Dedico esse texto a todos aqueles que perderam alguém próximo por conta do suicídio e aos que, diariamente, lutam contra a depressão, a ansiedade e problemas que muitas vezes levam pessoas a pensar que o fim é a única solução.

Segundo uma pesquisa disponível na cartilha Suicídio: informando para prevenir (realizada pelo Conselho Federal de Medicina em conjunto com a Associação Brasileira de Psiquiatria), 17% dos brasileiros já pensaram em tirar a própria vida. “É o tipo de coisa que todo mundo pensa eventualmente, levando mais ou menos à sério.” – declarou Cíntia*, que passou pela ideação suicida em 2015.

A ideação suicida é um processo que envolve diversas fases. Desde o pensamento intermitente sobre a vontade de pôr fim na própria vida até o planejamento sobre como isso será feito, as pessoas costumam dar muitos sinais de que as coisas não vão bem.

Você está pensando em se matar?
Paula Fontanelle, autora do livro Suicídio: o futuro interrompido, salvou a vida de uma amiga por conta de seu conhecimento sobre o assunto. O pai de Paula cometeu suicídio em 2005 e, para superar o luto, Paula coletou informações, entrevistou especialistas e pessoas que passaram por isso para, em 2008, publicar um livro. “Depois da publicação, uma amiga me ligou e eu comecei a identificar que tinha alguma coisa errada. Eu percebi que ela estava ligando para se despedir.” Sem rodeios, Paula perguntou a amiga se ela estava pensando em suicídio – “Ela caiu no choro. Ela estava com tudo programado para aquela semana.”

Seguindo os procedimentos adotados por especialistas, Paula fez um “contrato” com sua amiga, pedindo para que ela fosse ao médico antes de optar por essa solução definitiva e irreversível. “Eu marquei um psiquiatra de emergência, ela foi e está viva até hoje. É possível prevenir. As pessoas dizem ‘quando a pessoa está decidida, ela vai fazer’. Não é assim, normalmente a pessoa está doente e não sabe disso.” Segundo a OMS, doenças e transtornos mentais estão presentes em 90% das pessoas que cometem suicídio.

No entanto, ter uma doença ou um transtorno mental não significa que uma pessoa vá se matar. “O suicídio é sempre multifatorial, ou seja, diversos fatores contribuem para esse comportamento. Uns mais do que outros, e essa combinação é única para cada pessoa.” – explica Karen Scavancini, psicóloga e mestre em Saúde Pública na área de promoção de saúde mental e prevenção ao suicídio. Os sinais que as pessoas dão também são diversos: desânimo, mudanças bruscas de humor, ansiedade, tristeza e abuso de substâncias tóxicas costumam ser os primeiros sinais de alerta. Despedidas, organização financeira, nostalgia e falta de planos futuros costumam acontecer quando a pessoa já avançou na ideação suicida.

Teng Chei Tung, doutor em psiquiatria, chama a atenção para as falhas da prevenção do suicídio no Brasil. “A abordagem da prevenção do suicídio no Brasil ainda se restringe à conscientização da população e orientações básicas para encaminhamento para serviços de saúde, sem uma estrutura preparada para atender a uma demanda desconhecida e silenciosa.”

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Caso você perceba que alguém de seu círculo social está pensando em suicídio, tente a conversa como o primeiro passo para resolver a situação. “Os familiares e amigos devem tentar entender como a pessoa está percebendo e vivendo os problemas” – orienta o psiquiatra. Além disso, cuidar da saúde mental é fundamental para prevenção. O preconceito em relação à doenças mentais faz com que essas sejam deixadas em segundo plano e a negligência muitas vezes gera consequências irreversíveis.

Pessoas que desconhecem o quadro clínico da depressão tendem a achar que a doença é uma “frescura”. Karen afirma que como essas doenças não são comprovadas através de exames, as pessoas agem como se elas não existissem e fossem fruto “da falta de empenho de uma pessoa.” Scavancini ironiza o comportamento preconceituoso dizendo que ninguém diz a um paciente gripado para que ele pense “em coisas boas” até que sua doença seja curada. Mas, isso acontece com quem sofre de depressão.

A dor do silêncio
Paula Fontenelle não escondeu a causa da morte de seu pai. A escolha dela e de sua família não é a mais frequente, no entanto. “A pior coisa que as pessoas podem fazer nesse momento é fingir que não está acontecendo. A maior dor do luto do suicídio é o silêncio.” Paula aconselha as famílias que passam por isso a não colocar nada “debaixo do tapete”, mas ressalta que é uma situação extremamente delicada e difícil. “Eu mesma passei por uma situação complicada. Contei a uma amiga próxima sobre o suicídio do meu pai e ela disse ‘não fale sobre isso em público’”. Paula explicou para sua amiga como falar sobre o suicídio é necessário.

Cíntia*, que foi citada no início dessa matéria, compartilha da opinião da jornalista. Em abril de 2015, após uma crise de pânico, chegou muito perto de uma tentativa de suicídio. “Eu senti desespero e comecei a levar a sério a ideia que estava na minha cabeça.” Por muito tempo, Cíntia procurou a ajuda que tanto precisava no namorado. “Muitas pessoas que passam por situações assim procuram em amigos, como eu procurei no meu namorado, a pessoa que vai ajudar. E isso não existe, só vai ser uma carga que vai ficar em você e no outro. A pessoa não tem um treinamento para lidar com uma coisa que é muito séria.” Depois do episódio, ela procurou ajuda psicológica e faz terapia até hoje.

