – meu Deus – eu ainda não trabalhei na área. Enquanto não abrirem uma porta para mim eu não terei como ter experiência. Não tenho meu próprio carro porque gastei meu dinheiro ajudando meus pais com as contas da casa, paguei a faculdade, fiz luzes no cabelo e comi muitas coisas legais.

E quer saber? Estou bem feliz, feliz mesmo. Para chegar até aqui foi preciso dar de cara com a porta umas 100 vezes. Acumulei foras, demissões, decepções e lágrimas. Mas tudo isso ao invés de desmoronar comigo só me fortaleceu. Tornei-me uma moça corajosa, persistente e dona de mim, sem medo da vida. Encaro os problemas de frente, vou até o fim do túnel e, se não encontro luz, eu mesma o ilumino.

Estou aqui, com 20 e poucos anos, fora dos padrões que me foram impostos. Não ganhei nenhum prêmio (ainda), não tenho filhos, não estou construindo uma carreira promissora e não sou uma figura pública.

Mas estou caminhando rumo ao que acredito; chego da faculdade tarde da noite e no outro dia acordo cedo para trabalhar, como se não cansasse de modo algum.

Encho meus pais de orgulho a cada nova viagem, troca de emprego, semestre encerrado na faculdade… A cada vez que saio de casa bem arrumada, vejo em seus olhos o mesmo brilho de quando eu era criança e brincava com as maquiagens de minha mãe.

Vivo bem com minha música, meus livros e meus sonhos. Continuo na casa dos meus pais e vou ficar lá até que possa carregar sozinha o peso de ser adulta, mas, enquanto não for, vou estar por lá. Vou comprar meu carro com os pés no chão, assumindo uma dívida a qual posso pagar, e não ceder ao impulso do “tenha para ser”, para depois ficar louca com as cobranças e com as horas-extra necessárias ao orçamento.

Vou ter um namorado quando estiver pronta, e mais que isso, quando encontrar alguém que me trate como a mulher que sou. Não vou me entregar ao primeiro que aparecer, simplesmente pela constante pressão que diz que uma pessoa solteira não é uma pessoa feliz. Deixa eu te contar uma coisinha: sou solteira, jovem, viajada e feliz, bem feliz com isso. Obrigada!

Estou com 20 e poucos anos, estou no começo da vida, apesar de as coisas lá fora fazerem com que pareça que já estou na reta final.

Estou com 20 e poucos anos, cansada, porém bem, dormindo pouco, porém bonita, cheia de dúvidas, porém lotada de respostas. Estou aqui, e logo serão mais 20 e poucos e eu terei muita história para contar, muita foto para ver, muita coisa para mostrar.

Porque, apesar de ter só 20 e poucos anos, eu já estou conquistando o maior bem que posso ter: eu mesma.

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Raquel Gonçalves
Há quem diga que os olhos são a janela da alma, então, no meu caso, eles são uma janela bem grande e aberta. Amante das artes, do universo e das palavras, necessito de música para viver, dos astros e estrelas para pulsar e dos versos para existir. A publicidade me escolheu; por isso anuncio paz, promovo sorrisos e transmito intensidade. Sou colunista do Fãs da Psicanálise.

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