Essa foi uma mensagem que chegou em minha caixa, mudei as palavras para preservar a identidade de quem as disse. No entanto, o teor do que esta mãe de duas crianças pequenas me disse era este aí.

Uma mulher/mãe recheada de culpa por não conseguir ser o sinônimo de tolerância, aceitação, respeito e empatia que gostaria de ser. Ela está rodeada por inúmeras regrinhas de convivência entre mães e filhos, que ela não consegue colocar em prática, e recebe dicas o tempo inteiro: de como ser carinhosa, de como ser próxima, de como ser afável, de como fazer o amor brotar em todos os momentos desta relação.

Estas dicas podem se chamar “apego”, “disciplina positiva”, “CNV” ou qualquer outro pacote teórico-prático para iluminar a relação dela com os filhos. Estas ideias chegaram sim, com o intuito de melhorar as relações materno-infantis. Todas estas ideias têm o mérito incontestável de trazer para as praças, para as rodas de mães e para a mesa de domingo na casa das avós o debate urgente sobre a possibilidade real de transformarmos uma sociedade de relações adoecidas pelo autoritarismo.

Sim. Tudo certo.
Acontece que somos humanas e humanos. Acontece que somos feitos muito mais de osso do que de carne. Os ossos são a metáfora de nossas cicatrizes e mágoas, e a carne molinha é a nossa flexibilidade para mudar. O osso às vezes vence a carne.

Eu repito, para não ficar dúvida sobre minha ideia aqui: as teorias são excelentes, talvez o que esteja faltando é um caminho do meio para a tolerância às nossas limitações humanas ao colocá-las em prática.

Ninguém é a materialização de nada disso, sem que seja também o horror do seu avesso. Ninguém é todo tolerante. Ninguém é a beleza, sem o seu contraponto de crueza.

Inclusive este que lhes fala; sou um pai tentando ser o melhor que posso ser e mais um pouco a cada dia. Meus filhos guardarão memórias de nossos melhores e piores momentos, e todos eles já sabem que não sou nada perfeito, têm críticas de sobra a quem sou e a como sou incoerente entre o que pretendo ser e o que consigo fazer. E assim levamos a vida: caminhando no possível, não no ideal.

O ideal é a estrada que nos leva à culpa. O possível é o caminho que nos redime, que nos conforta, que nos faz inclusive avançar um pouco além do que imaginávamos conseguir ser.

Eu me dirijo sobretudo às mulheres, porque a elas nós, homens, devemos eternamente um olhar de reparação de gênero. Elas recebem o fardo de terem que ser muito mais do que conseguem, e muito antes de serem mães. A maternidade chega e lhes aparece como mais um dever-ser, mais uma conta no negativo para ser equilibrada. É muita carga, é muito ônus, é muito desigual este lugar social. Se além disso ele for acrescido de um parâmetro inalcançável de desempenho, eis a receita para o desgaste, a exaustão absoluta e o adoecimento desta mãe.

Leia Mais: Por que a opção em não ter filhos ainda provoca polêmica?

O que aconteceria se estas teorias fossem utilizadas pelo mundo à volta desta mãe para materná-la com os cuidados que ela merece ter? O que aconteceria se nós, homens, nos agachássemos diante das dores destas mulheres, para escutar o que elas têm a nos dizer?

O que aconteceria se nós conseguíssemos fazer disciplina positiva com nossas mágoas conjugais, para enfim conseguir separar o marido ou ex-marido do pai? O que seria de nós, se pudéssemos abrir o nosso coração para escutar as raivas delas, entendendo o quanto faltamos com elas em quase todo o tempo?

O que aconteceria com as relações familiares, se as avós estivessem mais abertas para compreender que as suas filhas têm o direito de ser mães do seu jeito, para além da cultura familiar, e que isto não necessariamente é uma crítica feroz à educação que elas receberam?

O que aconteceria se pudéssemos conversar de forma mais empática entre mães, sem compartilhar modelos rígidos de educação ou sem atravessar as histórias com conselhos que pouco servem e muito angustiam?

Somos humanos, minha gente.
Quando aprendemos uma teoria, ela já se deforma ao entrar em nossas mentes. Elas entram em nossos corpos já cheios de cicatrizes, e por isso as teorias chegam à prática cheias de queloides.

Eu quero muito abraçar você hoje, sabe. Deixar aqui o meu olhar cheio de amor pelo seu tremendo esforço de ser melhor. E quero abraçar também o seu grito, a sua dor de não ser perfeita, o seu desespero de não conseguir não gritar. Aquela hora em que você só é o pó, o que sobrou, o que dá pra ser.

Você merece um abraço gigantesco de cada uma e um de nós. Tomara que você possa ter muitos abraços assim, por perto. Eles são o oxigênio de uma rotina que só nos rouba ar, de tão congestionada de papéis. E que possamos mesmo inventar abraços às mães exaustas, que possamos construir apoio real e criativo para quem não pode mesmo ser tudo para uma criança. Somos uma sociedade injusta na carga que constrói para a maternidade, mas que pode ser sim o real lugar da experiência do apego, da disciplina positiva e da comunicação não-violenta.

Vamos operar no nível materno, também, com ações produtivas e apoiadoras de fato. Nós todos podemos ser pessoas disponíveis para escutar as necessidades destas mães, transformando o que escutamos em verbo no presente do indicativo. Elas precisam, merecem e estão cheias de emoções ambivalentes, esperando por um abraço para serem derramadas – um abraço demorado, que comporte o silêncio da lágrima, a humildade de tolerar a raiva e a vontade de agir como ajuda profunda.

Mas só vale se aquele que abraçar a mãe também se escutar como amor e grito, porque ninguém escapa da própria imperfeição. Os que apoiam também são aprendizes do mesmo caminho. Não há hierarquia humana entre quem estende a mão e quem chora. E, assim, o grito se faz lágrima, a lágrima se faz reparação, e a esperança ganha fôlego para continuar existindo. O grito é a morte da esperança desta mãe em si mesma, e o abraço que ela recebe de nós é o cenário de seu renascimento. E ele está, literalmente, em nossas mãos.

*Texto originalmente publicado no Portal Lunetas

(Autor: Alexandre Coimbra Amaral)
(Fonte: aripe)

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