Com o passar do tempo, Cíntia começou a lidar melhor com o assunto e hoje vê a ideação suicida pela qual passou como um episódio importante na sua vida. “Hoje eu não consigo reconhecer a pessoa que eu era naquele momento, mas eu vejo como um episódio importante porque me fez pensar sobre várias coisas. Me fez ver que realmente não é isso que eu quero.” Compartilhando essa parte de sua vida, Cíntia descobriu que muitas pessoas que ela conhecia já tinham passado pela mesma coisa. “Muita coisa podia ser evitada se a cultura que a gente tem em torno do suicídio e em torno dos transtornos mentais não fosse como ela é.“

Além das doenças e transtornos mentais, o suicídio também está associado a questões sociais ou a episódios traumáticos. Demissões, finais de relacionamentos, fases decisivas como vestibulares e outros processos seletivos podem servir de gatilho para um desequilíbrio emocional profundo. Em 2014, Bruna* passou por uma fase estressante quando não foi aprovada no vestibular. Fragilizada pela situação e pela depressão, tentou o suicídio, foi hospitalizada e, posteriormente, internada em uma clínica para superar a doença.

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Questionada sobre o período de recuperação, ela afirma que a maioria das pessoas não conseguem tirar algo bom da situação. “Eu comecei a me envolver nas terapias que eram oferecidas e aproveitá-las. Elas me ajudaram a entrar em contato comigo mesma, as minhas qualidades, minha criatividade, quem eu era.” Na terapia individual, Bruna e sua família conseguiram entender melhor a doença e a tentativa de suicídio. Bruna ressaltou que sua luta contra a depressão é diária. “Continuar a terapia depois que saí da clínica foi imprescindível, eu evolui bastante.”

No entanto, o cuidado com a saúde mental no Brasil ainda é pouco valorizado. Consultas psicológicas raramente estão incluídas em planos de saúde privados e no sistema público existem dificuldades iguais ou maiores do que as enfrentadas em outras especialidades. Cíntia, que se recuperou através da terapia, entende que o atual sistema médico brasileiro subjulga o atendimento psicológico, criando uma consequência grave: “A saúde mental é a última coisa que as pessoas pensam.”

Lidando com o luto
A literatura sobre o luto reúne 5 fases pelas quais a maioria das pessoas passam quando perdem alguém: negação ou choque, raiva, negociação, “depressão¹” e aceitação. Paula Fontenelle conta que, num primeiro momento, o choque e a dúvida tomaram conta de sua família: “Eu fiquei cheia de dúvida. Acho que simbolicamente a grande marca visual do suicídio é um ponto de interrogação.”

Em suas entrevistas para o livro, Paula conversou com pessoas que nunca superaram a fase da raiva. “Essa fase eu nunca passei, eu nunca julguei o que o meu pai fez. A dor do outro só ele sabe.” Meses antes do suicídio, o pai de Paula tinha sido diagnosticado com depressão, o que, segundo ela, “deturpou” a visão da realidade. Por isso, principalmente, ela e sua família não sentiram raiva de seu pai.

Junto com o esclarecimento sobre o suicídio, pode vir a culpa. “Depois que você começa a ler sobre isso, você vê que a pessoa deu muitos sinais.” – conta Paula. A jornalista diz que durante algum tempo se culpou, mas percebeu que o suicídio não é culpa de ninguém. “A decisão pela sua vida ou pela sua morte é sua.”

Karen Scavancini afirma que o luto por suicídio tende a ser mais longo e intenso. “Uma das formas é não deixar que o suicídio se torne um tabu dentro da própria família, é aprender sobre o assunto.” A psicóloga explica que na terapia dos “sobreviventes do suicídio” questões como tristeza, culpa e julgamento são trabalhadas. Além disso, conhecer pessoas que passaram pela mesma situação pode ajudar no processo de cura. “Temos os grupos de apoio aos enlutados pelo suicídio, que chamamos de sobreviventes, pois após o suicídio de alguém amado, a pessoa precisa aprender a sobreviver com aquela perda.”

Paula passou por isso e, assim como a psicóloga Karen, entende que cada pessoa encontra uma forma de lidar com a dor. “A melhor ajuda é aquela que a pessoa precisa”, defende Karen. “Palavras de conforto vazias costumam não trazer nenhuma ajuda, mas estar a disposição, presente, atento e com compaixão pelo sentimento do outro costumam fazer grande diferença.” O luto, de maneira geral, demanda paciência e empatia. No caso do suicídio não é diferente.

*Os nomes utilizados na matéria foram trocados

¹ Nesse trecho, depressão aparece entre aspas para diferenciar a fase do luto e o doença mental.

Gostaria de saber mais sobre o assunto?
A cartilha “Suicídio: informando para prevenir”, resultado de um trabalho conjunto da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina, traz informações detalhadas sobre o suicídio no Brasil e passos a serem tomados para evitar.

O site da ONG mundial Befrienders reúne boa parte das informações necessárias para entender o suicídio, desde os mitos até detalhes sobre doenças mentais como a depressão.

O CVV (Centro de Valorização da Vida) presta um serviço gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio desde 1962. Através do site ou do telefone 141 é possível conversar com um dos voluntários do CVV, disponíveis 24 horas por dia.

(Imagem: Jose A.Thompson)

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Natalia Belizario
Estudante de jornalismo, atualmente mora em Amsterdã. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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