Há dias escuros como uma tempestade que se forma no norte e se sobrecarrega até chegar no sul. Dias em que a chuva lá fora cai na janela e deixa o ar com aquela cara de trailer de filme, e por incrível e bobo que pareça, nossa atual situação combina perfeitamente com o cenário e com a trilha sonora que ecoa dentro de nossa cabeça com músicas as quais nem sabíamos que já havíamos ouvido, muito menos decorado.

A falta de amor é capaz de transformar tardes ensolaradas em uma imensidão de trovões internos. E num grito silencioso vai-se toda uma semana passada sem ser vista, pois parece que os dias são apenas um amontoado de sorrisos e suspiros sem fim.

E aqueles casais apaixonados que circulam pela praça tomando sorvete e rindo das formigas ao redor do formigueiro nos parecem ser tão perfeitos e felizes, não é mesmo? Deve ser incrível ter alguém para segurar sua mão cada vez que o mundo parecer desabar. Deve ser impagável a sensação de sorrir para olhos que te admiram. Mas isso nunca acontece com você, não é mesmo? Nem vai acontecer… Sim, é um pensamento tolo, que de modo involuntário lhe vem à mente, mas a culpa não é sua por estar cansado de buscar por algo que parece ser impossível de encontrar.

Sim, parece ser impossível, afinal, se você busca embaixo da cama, há quem o encontre sobre a cômoda, e se atreve-se a busca-lo numa esquina, vê que seus amigos deram a sorte de nele tropeçar ao abrir o portão de casa. Ah, o amor e suas brincadeiras que nos custam noites sem dormir, dias comendo mais que o necessário e músicas arruinadas por uma história que quase foi, mas ficou nisso… Quase.

Pare, respire e perceba que há algo de comum em suas histórias passadas: você deu muito mais amor do que estava recebendo, e por isso elas permaneceram no quase. O amor é como uma balança onde os dois lados devem estar em perfeito equilíbrio, ou o desequilíbrio será visivelmente percebido.

Quando adicionamos à orelha esquerda um enorme brinco de ouro e à orelha direita uma pequena pérola, a diferença de peso entre as peças causa desconforto, e não é preciso muito tempo para perceber que aquilo não foi uma boa ideia. Da mesma forma quando enchemos um coração de amor precisamos que alguém também esteja enchendo o nosso, ou, ele logo falhará.

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Nos dias cinzentos a vontade de ter alguém ao lado pode ser forte ao ponto de nos cegar os olhos da alma e impedir de perceber que enquanto estamos fazendo viagens e mais viagens para dar conta da areia, o outro não está nem ao menos tirando o caminhãozinho da garagem em nosso favor.

Enquanto insistimos em procurar pelo amor nos montes mais altos e também nas valas mais baixas e difíceis de atravessar, a oportunidade de segurar a mão de alguém especial bate á porta dos distraídos, e não porque eles mereçam mais que outros, e sim porque simplesmente a hora deles chegou. Aquele reloginho invisível que de algum lugar no universo marca o início e o fim de nossos ciclos nesta vida, uniu os ponteiros no ponto exato e fez com que o famigerado amor batesse à porta.

Pare de buscar por amor em lugares claros como o primeiro raio de sol do equinócio e também nos escuros feito beco sem saída à noite. Deixe de correr desesperadamente atrás do vento, pois se ele quisesse, estaria soprando em sua direção. E por favor, não trate esse sentimento tão bonito com desdém ou mesmo angústia, pois quanto mais você se fechar para a experiência de conhecer um novo alguém, mais dolorosa será sua solidão.

Apenas aguarde a sua vez e sim, num bar ao som de Nando Reis, ou em meio à multidão que cruza o centro da cidade, um sorriso será tão diferente dos demais e mesmo sem entender você saberá que finalmente, o riso teu também encantou o coração de alguém.

Deixe o amor lhe encontrar num encontro previamente marcado com direito à roupa nova, ou no desencontro de perder o ônibus por segundos de atraso. Deixe o relógio da vida marcar o seu tempo da maneira como preferir e enquanto isso, esteja atento às tantas cosias boas que lhe cercam e que podem trazer tanto sentido à vida quanto estar ao lado de alguém. Quando você estiver feliz por estar em sua própria companhia, então saberá valorizar a si próprio ao ponto de não se entregar mais a qualquer ventania que lhe bagunçar os cabelos, e é nessa felicidade solitária que uma outra mão vai segurar a sua na intenção de nunca mais soltar.

(Imagem: Huy Phan)

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Raquel Gonçalves
Há quem diga que os olhos são a janela da alma, então, no meu caso, eles são uma janela bem grande e aberta. Amante das artes, do universo e das palavras, necessito de música para viver, dos astros e estrelas para pulsar e dos versos para existir. A publicidade me escolheu; por isso anuncio paz, promovo sorrisos e transmito intensidade. Sou colunista do Fãs da Psicanálise.


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