Não se permita perder um grande amor para então valorizar a gostosa sensação de ter olhos brilhando para os seus. Senta aqui comigo. Estava ouvindo aquela música “just give me a reason”, e pensando na profundidade de cada verso. Uma música intensa, não? Da voz sólida de Pink à cena onde juntos os participantes do dueto estão deitados numa cama, tudo é profundo. Mas o que mais me chama atenção é a mensagem que fala sobre um casal que já não se reconhece.

É, reconhece com “re” mesmo, porque conhecer e reconhecer são coisas bem diferentes. Talvez você nunca tenha visto a Pink pessoalmente, ou seja, você não a conhece, não sabe onde mora, não sabe qual seu sorvete favorito, mas você a reconhece, pois sabe os traços de seu rosto.

Reconhecer alguém está atrelado a identificar. E nessa música o que está havendo é claramente um casal que não se reconhece. Possivelmente o desgaste diário tenha feito isso com os dois. A falta de diálogo, a perda do costume de dar um beijo ao sair e outro ao retornar, a decisão de não ligar mais na hora do almoço, preferindo ficar apenas na mensagem.

A gente vai perdendo o contato todo dia e nem percebe, não é mesmo? Não se dá conta de que amor só é amor quando há cheiro, boca, gosto, unha na carne, pensamento lá em você. Porque sem isso, não é amor, é costume, é desejo por companhia.

A gente vai deixando de buscar. Aos pouquinhos, devagar, na mesma vagareza que o ponteiro do relógio muda de 16:00 para 16:05 quando estamos na fila do banco ou no consultório do médico, vamos deixando de lado os costumes, e dando espaço aos abismos que se formam. Se antes havia beijo longo, molhado, com mão na nuca, agora é apenas “oi” seguido de selinho. Se antes era “bom dia, meu amor” e um coração vermelho pulsante, agora é apenas bom dia e, às vezes, nem isso. Se após cada ligação havia um eu te amo seguido de um sorriso que se abria tanto no rosto de quem disse quanto no de quem ouviu, agora é só “t’amo”, no modo automático, querendo desligar depressa porque o horário do almoço já acabou. E a química vai diminuindo, a conexão vai se perdendo, a vontade de estar junto fica menor, e a gente nem se dá conta de que está perdendo o outro todo dia, e que o outro também está nos perdendo.

A gente perde o outro para aquela pessoa que dá a assistência que nós nos recusamos a dar. Perdemos para aquele sorriso que se abre no rosto de outra pessoa, para o abraço que vem de outra pessoa, para as palavras de conforto e elogios que vem de outra pessoa. E, então, ficamos bravos, chateados e queremos fazer o circo pegar fogo, buscando explicações e atirando pedras, mas, cá entre nós: quem foi que deixou de lado? Quem foi que deixou de ligar, de enviar mensagem, de expressar o quanto ama, de evidenciar os ciúmes, de mostrar que se importa… quem foi?

E o outro nos perde pelos mesmos motivos quando a história acontece ao contrário. O outro nos perde quando permanece online e não responde a mensagem enviada 20 minutos atrás. O outro nos perde quando sai com os amigos 3 fins de semana seguidos com a desculpa de que está precisando de um tempo pra si. O outro nos perde quando responde “eu te amo” com “eu também”. O outro nos perde quando deixa de dar importância às pequenas coisas que antes eram feitas juntos.

Então, nós nos retiramos. É hora de buscar um novo rumo; deu o que tinha que dar. Chega!

Então, após deixar escapar pelos vãos dos dedos quem tentou de toda forma estar enlaçado num sentimento profundo, é hora de tentar recuperar o tempo perdido. É hora de enviar flores, mensagens, chocolates, realizar ligações, ir à porta do trabalho, publicar músicas tristes, fazer tatuagem com o nome da pessoa amada, mudar o comportamento e a rotina. É a hora errada de fazer as escolhas certas.

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Primeiro abrimos a porteira e depois queremos prender a boiada. Primeiro testamos os limites de paciência e amor do outro, para depois perceber o quanto isso foi estúpido.

Continue aí, não se levante agora; Já estamos terminando. O que estou dizendo é que não adianta ser a pessoa mais agradável do mundo, depois que suas atitudes fizeram com que a pessoa que lhe considerava o melhor presente recebido pela vida desejasse devolução. A água depois de escoada não retorna à torneira.

Recitar os versos do Caio não lhe farão recuperar o tempo perdido, e os anéis Tiffany farão brilhar os olhos, mas não as chamas do coração. O relacionamento pode até voltar, mas jamais será como antes, pois agora há traumas, dúvidas, incertezas, medos, receios e a ideia de que a qualquer instante tudo pode entrar na rotina novamente.

Por isso meu caro e minha cara, pense bem antes de jogar dados com o sentimento alheio. Talvez você esteja pensando que essa pessoa o ame mais que qualquer coisa, e jamais será capaz de deixá-lo (a), mas, bem, todos somos capazes de sair de uma situação, basta apenas querer. Enquanto você se ocupa demais com qualquer coisa que não seja segurar a mão de quem nunca o (a) solta, alguém está ocupado demais tentando segurá-la.

Que não seja preciso estar longe para perceber como era bom estar perto, agarrado, aconchegado num peito que abriga um coração que pulsa por você. Que a beleza das pequenas ações, como aquela laranja descascada por você não saber como fazê-lo, seja suficiente ao ponto de não se transformar na dor da saudade.

Preste mais atenção nas pequenas causas. Coma aquele arroz, mesmo se estiver um pouco mais durinho, e elogie o vestido dela, mesmo que ele a faça parecer um vaga-lume. Chame-o para assistir TV, mesmo que ele só saiba se prender ao jogo do Manchster, e pergunte como foi seu dia no trabalho. São as pequenas felicidades que fazem o todo valer a pena, e não as que todos veem.

Não se permita perder um grande amor para então valorizar a gostosa sensação de ter olhos brilhando para os seus. Faça pelo outro o que gostaria que fizessem para você, e com certeza essa pessoa vai surpreendê-lo (a) com as atitudes que você espera, mas, atualmente, não recebe.

Cuide de seu amor, seja ele quem e como for, ou infelizmente, um dia qualquer, terá de vê-lo ser cuidado por outro alguém.

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Raquel Gonçalves
Há quem diga que os olhos são a janela da alma, então, no meu caso, eles são uma janela bem grande e aberta. Amante das artes, do universo e das palavras, necessito de música para viver, dos astros e estrelas para pulsar e dos versos para existir. A publicidade me escolheu; por isso anuncio paz, promovo sorrisos e transmito intensidade. Sou colunista do Fãs da Psicanálise.

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