“Eu só quero é ser feliz…”, é assim que começa o Rap da Felicidade (https://www.youtube.com/watch?v=z34HcBcqTas). Sermos felizes, será que é isso mesmo que queremos? Como é possível ser feliz, quando somos diariamente bombardeados com spams de informação que nos exigem a felicidade todo o tempo, o tempo todo?

Desde os tempos antigos, as pessoas buscam felicidade e muitos desejos como saúde, beleza, dinheiro ou poder são valorizados apenas porque acreditamos que nos farão mais felizes.

Não entendemos o que é a felicidade e não sabemos alcançar essa condição emocional, apesar de sermos mais saudáveis e longevos do que em qualquer outro momento da história. Será que sempre queremos mais do que alcançamos? Ou será que é aquela sensação de incompletude, uma espécie de mal estar generalizado, que estraga os momentos de felicidade? Quando nos sentimos mais felizes?

Após décadas de experiência, estamos voltados a uma observação menos ingênua e mais realista sobre nós mesmos. Estamos mais dispostos a nos conhecer, desenvolver a autoconsciência e enfrentar nossos medos e inseguranças.

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As redes sociais contribuem para que vivamos numa espécie de reality show onde somos conduzidos a delírios de diversão e felicidade constantes. Nesse espaço virtual todos são felizes e estão no ápice da felicidade, que por ser público, é compartilhado e desnudado para quem quiser “dar uma espiadinha” na linha do tempo.

Mas tudo isso tem um custo.

A mente humana reage a todos os estímulos e nos enche com pensamentos, todo o dia, a todo o momento. As redes sociais transformam pessoas em imagens e informações dispostas em uma exposição de felicidade.

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Quando a mente está cheia, perde-se o momento e tudo que está a sua volta, por isso devemos nos manter presentes. Se nos preocuparmos com o que foi ou o que será, viveremos a ilusão, criada pela mente, de que temos controle sobre o que acontece conosco.

Será que a felicidade está no controle que temos sobre nossas vidas?

O capítulo “Volto Logo” (“Be right back”) da série televisiva Black Mirror traz um conflito interessante sobre a realidade e a maneira como nos sentimos. Trata-se da história de uma mulher que perdeu o marido num acidente de carro e que passa a usar um programa, o qual reúne todas as informações postadas na internet pelo falecido marido, para simular a existência dele. O programa reage do mesmo modo que seu falecido marido reagiria, respondendo perguntas como se fosse ele, numa verdadeira simulação de consciência. Recomendo ao leitor que assista e tire suas próprias conclusões sobre o desejo e a felicidade. (http://www.imdb.com/title/tt2290780/)

Cena no capítulo “Be Right Back” – Black Mirror
Cena no capítulo “Be Right Back” – Black Mirror

Aceitar que não podemos controlar aquilo que nos acontece, mas termos controle sobre nossos estados emocionais ajuda a afastar a ansiedade, o medo e a insegurança de realizar as ações necessárias para alcançar o estado emocional da felicidade.

Vivemos numa sociedade que exalta a felicidade como um ideal cotidiano, onde não há espaço para a infelicidade. Vivemos na era do “don´t worry, be happy”, em que você deve sempre estar se divertindo, viajando, passeando, num verdadeiro delírio de felicidade.

Esse cruel e inalcançável patamar de felicidade é reproduzido pelas redes sociais, alimentando o ideal de buscar o impossível. E quando a realidade surge com as evidências do fracasso, nos sentimos frustrados.

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Muitas vezes, existe uma distância entre o que a pessoa é e o que ela acredita que deve ser. Isso acontece, diariamente, com todos nós. Não há qualquer problema em não estar feliz, pois a maioria dos nossos dias são cinzas e não apresentam o colorido hollywoodiano com dolby surround sound demonstrado nas redes sociais.

