A sombra na psicologia analítica é um termo bastante conhecido.
Ela a priori se encontra no inconsciente pessoal e representa – de forma simplista – aspecto nossos que negligenciamos.
A sombra, costuma ser definida como a “personificação de certos aspectos inconscientes da personalidade” (Von Franz, 2002).
Nós humanos gostamos de nos enxergar mais inteligentes, mais generosas, como “bom caráter”. Nos vemos mais iluminados e com mais habilidades, do que realmente somos.
Leia mais: Você se aceita como é?
Para Miller in Zweig e Abrams – O que a sombra sabe: uma entrevista com John A. Sanford (2011):
A definição junguiana da sombra foi muito bem colocada por Edward C.Whitmont, analista de Nova York, ao dizer que sombra é “tudo aquilo que foi reprimido durante o desenvolvimento da personalidade, por não se adequar ao ideal de ego. Se você teve uma educação crista, com o ideal do ego de ser benevolente, moralmente reto, gentil e generoso, então certamente você precisou reprimir todas as suas qualidades que fossem a antítese desse ideal: raiva, egoísmo, loucas fantasias sexuais e assim por diante. Todas essas qualidades que você seccionou formariam a personalidade secundária chamada “sombra”.
Pois bem, em nossa infância, para ampliarmos nossas chances de sobrevivência, nos adequarmos a cultura, família e o meio em que vivemos e conseguir aprovação e aceitação, negamos algumas atitudes, alguns traços de personalidade.
Esses traços tidos como negativos tornam-se aquilo que chamamos “eu reprimido” as partes do falso eu que são demasiado dolorosas para serem reconhecidas.
Leia mais: Dumbo e a aceitação de quem se é!
No entanto, a nossa personalidade também inclui qualidades inferiores, das quais não somos conscientes. Essas qualidades se revelam em nosso contato com o meio, com as pessoas e a tendência é “empurrar” essas características para o inconsciente, porque elas envergonham o ego e conturbam o funcionamento da persona.
Ela nos mostra que não somos o que pensamos ser, nosso ego nos ilude, criando a ilusão de sermos bem polidos, iluminados e respeitáveis.
A sombra nos assusta, pois nos revela quem de fato nós somos. Por isso gastamos tanta energia para mantê-la oculta. Nós negamos esse lado negro com todas as nossas forças, ou então projetamos esse comportamento sobre os outros.
Leia mais: Traços de personalidade que costumam ser vistos como defeitos podem ser vantagem
Para Jung (2011):
A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade.
Se formos sinceros e fizermos um pouco de esforço reconheceremos alguns aspectos da nossa sombra. Ela está naquilo que detestamos nos outros, aquilo que me irrita no outro é um gancho para ela.
É comum pensarmos que a sombra só contém aspectos escuros e negativos da personalidade, contudo é a sombra que nos dá à dimensão humana, que escancara a realidade, que coloca nossos pés no chão. Mas que também esconde potenciais ocultos, tesouros inestimáveis que foram desprezados. É um remédio amargo e necessário! O confronto com ela é uma humilhação para o ego.
Leia mais: Teste curto revela sua personalidade
Ela também é a parte não vivida da nossa personalidade, por isso seu dinamismo pode conter tanto o bem como o mal. Essa parte não vivida é inconsciente a pessoa e por isso inquietante e se manifestam de forma extrema, primitiva e desajeitada. Mas nela, existe o potencial positivo para novos dons e talentos.
Para Zweig e Abrams (2011):
A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades não-desenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente recusa-se a admitir e, portanto, negligencia, esquece e enterra… até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.
Leia mais: TESTE: Qual é o seu potencial?
A sombra costuma influenciar as relações do indivíduo com pessoas do mesmo sexo. E é comum a sombra aparecer em nossos sonhos como personagens sombrios do mesmo sexo que o nosso.
Hall e Nordiby (1972, p. 42):
Já dissemos que a sombra é responsável pelas relações entre pessoas do mesmo sexo. Estas relações podem ser amistosas ou hostis, dependendo de vir a sombra a ser aceita pelo ego e incorporada de modo harmonioso à psique, ou rejeitado pelo ego e banido para o inconsciente. Os homens tendem a projetar os impulsosde sua sombra rejeitada nos outros homens, de modo que, entre eles, surgem com frequência, sentimentos negativos.
Leia mais: Relações
Podemos, então conhece-la por meio da projeção em outra pessoa do mesmo sexo geralmente.
