MAN AND WOMAN ON COUCH, OPPOSITE SIDES

Hábitos tóxicos de relacionamento, podem passar despercebidos e a maioria das pessoas pensam que são normais. Não há como aprender o que é normal e positivo em uma escola, nem mesmo com aulas de educação sexual.

Claro, os educadores nos ensinam a biologia do sexo, a legalidade do casamento, e talvez possamos até mesmo ler algumas histórias de amor obscuras para aprender sobre como não ser. Para falar sobre o assunto falamos com a sexóloga Sônia Eustáquia Fonseca.

1 – Em histórias de romance podemos ver casais totalmente apaixonados e que são capazes de fazer qualquer coisa um pelo outro, até mesmo usar chantagens para continuar juntos. Podemos ver essa cultura do amor doentio implantado na mentalidade de muitos casais?

Infelizmente sim. Eu já vi casais de namorados pensando em ficarem juntos para sempre “vigiando” o parceiro, como a utilização de detetives dentre outras práticas nas redes sociais. Muitas vezes deixando-se engravidar sem planejamento ou o consentimento do parceiro. Estas são formas tóxicas de começar uma relação de casamento.

2 – Até que ponto alguns hábitos são considerados amor de uma forma sadia e não doentia? Quais são as formas tóxicas do amor?

Existem alguns hábitos de uma relação tóxica que muitas vezes os casais acham normais porque os consideram “amor”. Então, é bom ficar atento, porque esses hábitos não representam o amor, e sim algo tóxico para o relacionamento. Por exemplo:

A. Segurar o relacionamento como refém – Qualquer discussão é motivo para ameaçar terminar ou divorciar. Ou, ao invés de falar “eu não gosto que você me trate assim” a pessoa fala “eu não posso mais viver com alguém que me trate assim”. Isso prejudica o relacionamento como um todo porque cria um drama desnecessário. Qualquer pequeno problema coloca o relacionamento em jogo. Não é assim que uma discussão em casal deve ser, tente resolver o problema em si sem envolver ameaças desnecessárias.

B. Falar em “charadas” e outras comunicações “fechadas” – Muitos casais não se comunicam como deveriam. Falar em charadas é falar em poucas palavras alguma insatisfação e querer que o seu parceiro descubra o que você realmente sente e quer dizer. Isso é uma péssima forma de comunicação e só afeta o relacionamento negativamente, porque é muito provável que a outra pessoa não irá desvendar o que você realmente quer dizer, porque afinal, ninguém tem bola de cristal. Esse tipo de comportamento também mostra que o casal não tem proximidade e nem se sente confortável em ser honesto um com o outro e então escolhem se comunicar em enigmas. Isso mostra muita insegurança no relacionamento. O melhor a fazer é falar dos seus sentimentos e insatisfações abertamente.

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C. Ciúmes doentio – Você sente o desejo de seguir o seu parceiro, checar secretamente o celular dele, aparecer de surpresa no trabalho dele só para ter certeza de que você está no controle de tudo. Isso não é sadio de forma alguma. E ao contrário do que muitas pessoas acreditam, isso não é amor. Pessoas controladoras, manipuladoras e inseguras agem dessa forma. O amor não controla e não manipula. Então confie no seu parceiro, se ele respeita o relacionamento pode ter certeza que ele nunca faria algo que poderia acabar com ele.

D. Culpar o seu parceiro por suas próprias emoções – Tem dias que são difíceis e todos nós passamos por isso. Pode acontecer de naquele dia que você não está bem o seu parceiro não lhe dar a atenção que você precisa. Ele pode estar ocupado com algo ou distraído. Então você decide que o culpado é ele por ser insensível com você. Então, você desconta toda sua frustração nele. Fazer isso está errado porque a culpa de você estar se sentindo assim não é do seu parceiro. É claro que o seu parceiro pode lhe dar suporte em momentos tristes, mas quem pode mudar como você está se sentindo é somente você mesma. Seja responsável por seus próprios sentimentos, você os controla.

E. Comprar presentes para sanar os problemas da relação – Em todo problema que aparece no relacionamento um dos dois compra algo, pode ser presente, uma viagem ou qualquer coisa que tire o foco do casal do real problema. Se na noite anterior vocês dormiram separados por terem brigado, ele então decide comprar algo para “acabar” com a briga. O presente não vai resolver os problemas do casal, isso vai apenas tirar o foco. Evite comprar coisas para solucionar brigas. Converse, tente resolver o que deve ser resolvido. Evitar conversas do tipo pode apenas acumular os problemas e mais para frente vocês terão uma bola de neve para resolver.

F. Trazer competição no relacionamento – Vocês não estão competindo um contra o outro, até porque não faz sentido já que vocês estão no mesmo time. Então, não queira ser melhor, se impor, manter pontos de quem errou mais, de quem falou o que não devia ter falado ou de quem esqueceu algo importante. Se você realmente perdoou o que ele fez no passado, esqueça, apague o que aconteceu.