A lógica do prazer, felicidade e entretenimento contínuos pode levar à depressão, pânico e transtornos alimentares. Quando desejamos um objetivo muito difícil, talvez não tenhamos, naquele momento, condição para alcançá-lo e, diante das dificuldades, falhamos e nos sentimos frustrados. Quando o objetivo é muito fácil, não desenvolvemos motivação suficiente para fazê-lo, pois não representa um desafio e, do mesmo modo, nos sentimos frustrados.

Quando somos realistas e fixamos objetivos desafiadores e realizáveis tudo fica diferente, pois encontramos alguma dificuldade para cumprir a proposta, garantindo um equilíbrio entre a motivação do e nossa capacidade em realizá-lo. Após alcançar o objetivo, nos sentimos mais capacitados para continuar a jornada da vida.

A superficialidade da obrigação em ser feliz e a ligação existente entre felicidade e consumo é um dos temas discutidos pelo historiador Leandro Karnal. O consumo tem gerado uma sensação de felicidade instantânea. A euforia do consumo desaparece rapidamente e a mente preenche o vazio com o desejo de consumir, o desejo de ser feliz novamente.

O consumo representa a felicidade e pode ser ilustrado com grandes campanhas publicitárias, como a Coca-Cola, que vende felicidade engarrafada: “sinta o sabor de Coca-Cola” e “sinta a felicidade”; ou o Mc Donalds que vende alimento com felicidade: “Amo muito tudo isso”.

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Esse tipo de campanha não é exclusividade do setor alimentício, pois encontramos a felicidade como um produto, empacotada na forma de liberdade e exclusividade como nas campanhas da marca Harley-Davidson: “você no comando da sua vida”, “sua vida, suas regras”, “troque meras lembranças por momentos inesquecíveis”.

A felicidade é o produto comum distribuído em diversos setores empresariais. A diferença encontra-se na forma como ela é empacotada. O Banco Itaú empacota a felicidade com “feito para você” e várias outras empresas fazem o mesmo. Cada qual com seu pacote, mas o conteúdo continua sendo a felicidade.

O que fazemos para sermos felizes? Se felicidade é consumir, estimulados pela emoção do pacote, consumimos e nos endividamos. Esse ciclo de compra do produto felicidade tende a gerar muitos problemas, trazendo profundas frustrações.

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Sou da época que a TV tinha 4 canais: Globo, SBT, Manchete e Bandeirantes, e colocávamos bombril na antena da TV para melhorar a imagem da transmissão. Hoje temos imagem Nano Cristal de Ponto Quântico, quase tão real como a vida, e mais de uma centena de canais televisivos, além do conteúdo infinito de informações contido na internet.

Tecnologicamente, temos uma variedade tão grande de informações que fica muito difícil escolher. Por isso, muitas pessoas passam horas na frente da TV zapeando o controle sem assistir a nada. O acesso a todo esse conteúdo não possibilita um consumo significativo, no entanto, o fato de termos acesso já é suficiente para nos trazer a sensação da felicidade.

Se a sensação passar, a fornecedora de canais poderá lhe oferecer mais uma outra centena de canais, que você também não conseguirá assistir, mas o acesso lhe trará nova sensação de felicidade.

A forma como essa realidade se apresenta para nós no universo televisivo está migrando para o mundo digital na internet. O número de crianças e adolescentes que escolhem a internet para alcançar conteúdos que antes eram exclusividade das redes televisivas cresce em proporção inacreditável.

O mercado digital é influenciado por pessoas que estrategicamente transformam suas vidas numa plataforma online, atraindo a atenção de milhões de seguidores. Infelizmente, há uma grande massa de conteúdo que aplica a mesma lógica do ser feliz sempre, a todo custo.

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Na internet, as pessoas escolhem conteúdos com os quais sintam conexão e identificação. Para isso, as redes sociais estão produzindo conteúdos cada vez mais profissionais, contando com vinhetas, entrevistas e tecnologia.

Fica cada dia mais difícil deixar de desenvolver algum transtorno ou distúrbio com a imagem que temos de nós mesmos em um mundo que dita sobre o corpo que você deve ter, que roupa você deve usar e que viagem você deve realizar.