A projeção costuma ser um mecanismo e defesa do ego contra aquilo que pode ser doloroso a ele, mas também tem um lado positivo e construtivo.
Bly in Zweig e Abrams (2011) fala sobre a projeção como algo positivo:
Mas a projeção também é uma coisa maravilhosa. Marie-Louise von Franz observou num de seus escritos: “Por que assumimos que a projeção é sempre uma coisa ruim? ‘Você está projetando’ tornou-se uma acusação entre os junguianos. As vezes a projeção é útil, é a coisa certa.”
Leia mais: Vasilisa, A Bela – Uma iniciação feminina nos vales profundos do inconsciente
(…) Marie-Louise von Franz nos faz lembrar que, se não projetarmos, nunca conseguiremos estabelecer uma conexão com o mundo (…).
Conhecer esse lado da nossa personalidade implica em responsabilidade, pois o indivíduo fica em condição de escolher e optar o que assusta as pessoas. Mas se existe possibilidade de escolha, a pessoa deixa de ser apenas manobrada por forças e pode optar, tendo mais liberdade de ação.
Pense o que detesto em mim e nos outros? O que eu digo que nunca faria? Lá está a sua sombra. A sombra é um arquétipo também, por isso é um tema bastante conhecido dos mitos e contos de fadas.
Vemos nos contos de fadas que a sombra causa medo, pavor no herói, mas ela o impulsiona para a ação, para sair da zona de conforto. O que seria do herói sem um vilão, por exemplo? Ele não seria herói!
Leia mais: O que são Arquétipos?
Nos contos o possui a habilidade de conseguir dominar a sua sombra e não destrui-la. A habilidade de transformar a sombra em um amigo que o auxilia nos momentos certos, é uma das façanhas mais altas dos heróis.
Aceitar e assimilar a sombra exige muita coragem, muita força e muito amor. Amor pelo seu lado negativo.
Mesmo sendo um empreendimento que exige coragem, devemos tornar a sombra consciente, negligenciar e recalcar ou identificar-se com ela pode levar a dissociações perigosas. Como ela é próxima do mundo dos instintos é indispensável levá-la continuamente em consideração.
Sem ela não nos tornamos heróis de nossa própria história.
Leia mais: Batman x Superman: o quanto nos amedrontamos diante de uma força maior que nós
O desprezível em si e nos outros, todo comportamento que abominamos, por mais paradoxo que seja, é a nossa salvação.
No conto João de Ferro dos irmãos Grimm, por exemplo, o herói transforma o gigante, o homem selvagem e inferior em seu amigo que lhe auxilia nos momentos de maior dificuldade. Por isso, tudo aquilo que não queremos ser é justamente aquilo que nos cura.
Para finalizar esse texto que deixar uma analogia com a flor de lótus que nasce da lama, mas não se contamina, florescendo linda e bela.
Aceitar, compreender e integrar o lado sujo e enlameado da alma humana é fazer o trabalho sujo.
Leia mais: Renascendo das cinzas
Nossa sociedade nega o mal, nos faz viver de aparências. Mas somente quando decidimos limpar nossa própria fossa é que a alma pode florescer.
Do esterco pode nascer flores belíssimas, do esterco se faz adubo.
Referências Bibliográficas:
HALL, C. S.; NORDBY, VERNON, J – Introdução a Psicologia Analítica, Ed. Cultrix, São Paulo, 1972.
JUNG, C. G. Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
VON FRANZ, M. L. A sombra e o mal nos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 2002.
VON FRANZ, M. L; BOA, F. O caminho dos sonhos. São Paulo: Cultrix, 1988.
WEAVER, R. A Velha Sábia – Estudo sobre a imaginação ativa. São Paulo: Paulus, 1996.
ZWEIG, C; ABRAMS, J (orgs.). Ao encontro da sombra: o potencial oculto da natureza humana. São Paulo: Editora Cultrix, 2011.
Suas prioridades não são as dos outros. Suas verdades não são as dos outros. Então…
O sofrimento não é uma escolha pessoal; ninguém escolhe a dor ou o isolamento emocional…
Prolongar o tempo na cama por mais alguns minutinhos, logo após acordar, ou tirar algumas…
Forças malignas sempre te impedem de cumprir prazos? Entrar no mestrado está sendo mais difícil…
Ficar nervoso ou ansioso em algumas situações da vida como, por exemplo, antes de uma…
Gentileza gera gentileza. Pois é, mas acho que ser gentil não é ser bem educado,…
View Comments
Um dos melhores artigos a respeito do assunto.
Parabéns!