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3 – O que deve ter um relacionamento saudável?

Um relacionamento saudável deveria ter as seguintes características:

– Confiança– É normal sentir ciúmes às vezes, porque o ciúme é uma emoção natural, mas o importante é a forma como reage a pessoa que sente ciúmes; não pode haver um relacionamento saudável sem que exista confiança entre os parceiros.

Honestidade– É difícil confiar quando um parceiro não está sendo honesto; quando se pega o outro em uma mentira, a confiança repousa em terreno instável.

– Respeito– Em um relacionamento, o respeito significa que cada pessoa valoriza o outro, compreende-o, e nunca questiona os limites do seu parceiro.

– Boa comunicação – Você nunca deve reprimir um sentimento sobre seu parceiro, só porque você não gosta de escutá-lo; é importante que exista uma boa comunicação entre ambos, e que digam o que pensam um do outro abertamente.

– Apoio – Vocês devem se apoiar tanto nos bons quanto nos maus momentos: você deve estar ao lado do seu parceiro tanto para felicitá-lo pelos seus êxitos, quanto para consolá-lo e apoiá-lo nos momentos difíceis.

– Igualdade– Em um relacionamento deve haver um equilíbrio justo por parte de ambos, caso contrário, a convivência torna-se uma luta pelo poder.

– Tempo para cada um – Em um relacionamento saudável concessões devem ser feitas e cada um deve aproveitar seu tempo livre como faziam antes de estarem juntos; não devem renunciar a ver seus amigos ou abandonar as atividades de que gostam.

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4 – Quais seriam os sinais de alerta para um relacionamento que está se tornando tóxico?

Um sinal de advertência de abuso físico, verbal ou emocional. Devemos ficar atento às seguintes questões:

. Parceiro(a) irritado se você não está disponível.

. Critica a forma como você se veste.

. Não te deixa sair ou conversar com os amigos.

. Não te deixa fazer as atividades que você gosta.

. Levanta a mão para você quando está com raiva.

. Tenta forçá-lo a fazer sexo quando você não quer.

5 – Quando se trata de lidar com os detalhes dos relacionamentos afetivos não temos muitos parâmetros … ou pior, muita gente procura respostas em colunas de conselhos nas revistas, principalmente as femininas. O que você acha disso?

É verdade, não temos muitos parâmetros. Mas parte do problema é que muitos hábitos de relacionamento insalubre são produzidos e impregnados em nossa cultura. Adoramos o amor romântico – aquele amor romântico vertiginoso e irracional que de alguma forma encontra nas brigas e em um ataque de lágrimas. Assim, nossos parceiros devem ser vistos como alguém para compartilhar apoio emocional.

6 – Os relacionamentos geralmente começam com grandes expectativas. Mas é com o passar do tempo que se pode avaliar se podem ou não ter um futuro promissor. Quais os indícios de que o relacionamento não tem futuro?

A. Deixar-se de lado pelo outro – Esse tipo de desequilíbrio vai deixá-lo ressentido. Um relacionamento saudável requer igualdade, com ambos se sentindo valorizados.

B. Sentir que está perdendo tempo – Independentemente da sua idade, você começou a pensar que o tempo que você está gastando nessa relação poderia ser melhor gasto ao explorar outras possibilidades.

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C. Um se empenhar no relacionamento, mas o outro não – Uma união saudável precisa que as duas pessoas carreguem o seu peso e invistam igualmente na parceria.

D. Sentir-se confuso – O tempo deve trazer importantes revelações sobre o seu relacionamento. Por isso, se você está mais confuso agora do que semanas ou meses atrás, pode ser um mau sinal.

E. Não compartilhar o mesmo nível de motivação e ambição – Tanto faz se o objetivo em questão é avanço da carreira, estudar mais ou desenvolvimento pessoal, cada parceiro deve ter metas e um plano definido para alcançá-las.

F. Ter Carreira e objetivos financeiros fora de sincronia – Pergunte a si mesmo como você e seu parceiro imaginam seu padrão de vida, renda e progresso profissional no futuro.

G. Não se sentir você mesmo ao lado do outro – Tentar mudar ou esconder como realmente é indica que há algo de errado.

H. Pensar sempre se há alguém mais adequado para você – É normal ter dúvidas ocasionais e perguntas sobre as perspectivas de longo prazo de sua parceria, mas não ignore os sinais de alerta se esses pensamentos se tornam cada vez mais frequentes.