Vivemos em uma era de adaptação tecnológica, pois nosso comportamento tem sido continuamente atualizado diante da realidade pulsante e mutante da nossa tecnologia. O futuro do consumo de informação na internet é orientado pelos novos hábitos de consumo, adquiridos pelos mais jovens, como minha filha de 10 anos, Rafaela, e seus amigos.

Há poucas décadas, as crianças tinham acesso ao conteúdo de um programa infantil, se esperassem o início na frente da TV. Ir ao banheiro durante o programa era o mesmo que perder parte dele, pois não havia a possibilidade de pausá-lo.

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Hoje, o conteúdo está na internet, alocado em canais do Youtube, à disposição para ser acessado instantaneamente. A produção do conteúdo é feita por um número incomensurável de pessoas, gerando preocupações em relação à proteção de crianças e adolescentes. Isso significa que podemos encontrar desde conteúdos excelentes e adequados à idade, ou mesmo informações perversas e sádicas.

O meio televisivo passará nos próximos anos por uma revolução, pois estamos consumindo informação, cada vez mais, pela internet.

Isso mostra que as pessoas estão desenvolvendo novos hábitos, que podem ter resultados excelentes como no exemplo citado ou resultados perversos, como no suicídio do adolescente Vinícius Gageiro Marques. O caso chama a atenção não pela perversidade, mas pelo meio utilizado, onde o sadismo é protegido pelo anonimato virtual.

Dois meses antes do suicídio, Vinícius estava em internação domiciliar por determinação de seu psicanalista. Tratava-se de um adolescente descrito como “extraordinariamente sensível e inteligente”; filho único, alfabetizou-se em francês quando morou em Paris com os pais, o pai é professor universitário e a mãe é historiadora e biógrafa de Jacques Lacan. O mundo doía para o adolescente onde a questão não era morrer, mas a de fazer a dor parar.

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Para isso, o adolescente enganou os pais, dizendo que gostaria de fazer um churrasco para convidar uma garota, que estava interessado, e não queria os pais por perto. Para não levantar suspeitas, comprou ingressos para um show musical que aconteceria depois de sua morte e iniciou um tratamento de pele, simulando um futuro onde que não pretendia estar.

No mundo virtual, o adolescente estava pedindo instruções para pessoas na internet, sobre o melhor método de suicídio. Ninguém tentou dissuadi-lo ou forneceu ajuda. Vinicius morreu em 2006 por asfixia, auxiliado e estimulado por pessoas anônimas na internet. Esse caso torna-se emblemático, por ser inédito no Brasil e por mostrar que muitos adolescentes e jovens habitam dois mundos, em que muitos pais estão alcançando apenas um.

O mundo virtual contém os mesmos perigos do mundo real. É possível diminuir os riscos, mas eliminá-los é um trabalho de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo foi um dos mortais mais astutos, pois enganou Tânato, o Deus da Morte, duas vezes. Quando morreu de velhice, foi condenado por toda a eternidade a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha; e toda vez que estava chegando ao cume, a pedra rolava, impulsionada por uma força irresistível, montanha abaixo até o ponto de partida. Por isso, tentar eliminar completamente os riscos da internet é iniciar um longo e repetido esforço fadado a um inevitável fracasso.

Ademais, seria muito inocente de nossa parte, imaginar que os filhos nunca terão a curiosidade de passear em locais virtuais que nós não aprovaríamos. A curiosidade faz parte de todos nós e dizer para um jovem que ele não deve fazer algo, muitas vezes induz ao comportamento que se quer evitar.

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A maior parte dos seres humanos tem histórias para contar sobre traquinagens e perigos na infância e adolescência. Fato é que essas histórias eram exclusivas do mundo “real”, da experiência vivida. Hoje, a mesma curiosidade e hábitos foram transferidos para o mundo virtual e, a cada dia que passa, fica mais difícil distinguir o “real” do virtual, pois tudo afeta nossa vida social e pessoal.

