O que você quer ser quando crescer?
Você tem a vida que quis ter?

Essas questões são centralizadoras de modos de viver e de se constituir. São questões que levam a maioria das pessoas a ficar refém de uma imagem de vida fundamentada pela moral dominante de um época – e não precisa muito para constatar que a subjetividade neoliberal é toda ela refém de um Mercado do Ser.

Desde crianças o ser desse contexto nos constrange, somos herdeiros de uma crença na finalidade. Ser alguma coisa… ainda não somos? Espera-se crescer, tornar adulto para então… e nosso pensamento infantil é traído, percebemos que não é fácil crescer e tornar-se o adulto que imaginávamos e esperavam de nós. A cilada está armada, muita culpa pode vir desse rebaixamento de vida que não foi possível atingir.

E de um modo ou de outro não vamos atingir, pois é uma vida orientada muito mais com o desejo do outro e com o que a sociedade espera de nós do que com aquilo que somos. Se a vida fica dependente de um ato da vontade pautado na crença do livre-arbítrio, adquire-se uma culpa primordial: a de não ter ou ser algo.

O neoliberalismo conjuga ser e ter em uma mesma gramática. Incita-nos o tempo todo a posicionar-se diante da questão: você tem a vida que quis? E imediatamente, aparecem gurus ofertando consultorias e kits existenciais. O empreendedorismo de si espalhou pela vida e atravessa o nosso desejo constrangendo-nos com discursos de saúde, bem-estar, corpo e mente saudáveis, equilíbrio mental, respiração como cura, os 10 hábitos de pessoas vencedoras, técnicas para desintoxicar o corpo, técnicas para criar crianças criativas. E essa lista não tem fim, sempre surgirá algum atravessador do desejo querendo colmatar a falta que constitui a subjetividade do homem endividado.

Você tem a vida que quis? Respondemos desde já: já temos a vida, mais do que isso, somos parte da vida e não há nada fora dela de que precisamos para nos autorizar a viver. É levando em conta o contexto em que essas questões nos atingem desde crianças que queremos realizar algumas torções no enunciado até que ele revele sua verdadeira face, a da culpabilização da vida.

De um lado temos o nosso desejo percorrendo uma temporalidade própria querendo gerar modos de vida singulares, de outro temos a sociedade que fará de tudo para nos organizar em um plano cujos referenciais de vida são pautados por ideais. Já percebemos que o mundo platônico é inalcançável, mas o capitalismo tem formas muito mais sutis de nos fazer perder a superfície.

Achamos que estamos no controle, quando na verdade estamos sendo organizados de fora. Não há coação, tudo se dá através de um jogo de seduções e cumplicidades entre poder e desejo. A transcendência platônica foi decorada, no lugar dos ideais as metas, no lugar da salvação a felicidade, no lugar do sacerdote o publicitário, os gurus ou qualquer um que queira operar os corpos e as mentes corroídos pela falta.

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Colocar nosso ser em questão e atrelá-lo a finalidades e funções sociais, no contexto da agenda neoliberal, é a principal via para os vampiros do desejo parasitarem nossa existência. Buscando atingir uma das tantas imagens de vida para ser alguma coisa, perdemos a vida. Perdemos movimento e temporalidade próprios e passamos a transitar um futuro incerto em busca das formas adequadas, uma identidade, um reconhecimento, uma profissão, alguns poderes, etc. Sujeito, livre-arbítrio, liberdade e desejo grampeados em referenciais externos, conjugados com o verbo ser, mantêm-nos infinitamente endividados.

Ora, somos capazes de afirmar a vida, a vida com nossas falhas, erros, fracassos, amores e desamores e, inclusive, distante daquela que quando crianças – constrangidos pelos burocratas do desejo -, queríamos ser? Se não somos capazes disso o que afirmamos são modelos ou imagens de vida que deixam de fora tudo aquilo que não aprovamos, e é somente dessa vida de ideais, tabulada somente com os valores do Bem, que a própria vida é subjugada. E é aqui, dando de cara com a vida cristalizada nas representações e nos ideais que muitos acabam negando a si mesmo, e desse abismo entre a vida na superfície – a nossa vida – e a vida ideal das alturas fica-se à espera de algo de fora que daria uma espécie de autorização para viver – o depositário da falta.

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Spinoza demonstrou em sua Ética que “(…) somos agitados pelas causas exteriores de muitas maneiras e que, como ondas do mar agitadas por ventos contrários, somos jogados de um lado para o outro, ignorantes de nossa sorte e de nosso destino.”¹

Uma sociedade com medo desses fluxos que nos agitam, ou o próprio inconsciente que nos constitui, que fixa o ser como atravessador do devir. Tudo é organizado para conservar a vida, no limite, a vida é temida – temos medo da vida! Mas já não levamos tempo demais para perceber que não conquistamos garantias nenhuma e ainda perdemos nosso próprio fluxo?

