Medo de altura, medo do escuro, medo de palhaços, medo de fracassar, medo de ficar sozinho… Quantas centenas de medos já não foram catalogadas pelas ciências da psiquê?

Até certo ponto, essa emoção pode ser considerada positiva, pois nos coloca em estado de alerta para enfrentarmos aquilo que entendemos ser uma ameaça — vamos combinar que um indivíduo destituído de qualquer temor expõe-se a riscos que poderiam ser fatais (e olha que a síndrome de Urbach-Wiethe existe…).

Mas, paremos por aqui com esse blá-blá-blá teórico. A humanidade legou-nos a transcendência e, por isso mesmo, precisamos ir além dos significados elementares; nossas buscas não se esgotam nas respostas aparentes e concretas.

Pensemos juntos, então: existiria algum medo primal, capaz de deflagrar em nós todos os outros temores?

Ao que parece, todas as fobias humanas alicerçam-se no fato de que todos, indistintamente, um dia, morreremos. Praticamente tudo o que fazemos nesta vida advém da consciência que temos da realidade do fim.

Parece haver em nós um grito desesperado de perda, que nos faz existir sob o chicote do “eu tenho que”. Muitas vezes essa angústia aparece na hiperatividade infantil; outras tantas, nos perigos aos quais adolescentes e jovens submetem-se, na tentativa de se autoafirmarem como os únicos seres capazes de vencer a extinção.

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Na idade adulta, essa aflição aparece travestida de responsabilidades neuróticas: é preciso casar, ter filhos, ganhar dinheiro, adquirir confortos, construir uma reputação etc.

Quando se chega à maturidade, o relógio da vida, em uma toada de agonia crescente, faz muitos repensarem os caminhos escolhidos. Nesta fase, aparece o que se convencionou chamar de crise da meia-idade; momento em que o indivíduo racionaliza: Que fiz da minha vida até aqui? Dos objetivos e metas que tracei, quais foram alcançados? Como só tenho uma vida, que em breve acabará, “tenho que” completar o que não fiz ou mudar a rota, antes que seja tarde.

Esse tema ocupou minha mente nos últimos dias em forma de pergunta: por que tantas pessoas têm medo de ficar só? Medo da morte? Sim… Mas como assim?

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O receio de não ser aceito em determinado grupo social, ou de não ter um parceiro(a), ou de não gerar filho(s) revela o medo essencial de todos (ou quase todos) os seres humanos: esvair-se no tempo e no espaço, sem deixar qualquer sombra ou vestígio; afinal, sozinhos, além de termos menores chances de sobrevivência, não temos a permissão de tocar a eternidade, transferindo nossos genes às gerações futuras.

Ok. Nossos medos bobos estão, aparentemente, ancorados em um medo capital (a morte); mas, o que fazer com esse entendimento?

Uma saída óbvia-mas-muito-longe-de-ser-simples seria: encarar “a indesejada das gentes” de frente. Não há outro modo. Se quisermos viver pacificados (e não morrer em guerra com nosso eu), precisamos resolver dentro de nós mesmos essa fobia primordial e latente.

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Renato Russo, inspirado em inscritos budistas, disse: “tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”. Talvez, uma boa paráfrase para essa bela frase seja: tudo é medo, e todo medo vem do desejo de não fenecermos no ocaso.

O roqueiro legionário me fez pensar: não falar sobre a morte não fará com que ela se afaste de mim. Quanto maior for minha consciência de finitude, mais qualidade minha vida terá e mais sentido meus dias terão.

Bingo!

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Jane Castelo Branco
Pedagoga; psicanalista; coordenadora educacional. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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