A melhor proteção que podemos fornecer às pessoas é a autoconsciência e o autocontrole. Desenvolver um senso crítico próprio sobre o conteúdo apresentado na internet para selecionar e usufruir das informações.

Olhe ao seu redor e reflita por um momento a quantidade de tempo que as pessoas passam conectados no Facebook e no WhatsApp. Agora imagine a quantidade de informações que são transmitidas por esses meios de comunicação e como passamos a agir e desenvolver hábitos a partir de seu uso. Estamos em ascensão direta a um novo patamar da comunicação humana.

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Vivemos um momento de transição, onde nossas vidas são intensamente afetadas pelas redes sociais. Estamos preparados para enfrentar os desafios relacionados à fusão do mundo virtual no mundo “real”? Será que estamos aptos a enfrentar os efeitos dos nossos novos hábitos de acesso ao WhatsApp, Facebook e outras formas de comunicação?

Estar apto a enfrentar a nova realidade é ter desenvolvido valores subjetivos que funcionarão como referência de nossa própria felicidade. Trata-se de realizar aquilo que se quer e não o que os outros querem que realizemos.

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O Universo está em constante mudança e, da mesma forma, os conceitos sociais daquilo que é bom ou mal, do que me faz feliz ou infeliz, daquilo que julgamos adequado ou inadequado são mutantes e permeáveis a mudanças culturais e sociais.

O conhecimento dos nossos desejos, capacidades e limitações, combinado com a coordenação equilibrada e prática desses elementos garantem uma mente menos reativa aos elementos externos, aumentando a consciência para enfrentar, sem hesitação, as vicissitudes da vida.

A felicidade não passa de um conjunto de decisões individuais arbitrárias na construção de uma vida subjetiva e satisfatória, dentro dos limites do ser-humano. Esse conjunto é orientado por hábitos e motivação. Isso significa que atribuir infelicidade a elementos externos é uma das fugas produzidas pela nossa mente, com o objetivo de ofuscar uma difícil verdade: a de que somos os únicos responsáveis pela nossa própria felicidade.

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O afastamento dessa zona de conforto desnuda a realidade e nos faz crescer, pois, no curso da vida, desenvolvemos respostas para solucionar problemas existenciais e lidar com o mundo. As respostas estão ligadas às necessidades da pessoa, originadas das interações entre sistema neurológico e estímulos externos.

Todos temos a tendência de mudar nossa psicologia para atender novas condições de existência. Esse processo é intercalado por infinitos intervalos de mudança, ou para tentar ajustar as condições externas à nossa necessidade individual, ou para nos adaptar diante das condições externas.

Na primeira situação, temos um sistema de autoexpressão, e na segunda um sistema de negação (negar a si mesmo). A oscilação entre os dois sistemas dá o aspecto cíclico e dinâmico, já que se alternam entre o mundo externo e as tentativas de mudá-lo e o mundo interno e as tentativas de encontrar paz, o que pode significar uma mudança na previsão do curso provável de vida daquela pessoa.

E tudo isso acontece pois tomamos decisões e o fazemos por razões emocionais, não racionais. Quando alguém toma uma decisão, é guiado pelo estado emocional justificado pela racionalidade e lógica próprias. A razão é o convencimento interno para emocionalmente nos sentirmos bem.

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Somos convencidos de que, para nos sentirmos bem, precisamos viver e mostrar o sucesso que não alcançamos, transformando a vida numa exposição de falsificações do nosso verdadeiro eu.

Nossa vida é nossa obra prima e deve ser genuína para funcionar. A aplicação de uma fórmula de felicidade é o mesmo que trancafiar o poder artístico de viver, por sentir vergonha em expor quem verdadeiramente somos. Viver feliz nos dias de hoje exige aumento da autoconsciência, da resistência à frustração e perseverança na execução dos projetos de vida.

A recompensa é uma exposição permanente e exclusiva, na qual sua Obra Prima ficará exposta apenas para um visitante, você.

(Autor: Gustavo Canavezzi)
(Fonte: mgpconsultoria.com.br)
*Texto publicado com autorização do autor

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