“Você não é o seu emprego. Você não é quanto dinheiro você tem no banco. Você não é o carro que você dirige. Você não é o conteúdo da sua carteira. Você não é as calças cáqui que veste. Você é toda merda ambulante do mundo.” – Clube da Luta (filme, 1999)

Queremos garantias antes de se encontrar com alguém, quem será? o que pensará de mim? como irei me portar? Queremos garantias de que não iremos nos constranger. Queremos garantias de que seremos reconhecidos, e corremos atrás de títulos que falem por nós. Queremos garantias de que aquele que nos fala é qualificado para tal, qual a sua profissão? Queremos um significante que nos proteja. E querendo garantias paralisamos a vida.

Nega-se o encontro antes mesmo de experimentá-lo. Com medo da incerteza, tornamo-nos cada vez mais crentes nas formas, cultivamos uma ética do medo, medo de habitar o devir cujos fluxos podem até mesmo nos desfigurar como uma obra de Bacon. E quem disse que ser desfigurado é mal? Certamente, o poder que odeia os fluxos e precisa catalogá-los para controlá-los. Todo encontro com o poder começa com o ritual do inquérito: nome, sexo, idade, profissão, estado civil…

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O dinheiro é o organizador último dos modos de vida. Não interessa o que o desejo quer, interessa o que é mais lucrativo, diz o homem endividado que busca um ser – formado e formatado, pronto para o uso. Mas o dinheiro não é nada quando percebemo-nos enquanto modos de expressão de uma natureza infinita. O dinheiro não compra potência de vida, não compra tesão de existir, não compra intensidade, não compra força criadora, não paga a dívida infinita e não compra alegria².

No máximo compra pequenos prazeres que nos mantêm como viciados e separados daquilo que podemos. O dinheiro é um meio, permite organizar-se – e não ser esmagado – em um mundo sustentado através de poderes, estado e capital, o problema é fazer disso a própria fonte da vida.

Desde a hora que se acorda o que aconteceu conforme o planejado? É verdade que a agenda pode ser inteirinha cumprida no plano das representações. As marcas de memória e hábito dão a matéria ilusória para o Eu creditar-se como o próprio demiurgo. A consciência neurótica que temos foi aperfeiçoada para cumprir tarefas, mas peçamos a ela para criar uma obra, uma música, um poema, um jeito de se relacionar que aumente o tesão de viver… e ela nada pode, pois tudo isso depende de colocar o corpo em variação com outros corpos através de encontros cujas composições são efeitos e não causas. Não adianta dizer que se é feliz conforme manda o dever, o corpo não banca a representação, o corpo sofre quando separado do próprio movimento.

Em meio ao mar de forças que nos agitam, queremos ser o máximo de potência que podemos, buscar um ritmo próprio, conjugar-se da melhor maneira com a natureza para desenvolver algumas direções que aumentem nossa alegria. Finalidade? Preferimos a dos estoicos: viver conforme a nossa natureza. E o que a natureza em nós quer? Efetuar-se, esse é o substantivo, o resto é predicado. Viver em ato não é estar na dependência do ser como invólucro dos ideais.

Ser depois de formado, de possuir um carro, de ter a casa própria ou ser amado? Ser em ato é estar presente, afirmamos o que somos agora e não depois? Se afirmamos o que somos então dizemos sim à vida em todos os seus aspectos, esta vida do aqui e agora e não outra. Se não somos capazes disso, aí caímos em uma das tantas formas de clemência e buscamos abrigo em um modelo a ser alcançado, é aí que o operador da dívida entra nos prometendo uma profissão, uma identidade, um jeito de ser, uma vida, … para que possamos ser reconhecidos, mas como o corpo não sustenta, sem padecer, representar um objeto de desejo do outro a falta se mantém.

A falta é a tentativa de sustentar um ser em um meio de permanente turbulência com uma boia (segurança) oferecida pelo atravessador do desejo, ao invés de aprender a se conjugar com as forças esperamos que a boia nos conserve, mas ela apenas nos leva a atrofiar o movimento, mais cedo ou mais tarde iremos afundar.

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Abdicamos das boias, não há porto seguro a se chegar – ninguém está seguro diante da vida! Ao invés de correr dos fluxos e se fixar em um modo de vida esperando o corpo padecer, queremos aperfeiçoar nossa maneira de se compor com essas forças para quem sabe, quem sabe… singrando no devir possamos quase chegar próximo de coincidir com um ser que nos pareça interessante, mas essa não é a conquista, não se chega a uma vida, a vida já o temos, o que perdemos é a afirmação, afirmar uma vida pelo que ela é e não pelo que ela deve ser, eis a dignidade maior: ser digno daquilo que nos acontece.

