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“Somos quem podemos ser” é uma música da banda Engenheiros do Hawaii, lançada no álbum Ouça o que eu digo, não ouça ninguém, de 1988.

A letra é muito interessante e bem trabalhada, tanto na forma quanto no conteúdo. Diferente de como a letra aparece em alguns sites, nesta análise, inseri alguns pontos e juntei alguns versos, para que ficassem mais corridos (o que não alterou o sentido da música).

Vejamos.

Somos quem podemos ser
Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão;
Um dia me disseram que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro, um intervalo na escuridão,
Uma estrela de brilho raro, um disparo para um coração.
A vida imita o vídeo, garotos inventam um novo inglês,
Vivendo num país sedento, um momento de embriaguez,
Somos quem podemos ser; sonhos que podemos ter.
Um dia me disseram quem eram os donos da situação,
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão;
E tudo ficou tão claro, o que era raro ficou comum,
Como um dia depois do outro, como um dia, um dia comum.
A vida imita o vídeo, garotos inventam um novo inglês,
Vivendo num país sedento, um momento de embriaguez,
Somos quem podemos ser; sonhos que podemos ter.
Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão,
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão.
Quem ocupa o trono, tem culpa;
Quem oculta o crime, também;
Quem duvida da vida, tem culpa;
Quem evita a dúvida, também tem.
Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter…

O próprio título da canção já desconstrói uma ideia muito popular entre as pessoas idealistas, que é a de que somos quem queremos ser. Segundo este eu-lírico, as coisas não são bem assim (essa é a mensagem central), pois querer não é poder.

A música inicia, então, com um eu-lírico confessando que um dia disseram-no que as nuvens não eram de algodão, isto é, tudo, as coisas, a vida, etc. não são tão “bonitinhas” como pensamos e idealizamos. Ficamos sabendo, neste primeiro verso, que o eu-lírico passou de um não-saber para um saber, ou, de um saber-parcial para um saber-integral/mais amplo.

Em seguida, diz que às vezes os ventos erram a direção, indicando que nem sempre as coisas seguem o seu fluxo ou seriam (e serão) como deveriam ser. Este verso, da forma como está sendo analisado, criará uma contradição com outra ideia da letra, mas o álbum todo trabalha com contradições. O próprio título do cd já diz: Ouça o que eu digo, não ouça ninguém.

Percebamos, também, a anáfora (uso das mesmas palavras ou frases) em “Um dia me disseram que” utilizada nos dois primeiros versos, para que o trecho fique na mente, além dessa pequena aliteração (repetição de letra) em /v/: nuVENS, VENtos, VEzes. Continuemos.

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É interessante como, ao mesmo tempo, a banda brinca com ideias e imagens (fanopeia) ao dizer que “tudo ficou tão claro, como um intervalo na escuridão”, pois sabemos que a claridade/iluminação é uma metáfora para o conhecimento e saber, mas como o eu-lírico já estava falando sobre nuvens, fica, também, a imagem de nuvens se dissipando, terminando a escuridão. O próximo verso confirma a metáfora: “uma estrela de brilho raro, um disparo para um coração”.

Ao saber que as nuvens não eram de algodão, que as coisas não são como imaginamos ser, o eu-lírico foi iluminado pela luz de trás das nuvens; foi como um disparo em seu coração, que o fez despertar. Interessante a ordem dessas duas palavras: disPARO/ PARA. É como se fosse um eco do próprio disparo, que, aliás, ouvimos ao fundo.

Em seguida, no refrão, o eu-lírico deixa de falar sobre o passado e lança afirmações sobre o presente: “A vida imita o vídeo, garotos inventam um novo inglês/ Vivendo num país sedento, um momento de embriaguez,/ Somos quem podemos ser; sonhos que podemos ter”.

Após saber que as coisas nem sempre são como aparentam, ele percebe os problemas da sociedade, que vive o “parecer”. Ao invés da T.V, novela, filme, enfim, vídeo, retratarem e imitarem a vida, a vida e o povo são quem imitam o vídeo e a mídia. É uma inversão de valores (a mesma que faz com que os oprimidos queiram ser como os opressores — como diria Paulo Freire —, ao negarem sua cultura e realidade, que não são mostradas nos vídeos, na TV, para seguirem a única que é mostrada e valorizada). Aliás, por falar nisso, é assim que eles negam sua própria língua para criarem um “novo inglês”.

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O eu-lírico percebe que vivemos “num país sedento, um momento de embriaguez”. Gostamos da ilusão, pois não queremos viver (ou não conseguimos perceber) a realidade. É impossível não se lembrar da frase do filósofo Nietzsche após conhecê-la:

“Os povos só são tão enganados porque procuram sempre um enganador, isto é, um vinho excitante para seus sentidos. Contanto que possam obter esse vinho, contentam-se com o pão de má qualidade. A embriaguez lhes interessa mais que a alimentação — esta é a isca com que sempre se deixam pescar!” (…) (NIETZSCHE, 2013, p. 221).

A canção é de 1988, mas até hoje as pessoas estão embriagadas, até hoje imitam o vídeo (que as embriagam mais ainda); até hoje, por beberem demais, não percebem que seus semelhantes e vizinhos — e até eles próprios — sentem fome. Até hoje pensam que as nuvens são de algodão. O pão e o circo continuam a funcionar, mas sob outras formas.

Por fim, termina-se a estrofe com o eu-lírico dizendo que “Somos quem podemos ser; sonhos que podemos ter”, quebrando a ilusão de que somos o que queremos ser. Somos limitados pelo nosso meio, querer não é poder, como mente a mídia, com sua falsa meritocracia, ou os livros de autoajuda, com suas lições sobre empenho e fé. Não é porque queremos que as nuvens sejam de algodão, que elas serão; não é querendo ser rico, que se torna rico.