I. Mentir – Mentiras destroem um componente fundamental em qualquer relacionamento: confiança

J. Ter visão de futuro nada clara – Você deve ser capaz de imaginar o seu relacionamento cinco, 10, 20 anos à frente com alegria e clareza

L. Ter um parceiro não-realista – Em um relacionamento saudável, as pessoas reconhecem que ninguém é perfeito e que certamente haverá problemas para resolver. Toda relação exige muito trabalho e perseverança.

M. Desejar ter um espaço maior – Todo mundo precisa de um tempo para si. Mas se o “meu tempo” se tornou mais atraente que o “nosso tempo”, considere isso como um sinal de aviso

N. Ter incompatibilidade de valores e crenças – Seja realista sobre a vida e desejos dos dois. As metas apontam para a mesma direção ou há problemas graves à frente?

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O. Perceber que a atração inicial não levou a um vínculo duradouro – Sentir-se atraído apenas por qualidades externas, como beleza e sorriso agradável, mantém um casal junto por pouco tempo. Uma forte atração física sem nada extra para alimentá-la pode acabar rapidamente.

P. Ter parceiro pegajoso e dependente – Poucos relacionamentos são capazes de sobreviver ao ciúme extremo, dependência excessiva e comportamento controlador. Tais atitudes indicam que a pessoa não tem uma formação emocional sólida.

7 – A literatura de auto ajuda é útil para melhorar uma relação tóxica?

Não, esse tipo de literatura não útil, os homens e mulheres são semelhantes no mundo inteiro, mas, ao mesmo tempo são diferentes em sua subjetividade. E qualquer tipo de generalização certamente não ajuda. Lembrando que mesmo dentro da mesma família as pessoas se mostram completamente diferentes.

8 – Existem muitas pesquisas sobre o assunto?

Felizmente, tem existido muita pesquisa psicológica em relacionamentos saudáveis e felizes nas últimas décadas e os resultados apontam alguns princípios gerais para se conseguir bons relacionamentos. Na verdade, alguns desses princípios realmente vão contra o que é tradicionalmente considerado “romântico” ou normal em um relacionamento.

9 – Quais são as tendências mais comuns em relacionamentos saudáveis?

Muitas pessoas pensam que certos comportamentos são saudáveis, mas, podem se apresentar como verdadeiras armadilhas tóxicas destruindo o que há de melhor em cada um.

A. Armadilha da idealização -. É a armadilha de sempre ficar projetando no outro o que você espera dele, nunca permitindo que Ele seja o que de fato é. O pior é que muitas pessoas vivem uma vida inteira assim, com eternas cobranças! Vivem o conto de fadas e se esquecem de encarar a realidade.

B. Armadilha da história pessoal – Uma segunda armadilha, que pode ser encarada em um relacionamento conjugal, é a “história pessoal”. Quando entramos em um relacionamento, trazemos conosco, em nossa bagagem existencial, um arsenal de vivências afetivas. Situações que nos fizeram quem somos, marcando positiva e negativamente nossa identidade. E é com essa bagagem existencial que vamos nos relacionar com o outro. Nessa hora, é preciso muita paciência e vontade de entender cada um a si mesmo, e entender o outro como um outro.

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C. Armadilha da negação – Uma terceira armadilha é a negação de si em prol do outro. Quando nos relacionamos com alguém, há uma necessária negação de algumas realidades em prol do bem comum do relacionamento. Essa negação é feita por acordos tácitos entre as partes.

Quando falo da armadilha da negação de si em prol do outro, falo de uma negação existencial, falo da negação do que em você é essencial, e isso não é amor. Quando você nega a essência de si mesmo, trilha um caminho de morte de sentido da vida. E muitos relacionamentos, em vez de trazer vida, trazem morte para aqueles que se relacionam.

10 – Existem casais que usam as transgressões passadas para tentar justificar uma questão atual; isso pode dar um bom resultado?

Nunca dá bons resultados, é o que eu chamo de “levantar defuntos”. Geralmente a conversa vira algo estéril e não dá resultado algum, a não ser um desgaste para a relação.

11 – Em vez de expressar um desejo ou pensamento abertamente, o parceiro (a) deseja que o outro leia mente, isso também é um erro, não é?

Sim, é um grande erro. Porque é desejar o impossível. As pessoas podem e devem ter comunicações assertivas. Falar claro o que quer, como quer e a que hora quer.

12 – É importante que as pessoas procurem ter sempre uma boa saúde mental, para manterem uma relação madura, existem algumas alternativas como cursos, vivências e até mesmo uma terapia individual, não é mesmo?

Sim. A busca de um profissional é essencial nesses casos. Ele saberá fazer uma boa escuta e a partir dela sugerir atitudes assertivas e saudáveis para o casal.

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Sônia Eustáquia
Colunista da Revista Atrevida cerca de 6 anos, tem formação e trabalho em Psicanálise e Terapia Ericsoniana. Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Psicologia e Psiquiatria da Infância e Adolescência, Neuropsicologia e Teologia. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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