“(…) captar o que acontece como injusto e não merecido (é sempre a culpa de alguém), eis o que torna nossa chagas repugnantes, o ressentimento em pessoa contra o acontecimento (…)” – DELEUZE, G. Lógica do Sentido

Viver é ser, inapelavelmente, modificado pelos fluxos, não há o que se falar em objeto do desejo, o desejo quer efetuar a força e não conquistar algum objeto. Quero, diz o desejo, quero você e teus cabelos e teus lábios levemente abertos e teus olhos diabólicos e tuas mãos tão macias e os teus pensamentos tão terríveis e a música e o jeito que se esparramas pelo sofá e lê os versos e a atmosfera alegradora que disso me advém e… – não é que não sabemos conjugar o desejo com as forças, é que nossos fluxos foram destituídos, desde o berço o desejo foi atravessado pelos objetos, daí que o ser corre dos fluxos e busca abrigo atrás de uma identidade ou de uma forma de vida dominante.

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Sabemos as formas representadas podem ser interessantes e estratégicas, afinal, precisamos de uma nem que seja para passarmos imperceptíveis, andar nu por aí torna-nos facilmente capturáveis pelas instâncias de controle. Mas queremos fazer fugi-las para que possamos reconquistar aquilo que somos: potência em ato.

Quando Nietzsche desloca a pergunta socrática ele busca tirar de órbita o plano da dívida, que leva o ser a se hipotecar com os intermediários da verdade à medida que nos neurotiza nos significantes que estão fora da vida, e nos força a focar na superfície: torna-te quem tu és! E o que somos? Vontade de potência e nada mais.

Somos já em ato junto à natureza, o ser já é sempre um desmoronamento, uma atualização daquilo que nos passa, e se não somos dignos desse movimento resta acusar, julgar e odiar. Tanto mais deslocado do movimento, mais o sujeito agarra-se a um modelo de vida e passa a reivindicá-lo para si e para os outros – o medo dos fluxos torna as pessoas apaixonadas pelo poder.

A bailarina que se tornou bailarina não o quis ser enquanto escolha pessoal, tornou-se bailarina à medida que efetuou forças que se expressam enquanto bailarina, o ser bailarina é secundário em relação à efetuação da força. É em meio a experimentações com a vida que de repente encontramos um certo jeito de existir e então passamos a selecionar encontros que vão aprimorando certas formas de expressar nossa potência.

Isso tudo diz respeito a uma arte de viver, fazer da vida a própria obra de arte – a grande questão para Foucault. Tornar-se aquilo que é – seja se expressando como bailarina, professor, pintor, vendedor de picolé… ou de tantos outros modos -, é uma questão de composição de afetos que aumentam o tesão de existir. O grande empresário se mantém por uma rede de poderes, ele nada pode sem o poder, homens se matam ou têm suas vidas paralisadas quando perdem fortunas do dia para noite, por outro lado, lembremos de Estamira³, a catadora de lixo que transbordava potência.

Recuperar o movimento do devir, habitar o acontecimento, nada disso é fácil, pois o mundo ao nosso redor está organizado para afugentar e capturar os devires, roubando o tempo do acontecimento das singularidades para nos colocar a serviço de interesses dominantes.

Afirmar uma vida independe de ser ou ter um dos tantos modelos de vida de sucesso. Há pessoas que se tornaram aquilo que gostariam de ser, identificados com uma das imagens do sucesso e se sentem açoitados pelo mal-estar, pelo cansaço, pela fadiga, pela impotência, pelo ódio… É quando se tornaram uma representação para o outro, uma representação que não se sustenta pela própria força desejante. Por outro lado, há pessoas que não se tornaram aquilo que gostariam de ser e afirmam alegremente o que se tornaram.

Desmontar mais essa armadilha neoliberal possibilita sair da posição de vítima culpabilizada diante da vida, e essa é esmagadora, pois à medida que não nos reconhecemos em uma das imagens de sucesso não nos sentimos merecedores de nenhum devir, e aí toda vida passa a ser acusada. A natureza não dá a mínima para aquilo que queremos ser, ela se expressa de uma forma ou de outra em nós.

Afirmar o movimento do devir e ir jogando com o imprevisível, sem deixar de lado a prudência, aproxima-nos de uma ética mais amorosa e alegradora, diferentemente de quando se tenta fixar em um modelo e à medida que este não é atingido a frustração nos preenche com ódio e depressão. A vida não é uma questão de vontade pessoal, culpabilizar a própria vida em detrimento de um passado ou de um futuro ancorado em modelos interessa, e muito, para o capitalismo, pois rebaixados da vida passamos a vorazes consumidores de modelos oferecidos pelo poder.

1. SPINOZA, B. Ética, parte III, prop. 59.
2. Ver Sobre a alegria: uma ética de amor à vida para diferenciá-la da felicidade.
3. Estamira (2004), documentário por Marcos Prado.

(Autor: Adriel Dutra)

(Fonte: letraefilosofia)

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