Como os Engenheiros disseram numa música do mesmo álbum, intitulada A verdade a ver navios: “É muito engraçado que todos tenham os mesmos sonhos e que o sonho nunca vire realidade”. Que o diga a maioria os meninos que desejam serem jogadores de futebol, para imitarem o que assistem na T.V/vídeo. Que o digam todos os cidadãos que querem apenas viver bem e dignamente, mas não podem. Até os nossos sonhos são condicionados (pelo o que podemos ver).

Não podemos nos esquecer de prestar atenção na linguagem utilizada, pois é proposital e bem trabalhada, faz parte da riqueza da música. Temos, novamente, uma aliteração em /v/ : VIda/ VÍdeo, inVENtam, noVO, VIVENdo. E, também, uma paronomásia (palavras parecidas): Somos, sonhos.

Depois, volta-se à ideia do início da letra: o eu-lírico que não sabia (muito) sobre a vida, passa a saber. Assim como não sabia que as nuvens não eram de algodão, não sabia quem eram os donos da situação, mas depois que alguém disse/mostrou, passou a saber.

Novamente, a metáfora da libertação pelo conhecimento: ao dizerem quem é que manda na situação (que também manda nos vídeos, que, por sua vez, deixam o povo sedento e embriagado), sem querer o libertaram. Depois do ocorrido, tornou-se fácil (porque antes era “raro”) perceber as coisas ao seu redor, pois tudo ficou claro. Além disso, percebamos a ordem em que aparecem as sutis palavras, formando um jogo interno de vocábulos: “comum, Como um, como um, comum”. Repete-se o refrão e mais duas frases já proferidas.

Por fim, a última estrofe (e a mais rica, tratando-se de técnicas). No início, o eu-lírico falava sobre o passado, no qual passou de um não-saber para um saber. Depois começou a falar sobre o presente, o qual com a sua nova visão de mundo, constatou algumas atitudes sociais. Agora, com todo o seu conhecimento, criou sua própria opinião e julgamento, que é a última estrofe.

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“Quem ocupa o trono, tem culpa/ Quem oculta o crime, também;/ Quem duvida da vida, tem culpa;/ Quem evita a dúvida, também tem”. Culpa pelo o quê? Pela situação. A culpa não pode ser das vítimas, que somos nós, mas dos “donos da situação”, que estão no trono. No caso de um governo, a culpa é de todos os políticos; no caso da exploração dos pobres, quando não lhes pagam o que devem/deveriam, (quase) como escravidão, é dos donos/capitalistas das empresas.

Porém, tem culpa “quem oculta o crime também”. Aqui somos todos nós os responsáveis. Todos aqueles que veem o crime acontecer, as coisas erradas, os problemas, mas não falam e fazem nada, também são culpados pela situação.

Quem duvida da vida, isto é, acha que as coisas não podem mudar, também são culpados. Este verso, junto do que diz que “os ventos às vezes erram a direção“, criam a contradição que foi citada no início do texto, pois aqui o eu-lírico diz, implicitamente, que as coisas podem mudar, criando conflito com o título da música e verso: “Somos quem podemos ser”, que demonstra o determinismo (seja lá qual for).

Entretanto, sempre há exceções. Era para o eu-lírico ainda acreditar que as nuvens eram de algodão, era para ainda não saber quem eram os donos da situação, mas graças a alguém que o ensinou, houve a quebra do paradigma. Agora é ele quem está ensinando o que sabe.

E, por fim, o último verso: “Quem evita a dúvida também tem”. Estes que evitam as dúvidas são semelhantes aos que ocultam os crimes, pois sabem de algo, mas preferem mentir e omitir. Ocultar crimes é crime também. Ao final, mostra-se que a situação, boa ou ruim, é criada por todos nós, não somente por um ou outro.

Esta última estrofe é uma demonstração de como se cria um jogo de palavras com tanta aliteração e paronomásias: oCUPA, CULPA, oCULTA, duVIDA, da VIDA, DÚvida, eVITA. Há, também, anáforas, usadas no início dos quatro versos, com a palavra “Quem”; no segundo e quarto verso, com “também”; e no final do primeiro e terceiro, com a palavra “culpa”.

Se quiséssemos falar mais, poderíamos dizer que, no primeiro e segundo verso da última estrofe há encontros consonantais, com as palavras “trono” e “crime”, exatamente no mesmo local: (n)a quarta palavra. E que é interessante terem usado as palavras “duvida” e “dúvida”, pois uma é verbo e a outra é substantivo. Coincidência, não tem nada a ver com o sentido da estrofe, mas VITA (que lemos em “evita”) é “vida” (palavra que foi usada no verso anterior) em latim.

No último verso repete-se a frase “Somos quem podemos ser; sonhos que podemos ter.”, que já foi discutida acima.

Em suma, é isto. Espero que assim como o eu-lírico aprendeu coisas novas sobre a vida, quem veio ler este texto, tenha aprendido um pouco (tanto sobre o conteúdo, quanto sobre a forma e técnicas) também; que algumas passagens tenham se tornadas mais claras e que a partir daqui surjam mais dúvidas e buscas. As nuvens não são de algodão e o trabalho nas e das letras não pode passar em vão.

Referências:

NIETZSCHE, Friedrich. Aurora. São Paulo: Editora Escala, 2013.

(Autor: Carlos Siqueira)

(Fonte: palavrasaleatorias09)

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2 COMENTÁRIOS

  1. É incrível como esta análise traduz perfeitamente o que senti a alguns anos e sinto até hoje. Na época, eu sabia que a esta música representava os meus sentimentos e tomada de decisões difíceis, mas não de forma tão clara e completa.
    Parabéns pela análise!

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